quinta-feira, 5 de março de 2015

O Monte Baigong

Estirado na cama, Sato assiste TV, ignorando Julie. Com o notebook nos joelhos, ela tenta, em vão, planejar com o namorado os detalhes da viagem ao Monte Baigong, na China, onde conheceriam uma suposta base de lançamentos alienígenas recém descoberta.

- Sato, lembra em qual site vimos o hotel?
- Não…
- Pode me dar atenção, pelo menos? Foi você que encheu meu saco por causa dessa viagem.
- Depois, Ju.
- Vou achar no histórico.

Minutos depois, Sato levanta-se aflito.

- Ju, o que você tá fazendo?

Vidrada na tela, boca entreaberta, a mulher parece em transe.

- Sai do meu histórico, Ju! Nunca xeretei na sua máquina.
- Quem é Samanta?
- Oi? Como assim quem é Samanta?– atrapalha-se – Não conheço, por quê?
- Como pode entrar tanto no perfil de alguém que não conhece? Olha isso, praticamente todos os dias.
- Sai daí, vamos conversar.
- E por que tanta visita a site pornô? Meu Deus! Tem links que não acabam mais!
- Deve ser coisa do filho da faxineira.
- De madrugada? Não teriam sido seus alienígenas? – ironiza.
- Chega! Dá isso aqui! – retira a máquina das mãos da esposa e a fecha.
- Nós não temos uma boa rotina sexual? 
- Temos, claro que temos. Isso é coisa de homem, vai! – minimiza - Quem diz que não vê mente!
- E o que você fica vendo?
- Você não leu?
- Não, só vi palavras esparsas. Me pareceu pornografia, mas não identifiquei o que era.

O rosto lívido de Sato ganha alguma cor após o esclarecimento.

- Ju, as vezes fico sozinho e dou uma olhadinha. Geralmente após uns uísques – abaixa a cabeça, simulando culpa - É vergonhoso, devia ter apagado, ou usado uma aba anônima, sei lá.
- E quem é Samanta?

Acuado mais uma vez, exalta-se tentando ganhar tempo:

- Ju, presta atenção: jamais vasculhei suas coisas e odeio quando fazem isso comigo! Mulher nenhuma… repito: mulher nenhuma…  

Sato é interrompido, também aos gritos, pela namorada:

- Não fiz por mal, mas nem pense em inverter o jogo! Quem é Samanta?
- Uma aluna… que me pediu orientação – desvia o olhar.
- Agora deu pra mentir? Vai virar moleque com quase 40?
- Não me ofenda! – tenta ser enérgico.
- Deixa eu ver seu facebook.
- Tá bom, conheci na comunidade de ufologia. Ela queria se informar e eu…
- Mentindo de novo. Deixa eu ver, vamos!
- Meu face…? Peraí, nunca tivemos esse tipo de relação.
- Sato, se não me mostrar, vou imaginar as piores coisas, sair dessa casa e não voltar. Se me mostrar, talvez tenha alguma chance.

Congelado, Sato se vê em um pesadelo. Perdê-la arruinaria o Projeto Monte Baigong, racionaliza. Sendo assim, pressentindo a hecatombe, abre o note e loga em seu perfil.

- Quero ver a tal Samanta Alecrim. É esse o nome da “aluna”? – ironiza.
- Pronto, é essa menina. Mas eu juro que mal a conheço.
- Clica em mensagens.
- Precisa? Não aconteceu nada – suplica, deixando-se vencer pela pressão mais uma vez - Ok, sem rosnar.
- Aí! Não conhece, né? Olha esse tanto de conversa. Deixa eu ler.
- Não vai confiar em mim?
- Você conta uma lorota atrás da outra e ainda pede pra eu confiar? Sai pra lá! Deixa eu ver essa merda do começo.

Nervoso, Sato anda de um lado para o outro do quarto.

- Tá bom, Ju! Fecha isso!
- Não chega perto!

À medida que avança na leitura, o rosto de Julie se contorce em variadas expressões de sofrimento. Quando chega ao fim, esfrega o rosto, engole o choro e respira fundo.

- Eu não acredito no que está acontecendo – consegue falar.
- Ju, fui filho da puta, eu sei, mas não aconteceu nada.
- Não aconteceu porque ela não quis, seu sujo!
- Calma, vamos conversar sem nos agredir
- Não tem conversa. Tá aqui: você cheio de gracinhas, chamando pro bar todos os meses e ela sempre te cozinhando, seu ridículo!
- Pois é, eu errei, mas não nos encontramos nem uma vez.
- Intenção também é trair.
- Mas é o menor dos males, vamos encerrar essa história, por favor – Sato leva as mãos ao rosto, em uma espécie de choro, porém sem lágrimas.

