- Pai, quero uma pomba branca!
- Que novidade é essa, Iberê? Pomba é bicho sujo de rua.
- Então por que o moço tá vendendo naquela loja? Vi um montão na gaiola.
- Que loja?
- Ali ó – Iberê aponta para uma placa onde se lê Artigos Religiosos Pena Verde.
- Vem comigo.
- Oba! Vai comprar?
Pai e filho entram na loja. Um homem jovem de camisa listrada os atende.
- Posso ajudar?
- Amigo, o senhor está vendendo pombos aqui?
- Quantos o senhor quer?
- Pai, posso escolher?
- Fica quieto, Iberê! Eu não quero pomba nenhuma. Isso não é animal doméstico. Qual a finalidade?
- O senhor é do Ibama? – questiona o vendedor, sem perder a amabilidade.
- Não, senhor. Sou biólogo. E sei que esses animais transmitem doenças. Imagina se uma criança pouco instruída leva uma pra casa.
- Bom, parece que o senhor também não está bem instruído.
- Olha o deboche – ameaça o biólogo.
Após longa pausa, o vendedor junta as mãos e dirige-se a Iberê com ar professoral:
- Veja bem, a pomba branca é símbolo de várias coisas, é o Espírito Santo para o cristianismo e associada também a Oxalá, o orixá mais cultuado do candomblé. Hoje em dia qualquer pessoa usa a pomba pra pregar a paz sem saber bem o significado da... - a explicação é interrompida com rispidez pelo pai de Iberê.
- Tá, tá... e as pombas são vendidas pra sacrifício, não são?
- Isso é uma prática ultrapassada. O sacrifício costumava ser feito ao babalorixá. Se o senhor quer saber, hoje quem compra mais é esse povo de passeata pela paz. Eles levam pra soltar as bichinhas. Até em evento corporativo andam usando. Virou moda soltar pomba branca por aí.
- Ah tá! O pessoal que marcha pelos direitos dos animais deve comprar também, correto?
O vendedor respira fundo, mas mantém o sorriso amável.
- Olha, eu não sei mesmo. Se não deseja mais nada, peço por favor pra dar a vez a outro.
- Outro? Ué, não tô vendo mais ninguém aqui.
- O senhor é que pensa – sussurra o lojista, dando as costas ao biólogo.
- O quê?
Ao notar que Iberê brinca no fundo da loja com duas pequena estátuas, o pai decide encerrar o caso.
- Vem Iberê! Larga isso aí!
Ignorado mais uma vez, o pai vai ao encontro do menino. No caminho, tropeça na gaiola, que vem abaixo. A cena a seguir é espantosa: em choque, o vendedor e Iberê vêem as pombas escaparem e lançarem-se contra o biólogo caído. Elas bicam-lhe as costas com selvageria. O menino chora e grita:
- Paaai! Paaai!
- Iberêêêe – grita o biólogo sem entender o ataque.
Com a tardia intervenção do vendedor, as pombas finalmente se afastam, refugiando-se nas prateleiras superiores da loja. Em prantos, Iberê socorre o ensangüentado pai.
Uma hora depois, de bruços em uma cama de hospital, sob o olhar do filho e da esposa, o biólogo tem os ferimentos desinfetados. Quando a enfermeira sai por um momento, a esposa nota algo ainda mais incomum que o ataque das pombas da paz. Os cortes formam a enigmática mensagem:
AS VIÚVAS DE CHICO XAVIER.
EM NOVEMBRO, NO TELECINE PIPOCA.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Acácio não sabe mentir
Acácio desce as escadas de roupão. O cunhado Hamilton e a esposa Lili estão a chamá-lo no portão da casa.
- Opa! Que surpresa!
- E aí, Acácio, beleza!?
- Firmeza! Peraí, vou segurar a Peteca pra ela não pular em vocês.
- Imagina, deixa a Peteca solta.
- Pronto, é só destrancar.
- Então, rapaz, achou que só porque minha irmã viajou a gente ia te deixar abandonado? Olha, trouxe umas Heinekens.
- Ahhh… eu te amo, Hamilton! Devia ter casado contigo, não com sua irmã. Hahaha!
- Ainda tá em tempo. Haha!
- Não reparem a bagunça! Tudo bem, Lili? E os meninos?
- Xiii... dando a canseira de sempre, Acácio. E você? Muito sozinho sem a Bia?
- Ah, eu tento me distrair né?! Vejo uns filmes, tomo uma cerva com o pessoal do trabalho quando dá, mas fica um vazio danado.
Hamilton e Lili se acomodam na sala. O interior da casa é o retrato do abandono: copos sujos espalhados, cinzeiros transbordando, folhas secas trazidas por Peteca acumuladas nos cantos, além de uma grossa camada de poeira cobrindo chão e móveis, denunciando a economia com faxina. O ambiente lembra mais uma toca do que um lar.
- Pegamos você saindo do banho. Vai lá se vestir enquanto coloco as cervejas pra gelar.
- Tá. Já volto.
Exalando cheiro de colônia, Acácio desce novamente as escadas sem perder o rumo da conversa:
- Hamilton, Hamilton... sem sua irmã a vida fica difícil demais. Minha barriga até diminuiu. Hahaha.
Taciturno, Hamilton observa de perto um enorme arranjo de flores em um vaso sobre a mesa de centro. O enfeite destoa tanto da impessoalidade dos objetos da casa quanto do estilo desleixado de Acácio. Sem encarar o cunhado, Hamilton vai direto ao ponto:
- Tô vendo. Que isso aqui, Acácio? Andou ganhando flores?
- Oi?
Fingindo calma, Acácio se aproxima mansamente. Por cima do ombros de Hamilton, espia as flores com atenção, como se jamais as tivesse reparado. A afetada tentativa de ganhar tempo fica evidente.
- Pois é... tive essa ideia outro dia. Quis me presentear. Levantar um pouco a auto-estima, sabe?! Todo homem gosta de ganhar flores, Hamilton. Você mesmo devia se presentear com algumas de vez em quando. – Acácio aguarda pelas risadas que não vêm. Sequer um sorrisinho sarcástico dos visitantes. Silêncio sepulcral na sala.