Após instantes de imobilidade e silêncio, Julie inquieta-se, parece ter despertado para algo importante. Volta a ler a troca de mensagens febrilmente.

- Para de se torturar, Ju!
- Aqui, achei! Dia 26 de setembro: vocês se encontraram! - conclui, entre lágrimas, sem demonstrar raiva, apenas assumindo a derrota.
- Tá louca? Deixa eu ver - confere a conversa – Ok, eu marquei, mas acabei não indo.
- Sato, vocês marcaram no bar e só dias depois continuaram a conversa pelo face, sem nenhuma justificativa sobre desencontro. Claro que se encontraram!
- Não, não! Pode ver que depois eu, bem… tentei convidá-la de novo.
- Claro, vocês devem ser insaciáveis.
- Eu me lembro desse dia.
- Qual vai ser a mentira agora?
- Fui ao Bar do Abílio com o Juca e o Madureira.
- Muito conveniente! E claro que os dois sujos vão confirmar.

Julie sai do quarto, deixando o homem a se amaldiçoar por não ter apagado o histórico. Ela não perdoaria, era evoluída demais, européia demais, julga. Pode entender quase tudo, menos ser feita de otária. Quase tudo?, hesita Sato, sofrendo em meio ao dilema que se desenha em sua mente. Renunciar à namorada ou tentar a salvação, arriscando aniquilar sua honra?, pergunta-se. Não pensa mais.

- Julie – grita.
Laissez-moi! – responde Julie, do outro quarto.
- É sério, vem aqui!

Sem separar de duas sacolas de roupa, Julie para na porta do quarto.

- Eu… bem, tenho como provar que não estive com a Samanta naquela noite.
- Palavra de amigo seu não me vale de nada.
- Pode entrar no meu histórico e ver. Cheguei por volta de 11:00 e fiquei vendo…
- Pornografia?
- Sim.
- Deixa eu conferir.
- Calma, eu mostro. É só a data que interessa, não é?

Intrigada, Julie vê Sato abrir o computador com ar ainda mais perturbado do que antes.

- Tá vendo? Comecei a navegar 11:40.
- Nossa, você ficou vendo pornografia até 4:30?
- Sim… ou melhor, não, vi outras coisas também. Não importa o que eu vi.
- Importa sim! Pode ter ficado falando com ela, ou sei lá qual safadeza. Tira a mão.
- Não!

Obstinada, a mulher consegue tomar a frente. Após conferir alguns links…

- Ju, quero que entenda antes de me julgar.
- Mas o que…?
- Na Grécia antiga isso era comum. Fiquei curioso.
- Sato, você é tarado em merda. Gente comendo merda, nadando na merda, cascata de merda… realmente não conheço você!
- Mas eu não te traí!
- Agora tô com repugnância ainda maior de você.
- Julie, você é francesa, não devia ligar pra essas porquices.
- Adeus, Sato!

Vinte dias depois, do alto do Monte Baigong, Sato e um homem de pele lilás assistem ao diálogo anterior de uma pequena tela. O homem lilás desliga o aparelho e comenta:

- Sua última frase foi deplorável.
- Como conseguiram filmar tudo isso?
- Não podíamos perdê-los de vista.
- Enfim, o fato é que a Julie não quis mais me ver e as amiguinhas dela espalharam entre alunos e corpo docente a minha… uhm… peculiaridade. Hoje me chamam de bafo de merda pelas costas.
- Sua esposa era muito superior à tal Samanta que você tentou trazer.
- Tá, mas se era pra começar de novo, queria que fosse com outra mulher, mais jovem.
- Péssima ideia.
- Mas depois eu tentei trazer a Julie. Vocês viram.
- E também falhou miseravelmente.
- Pra um alienígena voyeur até que você faz muitos julgamentos.
- Suas qualidades eram as mais fracas entre os machos dos vinte casais. Vou descartá-lo.
- Como assim vinte? Me disse que seríamos o único casal a embarcar.
- Agora serão dezenove.
- A Terra vai mesmo acabar? Não podem me poupar?
- Lamento.
- Porra, passei a vida inteira em contato com vocês. Não sabe o que significa lealdade?
- Você sem uma fêmea iria desequlibrar o novo ecossistema. Somos sustentáveis.
- Por que não sequestram alguém pra mim agora, rapidinho?
- Temos nossa ética.
- E fritar meu planeta pode, né?
- Se te consola, você não vai querer viver em um mundo onde te chamam de bafo de merda.
- Filho da puta!

- Iniciar contagem.

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