Hamilton mantém os olhos nas flores. Lili desvia o olhar para a janela, parece tensa, como se aguardasse pelo pior. Surpreso com o climão, Acácio busca refúgio em Peteca.
- Mas minha alegria nos últimos tempos tem sido essa cadela. Virou a atração da rua! Muito mais popular que eu. Hehe! Vem cá, menina! – Peteca não se solidariza. Como legítima fêmea, também parece desconfiada. Talvez tenha visto algo que roprovara nos últimos dias ou quem sabe seja apenas um enfastio de cadela sonolenta. Independente do motivo, Peteca ignora seu dono.
- Você ganhou essas flores de uma mulher, não foi?
- Não, Hamilton. Por que essa fixação?
- Talvez porque minha irmã seja obcecada por você. E algo assim ela não iria suportar. Só por isso.
- Pois ganhei as flores do… por um trabalho bem feito. Lá na firma. Meu chefe Getúlio mandou entregar. Qual o problema?
- Ah, você ganhou flores de um homem então?
- De um homem não. Do meu chefe. Lá vem você de novo com desconfianças.
- Talvez porque eu conheça muito bem o Getúlio e saiba que ele não é esse tipo de cara.
- Agora você conhece meu chefe?
- Claro, Acácio! Eu que te indiquei pra ele! Esqueceu? Você tá estranho.
- Estranhos são vocês.
- Opa, não me coloca nessa história, Acácio. Vocês homens se conhecem bem. Devem perceber quando o outro está mentindo.
- Lá vem você também... Qual a treta, afinal? Fala, Hamilton!
- Você não sabe mentir, Acácio.
- Não enche.
- …
- Precisa ser grosso? Hamilton tá desconfiado porque não quer ver a Bia sofrer. Ela já passou por poucas e boas, você sabe bem disso! Além do mais, quer saber? Sua casa tá imunda, a pia cheia de louça suja e ainda vem dizer que adora a cachorra, mas deixa ela sem água e comida na tigela. Pensa que eu não reparei? Porém você se deu ao trabalho de colocar essas flores bregas em um vaso no meio da sala. Decidiu enfeitar esse pardieiro, Acácio? Ora, tenha dó!
- Em primeiro lugar, bromélias não têm nada de brega. Em segundo lugar… bem… vocês sabem que tô passando dificuldades aqui…
- Sem drama, Acácio. Virou expert em flores agora?
- Lili, meu anjo, você e seu marido saíram lá do Cambuci só pra me espionar?
- …
- Vambora, Lili. Antes que piore.
Acácio se coloca entre a porta e os visitantes.
- Hamilton, peraí! Vamos falar sério agora.
- Vamos embora, Hamilton. Por favor!
- Só um minuto, Lili, - hesita Hamilton - vamos dar uma chance.
- Hamilton, não imagina coisas, vai! Encher a cabeça da sua irmã nesse momento seria muita crueldade, você sabe!
- Eu sei, Acácio. Ela já passou por poucas e boas. Não merece mais essa. Mas eu também tô sob uma pressão terrível, meu amigo.
- Como assim?
- Curto e grosso, Acácio? Não tenho como lhe pagar aquele empréstimo. Os juros acumularam demais e meu restaurante continua na pior.
- Mano… Quer que eu esqueça a dívida? Aí complica né?!
Lili não se segura:
- Hamilton, o que é isso? Não tô te reconhecendo!
- Peraí, Lili. Hamilton, investi demais no seu restaurante. O máximo que posso fazer é um abatimento. Faria isso pela Bia, que já sofreu demais e não merece saber, inclusive, que o irmão não se veste de mulher somente no carnaval.
- Oi?
- Nem ela, nem o povo da sinuca, do boliche, da academia... ninguém merece saber sobre suas intimidades. Concorda?
Hamilton fica lívido e Lili irritadíssima.
- Hamilton, vamos embora! Tô te pedindo!
- Que foi, Hamilton? Nem lembra que me contou né?! Você tava bêbado, confuso, mas eu lembro de tudo. Disse como o assunto era complexo, mal compreendido pela sociedade. Falou até da Grécia antiga. E eu entendi perfeitamente a sua condição de… como chama mesmo? Crossdresser! Há! É isso! Você é crossdresser, Hamilton!
- E você é doido! Um doente mental! Só pode ser.
- Ué, então por que a Lili ficou calada? Nem te defende, parece conformada.
- Você não tem como provar.
- Nem você pode provar qualquer culpa minha. Jogo fora agora as flores que ganhei da minha tia Dulce. E aí?
- Descarado! Mente três vezes sem nem piscar! Coitada da minha irmã!
- Você disse que eu não sei mentir. Então tanto faz.
Agora em desvantagem, Hamilton respira fundo e abaixa o tom:
- Só contei isso porque achei que você também tivesse bêbado. Me abri com você. Confiei!
- Claro, Hamilton. Pode desabafar sempre que quiser. Não sou só seu cunhado. Somos amigos! Respeito sua privacidade, por isso da minha boca não vai sair nada, pode ter certeza. Conto também com sua discrição. Afinal, o bem da Bia vem em primeiro lugar, certo?
- Certo.
Lili permanece indignada:
- Vocês são podres!
- Hamilton, vou abrir uma Heineken pra gente brindar à Bia! No que depender de mim, ela só vai ter felicidade nessa vida.
- De mim também. Ela já passou por poucas e boas.
- E vamos falar também sobre aquele abatimento esperto. Pensa que eu esqueci? Lili, brinda com a gente?
- Vai se foder.
- Opa! Que surpresa!
- E aí, Acácio, beleza!?
- Firmeza! Peraí, vou segurar a Peteca pra ela não pular em vocês.
- Imagina, deixa a Peteca solta.
- Pronto, é só destrancar.
- Então, rapaz, achou que só porque minha irmã viajou a gente ia te deixar abandonado? Olha, trouxe umas Heinekens.
- Ahhh… eu te amo, Hamilton! Devia ter casado contigo, não com sua irmã. Hahaha!
- Ainda tá em tempo. Haha!
- Não reparem a bagunça! Tudo bem, Lili? E os meninos?
- Xiii... dando a canseira de sempre, Acácio. E você? Muito sozinho sem a Bia?
- Ah, eu tento me distrair né?! Vejo uns filmes, tomo uma cerva com o pessoal do trabalho quando dá, mas fica um vazio danado.
Hamilton e Lili se acomodam na sala. O interior da casa é o retrato do abandono: copos sujos espalhados, cinzeiros transbordando, folhas secas trazidas por Peteca acumuladas nos cantos, além de uma grossa camada de poeira cobrindo chão e móveis, denunciando a economia com faxina. O ambiente lembra mais uma toca do que um lar.
- Pegamos você saindo do banho. Vai lá se vestir enquanto coloco as cervejas pra gelar.
- Tá. Já volto.
Exalando cheiro de colônia, Acácio desce novamente as escadas sem perder o rumo da conversa:
- Hamilton, Hamilton... sem sua irmã a vida fica difícil demais. Minha barriga até diminuiu. Hahaha.
Taciturno, Hamilton observa de perto um enorme arranjo de flores em um vaso sobre a mesa de centro. O enfeite destoa tanto da impessoalidade dos objetos da casa quanto do estilo desleixado de Acácio. Sem encarar o cunhado, Hamilton vai direto ao ponto:
- Tô vendo. Que isso aqui, Acácio? Andou ganhando flores?
- Oi?
Fingindo calma, Acácio se aproxima mansamente. Por cima do ombros de Hamilton, espia as flores com atenção, como se jamais as tivesse reparado. A afetada tentativa de ganhar tempo fica evidente.
- Pois é... tive essa ideia outro dia. Quis me presentear. Levantar um pouco a auto-estima, sabe?! Todo homem gosta de ganhar flores, Hamilton. Você mesmo devia se presentear com algumas de vez em quando. – Acácio aguarda pelas risadas que não vêm. Sequer um sorrisinho sarcástico dos visitantes. Silêncio sepulcral na sala.
Hamilton mantém os olhos nas flores. Lili desvia o olhar para a janela, parece tensa, como se aguardasse pelo pior. Surpreso com o climão, Acácio busca refúgio em Peteca.
- Mas minha alegria nos últimos tempos tem sido essa cadela. Virou a atração da rua! Muito mais popular que eu. Hehe! Vem cá, menina! – Peteca não se solidariza. Como legítima fêmea, também parece desconfiada. Talvez tenha visto algo que roprovara nos últimos dias ou quem sabe seja apenas um enfastio de cadela sonolenta. Independente do motivo, Peteca ignora seu dono.
- Você ganhou essas flores de uma mulher, não foi?
- Não, Hamilton. Por que essa fixação?
- Talvez porque minha irmã seja obcecada por você. E algo assim ela não iria suportar. Só por isso.
- Pois ganhei as flores do… por um trabalho bem feito. Lá na firma. Meu chefe Getúlio mandou entregar. Qual o problema?
- Ah, você ganhou flores de um homem então?
- De um homem não. Do meu chefe. Lá vem você de novo com desconfianças.
- Talvez porque eu conheça muito bem o Getúlio e saiba que ele não é esse tipo de cara.
- Agora você conhece meu chefe?
- Claro, Acácio! Eu que te indiquei pra ele! Esqueceu? Você tá estranho.
- Estranhos são vocês.
- Opa, não me coloca nessa história, Acácio. Vocês homens se conhecem bem. Devem perceber quando o outro está mentindo.
- Lá vem você também... Qual a treta, afinal? Fala, Hamilton!
- Você não sabe mentir, Acácio.
- Não enche.
- …
- Precisa ser grosso? Hamilton tá desconfiado porque não quer ver a Bia sofrer. Ela já passou por poucas e boas, você sabe bem disso! Além do mais, quer saber? Sua casa tá imunda, a pia cheia de louça suja e ainda vem dizer que adora a cachorra, mas deixa ela sem água e comida na tigela. Pensa que eu não reparei? Porém você se deu ao trabalho de colocar essas flores bregas em um vaso no meio da sala. Decidiu enfeitar esse pardieiro, Acácio? Ora, tenha dó!
- Em primeiro lugar, bromélias não têm nada de brega. Em segundo lugar… bem… vocês sabem que tô passando dificuldades aqui…
- Sem drama, Acácio. Virou expert em flores agora?
- Lili, meu anjo, você e seu marido saíram lá do Cambuci só pra me espionar?
- …
- Vambora, Lili. Antes que piore.
Acácio se coloca entre a porta e os visitantes.
- Hamilton, peraí! Vamos falar sério agora.
- Vamos embora, Hamilton. Por favor!
- Só um minuto, Lili, - hesita Hamilton - vamos dar uma chance.
- Hamilton, não imagina coisas, vai! Encher a cabeça da sua irmã nesse momento seria muita crueldade, você sabe!
- Eu sei, Acácio. Ela já passou por poucas e boas. Não merece mais essa. Mas eu também tô sob uma pressão terrível, meu amigo.
- Como assim?
- Curto e grosso, Acácio? Não tenho como lhe pagar aquele empréstimo. Os juros acumularam demais e meu restaurante continua na pior.
- Mano… Quer que eu esqueça a dívida? Aí complica né?!
Lili não se segura:
- Hamilton, o que é isso? Não tô te reconhecendo!
- Peraí, Lili. Hamilton, investi demais no seu restaurante. O máximo que posso fazer é um abatimento. Faria isso pela Bia, que já sofreu demais e não merece saber, inclusive, que o irmão não se veste de mulher somente no carnaval.
- Oi?
- Nem ela, nem o povo da sinuca, do boliche, da academia... ninguém merece saber sobre suas intimidades. Concorda?
Hamilton fica lívido e Lili irritadíssima.
- Hamilton, vamos embora! Tô te pedindo!
- Que foi, Hamilton? Nem lembra que me contou né?! Você tava bêbado, confuso, mas eu lembro de tudo. Disse como o assunto era complexo, mal compreendido pela sociedade. Falou até da Grécia antiga. E eu entendi perfeitamente a sua condição de… como chama mesmo? Crossdresser! Há! É isso! Você é crossdresser, Hamilton!
- E você é doido! Um doente mental! Só pode ser.
- Ué, então por que a Lili ficou calada? Nem te defende, parece conformada.
- Você não tem como provar.
- Nem você pode provar qualquer culpa minha. Jogo fora agora as flores que ganhei da minha tia Dulce. E aí?
- Descarado! Mente três vezes sem nem piscar! Coitada da minha irmã!
- Você disse que eu não sei mentir. Então tanto faz.
Agora em desvantagem, Hamilton respira fundo e abaixa o tom:
- Só contei isso porque achei que você também tivesse bêbado. Me abri com você. Confiei!
- Claro, Hamilton. Pode desabafar sempre que quiser. Não sou só seu cunhado. Somos amigos! Respeito sua privacidade, por isso da minha boca não vai sair nada, pode ter certeza. Conto também com sua discrição. Afinal, o bem da Bia vem em primeiro lugar, certo?
- Certo.
Lili permanece indignada:
- Vocês são podres!
- Hamilton, vou abrir uma Heineken pra gente brindar à Bia! No que depender de mim, ela só vai ter felicidade nessa vida.
- De mim também. Ela já passou por poucas e boas.
- E vamos falar também sobre aquele abatimento esperto. Pensa que eu esqueci? Lili, brinda com a gente?
- Vai se foder.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
O pequeno confeiteiro
- Conta do Douglas, Gorete. Ele parou de andar com aquela gente?
- Ai menina, tô tão aliviada. Apareceu um pessoal pra endireitar ele. São de uma tal ONG, que pega meninos pra treinar, dar uma profissão. Uns homens louros, educados, tão bonitos. São voluntários lá da gringa. Chique! Agora o Doug fica o dia inteiro na oficina, depois vai pra escola. Se tudo der certo, em pouco tempo arruma até um serviço. Eu já agradeço a Deus por ele não estar metido no tráfico feito os outros.
- Que maravilha! Olha ele chegando lá.
Do portão, Douglas grita para a mãe na laje.
- JOGA A CHAVE, PORRA!
- Ih, chegou enfezado hein.
- Pra você ver a cruz que eu carrego. Não sei a quem puxou... SEGURA AÍ, MOLEQUE!
Doug sobe as escadas de cabeça baixa, sem responder à saudação da vizinha. Revoltada, a mãe o segue até o quarto.
- Doug, seu mal educado! Minha Nossa Senhora, o que aconteceu? Sua cara tá arrebentada por que?
- Ainda pergunta? É a mesma treta todo dia. Só a senhora que é burra e não vê.
- ALTO LÁ! Quer ficar com o outro olho roxo também? Fala logo, inferno!
- Quando eu andava com o Celinho ninguém me tirava pra otário. Aí virei um “pequeno confeiteiro” de merda e agora até o vendedor de bala do colégio tira onda comigo.
- MOLEQUE INGRATO! Você tem é sorte. Não vai virar trafica igual esse Celinho e aquela cambada. Vai ganhar seu sustento, sem dever a ninguém. Foi uma bênção essa ação social aqui no bairro.
-Sustento porra nenhuma. Fazendo bolo do Pokemón? Acha que eu vou longe?
- Bolo do que? Há há há... você faz isso, filhote?
- VAI TOMAR NO CU!
- BOCA SUJA DE MERDA! Prefere vender pó pra filhinho de papai dos Jardins é?
- MIL VEZES! Aí vão me respeitar. Só a senhora mesmo com essa idéia de confeiteiro do caralho.
- Deixa seu pai ouvir isso. Quebra seus dois braços e aí nem cajuzinho você faz mais.
- Porra, mãe. Tenho 15 anos, já sou crescido pra ser “pequeno qualquer coisa”. Esses branquelos da ONG tão com a vida ganha. Só querem aparecer, pagar de caridoso pra sociedade. Quem se fode é a gente. Ninguém de lá vai me salvar de nada.
- Mas Doug... olha o Cléber, que também foi amparado. O garoto tá um doce com os pais. Tira boas notas, parou de cheirar cola, não fica mais caído por aí.
- Há há há. O Clébão é o mais comédia. Ele faz oficina de papel machê! Nem sei que coisa de viado é essa, mas geral azucrina ele. A senhora não imagina.
- Mas vocês têm que se impor!
- E minha cara tá assim por que, ô gênia? Toda dia é a mesma fita: “E aí padeiro, queimando muito a rosca?”, sendo que eu nem faço rosca na oficina. Aí vou pra cima né?! Já o Cléber é frutinha e ouve zoação calado.
- Virgem Maria! Eu ouvi falar dessa praga nas escolas. Deu no Jornal Nacional, chama “bule” e sempre acaba mal.
- Mãezinha, num quero assustar a senhora, mas se liga no bagulho: É mais fácil eu morrer na mão desses moleques como pequeno confeiteiro do que no grupo do Celinho.
- Não me enrola.
- Lá os manos se protegem. Só arruma treta quem é vacilão.
- Bom, vou falar com seu pai. Deixa ele resolver.
E assim começou a ascensão de Douglas, que viraria um dos principais chefes do crime organizado. Teve fama, mulheres e dinheiro, o que não é pouca coisa.
- Ai menina, tô tão aliviada. Apareceu um pessoal pra endireitar ele. São de uma tal ONG, que pega meninos pra treinar, dar uma profissão. Uns homens louros, educados, tão bonitos. São voluntários lá da gringa. Chique! Agora o Doug fica o dia inteiro na oficina, depois vai pra escola. Se tudo der certo, em pouco tempo arruma até um serviço. Eu já agradeço a Deus por ele não estar metido no tráfico feito os outros.
- Que maravilha! Olha ele chegando lá.
Do portão, Douglas grita para a mãe na laje.
- JOGA A CHAVE, PORRA!
- Ih, chegou enfezado hein.
- Pra você ver a cruz que eu carrego. Não sei a quem puxou... SEGURA AÍ, MOLEQUE!
Doug sobe as escadas de cabeça baixa, sem responder à saudação da vizinha. Revoltada, a mãe o segue até o quarto.
- Doug, seu mal educado! Minha Nossa Senhora, o que aconteceu? Sua cara tá arrebentada por que?
- Ainda pergunta? É a mesma treta todo dia. Só a senhora que é burra e não vê.
- ALTO LÁ! Quer ficar com o outro olho roxo também? Fala logo, inferno!
- Quando eu andava com o Celinho ninguém me tirava pra otário. Aí virei um “pequeno confeiteiro” de merda e agora até o vendedor de bala do colégio tira onda comigo.
- MOLEQUE INGRATO! Você tem é sorte. Não vai virar trafica igual esse Celinho e aquela cambada. Vai ganhar seu sustento, sem dever a ninguém. Foi uma bênção essa ação social aqui no bairro.
-Sustento porra nenhuma. Fazendo bolo do Pokemón? Acha que eu vou longe?
- Bolo do que? Há há há... você faz isso, filhote?
- VAI TOMAR NO CU!
- BOCA SUJA DE MERDA! Prefere vender pó pra filhinho de papai dos Jardins é?
- MIL VEZES! Aí vão me respeitar. Só a senhora mesmo com essa idéia de confeiteiro do caralho.
- Deixa seu pai ouvir isso. Quebra seus dois braços e aí nem cajuzinho você faz mais.
- Porra, mãe. Tenho 15 anos, já sou crescido pra ser “pequeno qualquer coisa”. Esses branquelos da ONG tão com a vida ganha. Só querem aparecer, pagar de caridoso pra sociedade. Quem se fode é a gente. Ninguém de lá vai me salvar de nada.
- Mas Doug... olha o Cléber, que também foi amparado. O garoto tá um doce com os pais. Tira boas notas, parou de cheirar cola, não fica mais caído por aí.
- Há há há. O Clébão é o mais comédia. Ele faz oficina de papel machê! Nem sei que coisa de viado é essa, mas geral azucrina ele. A senhora não imagina.
- Mas vocês têm que se impor!
- E minha cara tá assim por que, ô gênia? Toda dia é a mesma fita: “E aí padeiro, queimando muito a rosca?”, sendo que eu nem faço rosca na oficina. Aí vou pra cima né?! Já o Cléber é frutinha e ouve zoação calado.
- Virgem Maria! Eu ouvi falar dessa praga nas escolas. Deu no Jornal Nacional, chama “bule” e sempre acaba mal.
- Mãezinha, num quero assustar a senhora, mas se liga no bagulho: É mais fácil eu morrer na mão desses moleques como pequeno confeiteiro do que no grupo do Celinho.
- Não me enrola.
- Lá os manos se protegem. Só arruma treta quem é vacilão.
- Bom, vou falar com seu pai. Deixa ele resolver.
E assim começou a ascensão de Douglas, que viraria um dos principais chefes do crime organizado. Teve fama, mulheres e dinheiro, o que não é pouca coisa.
terça-feira, 1 de março de 2011
O Apocalipse segundo Jucelino
Molhado pela chuva morna de fevereiro, estafado pelo laboro ingrato, e com o estômago reclamando, Jucelino via aproximar-se o derradeiro ônibus. O último dos três que tomava pra voltar do trabalho à sua casa. Apenas mais um lotação fazendo jus ao nome. Nada animador. O ponto de parada, debaixo do hospital da criança deficiente, abrigava enormes mulheres, sujeitos encardidos, alguns aleijados e, claro, crianças, muitas crianças desgraçadas, e todas choravam convulsivamente. Pouco para resgatar Jucelino da letargia. É impossível qualquer sentimento de misericórdia mútua entre condenados.
Antes mesmo do ônibus traçar seu rasante, a massa já se precipitava rumo ao meio-fio. Um suicídio coletivo? O compacto de corpos úmidos lançou-se para dentro do veículo. Ao entrar, Jucelino sentiu a face pegar fogo. O motorista sorriu-lhe diabolicamente e desembestou-se. O interior da charanga era como um pequeno apocalipse. Pequeno? Bom, talvez para essas coisas não exista um senso de proporção. O calvário de cada um pode ter o tamanho que for, vai ser sempre um calvário. Uma conjunção de forças demolidora. Certo é que, à sua frente, Jucelino não via um apocalipse suntuoso, tipo hollywoodiano, dantesco... via o apocalipse real, que começa a queimar por dentro, e mata devagar.
O motorista conduzia a fila de desvalidos com fúria. Trancos, freadas repentinas, curvas inesperadas. O ranger da carroceria lembrava o som de uma grande galinha. O odor nauseabundo do interior do veículo, composto de suor e imundícies, incomodava menos a Jucelino que o contato físico com os outros passageiros. Mal conseguiam se mexer. A chuva apertava lá fora e mais pessoas molhadas entravam pela porta da frente. Ao despertar por um momento, Jucelino começou a ouvir um canto, mais parecido com a prece de um faminto, que chegava a seus ouvidos misturado a leves apupos de escárnio.
Um violeiro, em meio ao caos, tentava angariar esmolas, ou quem sabe catequizar o povo à sua volta com alguns versos:
A nós descei, divina luz!
A nós descei, divina luz!
Em nossas almas acendei
O amor, o amor de Jesuuuus!
A canção do miserável despertou a multidão. Mas não da forma desejada. Os viajantes se converteram em demônios zombeteiros. O líder da desordem era o cobrador, que atirava insultos e sorria cheio de maldade. “Jesus tá bem longe daqui, mano. Aqui quem domina é o chifrudo”. Ao redor, outros demônios gargalhavam. Jucelino observou uma frágil mocinha de cabelos oxigenados transfigurar-se. A boca crispava-se em um sorriso torto, enquanto os olhos ainda guardavam a tristeza eterna. Logo todos se juntaram à opressão. Até mesmo uma frágil idosa de pele cinzenta. “Que o diabo carregue esse violeiro daqui. Já não basta tanta desgraça?”. Ainda em transe, o sujeito não se deixava intimidar. Mesmo sem espaço algum, conseguia dedilhar o violão remendado. E cantava com ardor:
Vinde, Santo Espírito
E do céu mandai
luminoso raio!
Vinde, Pai dos pobres,
Doador dos doooons,
Luz dos coraçõõões!
Inflamados pelas provocações do cobrador, alguns rapazes gritavam em uníssono: “Satã! Satã! Satã!Satã! Satã! Satã!” O cantor solitário ainda defendia sua canção com valentia, mas em suas notas já demonstrava sinais de irritação:
Grande defensor,
Em nós habitai
e nos confortaaaaaai!
Na fadiga pouco,
no ardor brandura
e na dor ternuraaaaa!
Aos olhos de Jucelino, os demônios inspiravam muita pena e pouco horror. Porém quem era ele para julgar? Ali não havia sinais de salvação. Nenhum arcanjo Gabriel para empunhar a espada contra infiéis. Apenas o chato e seu violão, empunhado de forma guerreira, como reconheceu Jucelino. Mas demasiado humano que era, perdeu a classe após muitos insultos à sua fé. “Sou servo do senhor, vocês riem porque servem ao outro, ao inominável”. Alguns riram como quem ri de uma criança birrenta e inofensiva. Talvez esperassem uma reação mais virulenta. Em tom irônico, o cobrador retrucou: “Inominável? Mas tá falando difícil hein mano?! Aposto como nem você entende o que canta. É ou não é?” Jucelino não deixou de estranhar o fato do violeiro se manter alheio enquanto era xingado e encher-se de fúria ao perceber olhares condescendentes à sua volta. “És tu pecador! És tu o inominável! Tu e todos esses demônios aí, que me arreganham os dentes. O inominável está em cada um de vocês. Por isso sofrem! E vão queimar pra toda a eternidade!” Aquela verborragia condenatória jogou na lona a paciência dos passageiros. Mesmo o cobrador se desinteressou pelo pregador. O próprio Jucelino via no miserável uma besta do apocalipse anêmica demais.
Mergulhado no blecaute das ruas, o ônibus enfim parou. O violeiro levantava seu instrumento como uma espada. Ao ver a porta se abrir bradou contra todos. “Vocês estão condenados. Condenados a viver na escuridão! Marchem pra fora! Assim ordena o Criador!” De cabeças baixas, desciam os passageiros, inclusive Jucelino. Pareciam realmente marchar rumo à danação. Após descer o último passageiro, uma voz grave e cortante, talvez a do próprio Criador, dirigiu-se ao violeiro: “Desce daí! É ponto final pra você também, seu maluco!”
Antes mesmo do ônibus traçar seu rasante, a massa já se precipitava rumo ao meio-fio. Um suicídio coletivo? O compacto de corpos úmidos lançou-se para dentro do veículo. Ao entrar, Jucelino sentiu a face pegar fogo. O motorista sorriu-lhe diabolicamente e desembestou-se. O interior da charanga era como um pequeno apocalipse. Pequeno? Bom, talvez para essas coisas não exista um senso de proporção. O calvário de cada um pode ter o tamanho que for, vai ser sempre um calvário. Uma conjunção de forças demolidora. Certo é que, à sua frente, Jucelino não via um apocalipse suntuoso, tipo hollywoodiano, dantesco... via o apocalipse real, que começa a queimar por dentro, e mata devagar.
O motorista conduzia a fila de desvalidos com fúria. Trancos, freadas repentinas, curvas inesperadas. O ranger da carroceria lembrava o som de uma grande galinha. O odor nauseabundo do interior do veículo, composto de suor e imundícies, incomodava menos a Jucelino que o contato físico com os outros passageiros. Mal conseguiam se mexer. A chuva apertava lá fora e mais pessoas molhadas entravam pela porta da frente. Ao despertar por um momento, Jucelino começou a ouvir um canto, mais parecido com a prece de um faminto, que chegava a seus ouvidos misturado a leves apupos de escárnio.
Um violeiro, em meio ao caos, tentava angariar esmolas, ou quem sabe catequizar o povo à sua volta com alguns versos:
A nós descei, divina luz!
A nós descei, divina luz!
Em nossas almas acendei
O amor, o amor de Jesuuuus!
A canção do miserável despertou a multidão. Mas não da forma desejada. Os viajantes se converteram em demônios zombeteiros. O líder da desordem era o cobrador, que atirava insultos e sorria cheio de maldade. “Jesus tá bem longe daqui, mano. Aqui quem domina é o chifrudo”. Ao redor, outros demônios gargalhavam. Jucelino observou uma frágil mocinha de cabelos oxigenados transfigurar-se. A boca crispava-se em um sorriso torto, enquanto os olhos ainda guardavam a tristeza eterna. Logo todos se juntaram à opressão. Até mesmo uma frágil idosa de pele cinzenta. “Que o diabo carregue esse violeiro daqui. Já não basta tanta desgraça?”. Ainda em transe, o sujeito não se deixava intimidar. Mesmo sem espaço algum, conseguia dedilhar o violão remendado. E cantava com ardor:
Vinde, Santo Espírito
E do céu mandai
luminoso raio!
Vinde, Pai dos pobres,
Doador dos doooons,
Luz dos coraçõõões!
Inflamados pelas provocações do cobrador, alguns rapazes gritavam em uníssono: “Satã! Satã! Satã!Satã! Satã! Satã!” O cantor solitário ainda defendia sua canção com valentia, mas em suas notas já demonstrava sinais de irritação:
Grande defensor,
Em nós habitai
e nos confortaaaaaai!
Na fadiga pouco,
no ardor brandura
e na dor ternuraaaaa!
Aos olhos de Jucelino, os demônios inspiravam muita pena e pouco horror. Porém quem era ele para julgar? Ali não havia sinais de salvação. Nenhum arcanjo Gabriel para empunhar a espada contra infiéis. Apenas o chato e seu violão, empunhado de forma guerreira, como reconheceu Jucelino. Mas demasiado humano que era, perdeu a classe após muitos insultos à sua fé. “Sou servo do senhor, vocês riem porque servem ao outro, ao inominável”. Alguns riram como quem ri de uma criança birrenta e inofensiva. Talvez esperassem uma reação mais virulenta. Em tom irônico, o cobrador retrucou: “Inominável? Mas tá falando difícil hein mano?! Aposto como nem você entende o que canta. É ou não é?” Jucelino não deixou de estranhar o fato do violeiro se manter alheio enquanto era xingado e encher-se de fúria ao perceber olhares condescendentes à sua volta. “És tu pecador! És tu o inominável! Tu e todos esses demônios aí, que me arreganham os dentes. O inominável está em cada um de vocês. Por isso sofrem! E vão queimar pra toda a eternidade!” Aquela verborragia condenatória jogou na lona a paciência dos passageiros. Mesmo o cobrador se desinteressou pelo pregador. O próprio Jucelino via no miserável uma besta do apocalipse anêmica demais.
Mergulhado no blecaute das ruas, o ônibus enfim parou. O violeiro levantava seu instrumento como uma espada. Ao ver a porta se abrir bradou contra todos. “Vocês estão condenados. Condenados a viver na escuridão! Marchem pra fora! Assim ordena o Criador!” De cabeças baixas, desciam os passageiros, inclusive Jucelino. Pareciam realmente marchar rumo à danação. Após descer o último passageiro, uma voz grave e cortante, talvez a do próprio Criador, dirigiu-se ao violeiro: “Desce daí! É ponto final pra você também, seu maluco!”
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Pelados na novena
Seu Amadeu, síndico do edifício Santa Paula, vinha pela calçada fumando um cigarrinho. O vício era responsável pelo abjeto tom amarelo do bigode, e também pela voz cavernosa. Ao vê-lo aproximar-se do prédio, o porteiro Raimundo empertigou-se e abriu o portão antes do síndico apertar a campainha. A reverência do porteiro parou por aí.
- Oxente, seu Amadeu?! Voltando cedo assim pra casa?! Não vai ao boteco do Olavo hoje? Vai ter jogo da Lusa agorinha, sabe não?
-Hoje é o primeiro dia da novena. Fiquei de receber as pessoas e comandar as orações no salão. Acompanha o jogo aí e me avisa se sair gol. Vê se não dorme no posto, cabra. Se te pego cochilando de novo, já sabe...?!
-Cochilando o que, seu Amadeu!? Sou disso não. Aliás, o povo já começou a chegar.
Subitamente, síndico e porteiro começaram a cochichar. Falavam assim quando o assunto era a vida de outros condôminos.
-Ah é? Quem tá aí dentro?
-Seu Duílio.
-Ave Maria! Num vou com a cara desse velho tarado. Pior é deixar ele aí dentro sozinho, na companhia da santa. Ele tá composto, pelo menos?
-Hehe. Tá sim. Mas cedinho ele foi à padaria com aquela calça de pijama transparente, a da braguilha aberta, sabe qual é?
-Sem vergonha exibido! Se eu pudesse, despejava daqui sem dó! Opa, tá chegando gente. Aham... boa noite. – tentou aveludar a voz áspera.
Do elevador saiu a viúva Doralice, sessentona alta e esguia, de beleza ainda viva. Ela gentilmente segurou a porta enquanto a fiel Magali, senhora maltratada pelo tempo, puxava para fora a cadeira de rodas de sua irmã mais velha, Conceição. A anciã incapacitada tinha o semblante carregado. Sua amargura era sentida à distância. Normalmente, as pessoas evitavam olhá-la de frente, por pudor ou sei lá o quê.
Pelas escadas, surgiu seu Tide, um pequenino idoso cheio de disposição. Era gentil com todos, mas só tinha olhos mesmo para Doralice. Nas mãos, alguns botões de rosa amassados. Ao ver as senhoras, ele os distribuiu.
- Oh! Seu Tide é sempre um gentleman. – comoveu-se Doralice, com sua voz melodiosa de coralista da igreja, para em seguida dirigir-se firme ao síndico – Seu Amadeu, já bati em alguns apartamentos, mas acho que hoje não desce mais ninguém. Vamos pro salão?
- É o que eu ia dizer, Dona Doralice. Já passou da hora. Não vamos deixar a Nossa Senhora esperando, né!? – Seu Amadeu, ex-militar, bem sutilmente deixava claro que não estava habituado a receber ordens de uma mulher.
As três senhoras entraram primeiro, seguidas por seu Amadeu e seu Tide, que fez questão de deixar todos passarem à sua frente. O excesso de salamaleques do velhinho parecia incomodar o síndico. Dentro do salão, o grupo se deparou com seu Duílio, de cabelos engomados, vestindo um blazer xadrez antiquado. Ao vê-lo, Conceição acentuou o amargor da expressão. A única a cumprimentá-lo foi Magali:
- Seu Duílio!? Como vai o senhor? Pensamos que não vinha mais ninguém.
- Chh... Chh... Cheguei faz tempo! – A gagueira do velho se manifestava apenas ao iniciar frases.
O cenário do salão era enxuto: apenas uma mesa, coberta por uma toalha de renda impecável, uma jarra d`água e outra com suco de laranja, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, ao centro, e algumas cadeiras encostadas nas paredes.
Seu Amadeu postou-se de pé à cabeceira. Todos guardaram silêncio. A solenidade foi quebrada pelo som da folha de papel que o síndico tirou do bolso e desamassou. Olhares curiosos voltaram-se para ele.
- Bom, antes de começarmos, queria fazer uma... digamos... elucidação. Hoje em dia, a internet nos deixa a par de muitas coisas e, minha netinha, que é fera nessas coisas, imprimiu esse texto. Aqui explica um pouco o termo novena, que talvez nem todos conheçam a fundo... – Seu Amadeu colocou os óculos e iniciou a leitura de um artigo da Wikipedia – Novena é um encontro para orações, realizado durante o período de nove dias, daí o nome novena. Por excelência, trata-se de uma tradição com origem no imaginário da tradição católica, mas pode ser encontrado em outras tradições ou crenças... me perdi aqui, um momento.
Ao perceber que a narração ainda seguiria em frente, Conceição revirou os olhos e respirou fundo em desagravo, o que motivou Doralice a frear o ímpeto do síndico.
- Seu Amadeu, o senhor me desculpe. Sei que é a primeira vez que conduz as orações, mas acho isso desnecessário. Sabemos o significado de uma novena. Além do mais, se atrasarmos muito vamos acabar perdendo a novela, que tá pegando fogo nos capítulos finais, né gente!?
Conceição e Magali sacudiram a cabeça afirmativamente. O síndico, a contragosto, acatou:
- Claro, claro. A novela é o mais importante de tudo, não é!? Vamos começar. Demos as mãos.
BLAM BLAM BLAM
Para impaciência geral, agora alguém batia forte na porta. Mesmo sem qualquer permissão, um rapaz de capuz e arma em punho entrou no salão. Todos ficaram assombrados.
- Opa, desculpa aí gente boa, mas é que a gente tá assaltando o prédio. Quero ver todo mundo quieto, sem falar ou se mexer, senão leva chumbo, tá ligado!? Tem nenhum surdinho aí não né?! Ótimo!
- Tá brincando, moleque!? Ponha-se daqui pra fora! – indignou-se a voz cavernosa de Seu Amadeu.
O assaltante deteve-se por um instante, examinou os presentes e, quase gargalhando, expôs a idéia que tivera.
- Eu vou sair mesmo, ô do bigode. Mas vocês ficam aqui... pelados. Quero ver alguém fugir assim. Dou trinta segundos pra geral tirar a roupa. Um, dois, três... Vamo, porra!
O grito fez todos estremecerem, porém ninguém ameaçou se despir.
- Deixa eu ver em quem atiro primeiro... ah, na tia da cadeira ali. Já tá com o pé na vala mesmo.
CLICT
-Não! Peloamordedeus! – implorou Magali, enquanto desabotoava a blusa.
Seu Duílio já estava sem camisa. Os outros começavam a se despir lentamente. Menos Conceição, que de tanto pânico desmaiou. Magali desesperou-se ainda mais:
-Acudam aqui, minha nossa senhora!
-Cala a boca! Ninguém se mexe. Vamo colocando as pelancas pra fora aí. Cês tão ligados que o “paraíba” da portaria tá com o cano na cabeça? Tem ninguém para acudir não. Vou é fuzilar geral.
-Paraíba filha da puta! Devia estar ferrado no sono quando entraram. Por mim pode atirar nesse jumento! – esbravejou o síndico de cuecas.
-Logo se vê que o senhor não tem moral alguma pra conduzir uma novena. – ultrajou-se Doralice, que exibia formas ainda firmes sob a lingerie recatada.
Seu Duilio já estava totalmente nu. Era o único a não aparentar terror. Tal tranquilidade chamava a atenção dos outros, ainda resistentes em seus trajes menores.
-É pelado, porra!
Pronto. Todos ficaram nus. Magali chorava baixinho, escondida atrás da cadeira da irmã desmaiada. A viúva Doralice, mais desamparada do que nunca, tapava os seios e o sexo com as mãos. Seu Tide cobria as vergonhas com uma bandeja, assim como Seu Amadeu, único a fulminar o assaltante com ódio. Seu Duílio parecia estar em uma praia nudista, pois não cobria nada e tinha a face e o pescoço rubros.
- Todo mundo quietinho. Vou sair e trancar a porta. Se gritar, o porteiro morre. Já avisei. – Com uma trouxa de roupas na mão, o jovem assaltante retirou-se.
Apenas o choro esquálido de Magali quebrava o silêncio no salão. Ninguém se dignava a levantar o olhar para o outro. Subitamente, seu Tide saiu da letargia para assumir uma postura heróica. De forma desajeitada, ele colocou a santa e as jarras no chão e, com muita dificuldade, tentou arrastar a pesada mesa para o canto. As mulheres o fitaram por um momento, mas a visão do velhinho pelado se esforçando daquela forma era degradante demais.
- Que cê tá fazendo, homem? - indagou confuso o síndico.
-Não tá vendo? Vou virar a mesa para as mulheres se abrigarem atrás dela. É o mínimo que podemos fazer por estas senhoras.
-Mas você não vai conseguir fazer isso sozinho. – Seu Amadeu achava aquilo uma babaquice inútil, mas cerrou fileira com seu Tide. E para manter a fama de durão, emendou uma ordem para o distraído seu Duílio. - E você aí, não ajuda? Isso aqui não é um camping naturista, seu velho safado!
Seu Duílio se espantou com a reprimenda, mas caminhou obediente até a mesa para ajudar na missão. Juntos, os três se esforçavam pra virar a mesa de lado. Quando se abaixaram para concluir o serviço foram surpreendidos por um grito terrível. Conceição recobrara a consciência e agora tinha, à sua frente, três bundas nada formosas empinadas em sua direção. Magali correu para tentar acalmar a irmã, porém Conceição estava histérica.
-Saiam de perto de mim! Saiam de perto da Santa! Vocês são todos tarados. Vão queimar no inferno! Vão queimar no inferno!
-Calma, minha irmã. Você não se lembra do assalto? – As tentativas da irmã só exasperavam ainda mais a senhora.
-O que estes depravados fizeram com você? Cadê sua roupa? Isso só pode ser um pesadelo! Me tirem daquiiiiiiii. Socoooooooorro!
Desorientados, os três senhores se espremeram no canto, perto de uma porta de vidro que levava à garagem. Doralice se aproveitou do abrigo improvisado e entrincheirou-se atrás do mesão. Ficou de lá assistindo o caos reinante.
-Não grita, pelo amor de Deus! Eles vão matar o porteiro, minha irmã.
-Me tirem daquiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Em meio à confusão, seu Tide olhou para trás e viu, através da porta de vidro, uma família inteira os espreitando da sacada do prédio vizinho. Fez para eles uma mímica desesperada. Pedia que ligassem para a polícia, mas os vizinhos pareciam não entender a mensagem, pois responderam com insultos inaudíveis.
Magali virou a cadeira da irmã para a parede. Conceição parou de gritar, mas caiu em prantos sofridos. Entre soluços balbuciava:
-Como pode? Um espetáculo nojento desses... na frente da santa. Malditos... tarados... Magali, quero você fora da minha casa. Vai mendigar na rua, mas comigo não mora mais...
Agachados pelo salão, todos mergulharam em profundo pesar. Após alguns minutos, seu Amadeu despertou do transe. Caminhou até a porta e começou a esmurrá-la aos berros.
-Abram essa meeeerda! Seus covaaaardes! Podem me matar, seus filhos d`uma puta! Eu sou muito é homem, seus viaaaados!
O síndico gritou até perder a voz. Em certo momento, o alarido surtiu efeito, pois do outro lado alguém enfiou a chave atabalhoadamente na fechadura. Magali estremeceu.
-Ai, meus Deus! Voltaram pra matar a gente.
Surgiram as figuras de dois policiais fardados.
-O que é isso aqui afinal de contas? – parecia não acreditar no que via um dos policiais.
-Graças aos céus! – suspirou Magali.
O porteiro vinha logo atrás dos policiais. Agoniado, tentava explicar o acontecido.
-Seu Amadeu! Eu falei pra eles que teve um assalto. Os bandidos tavam aqui até agorinha, mas eles dizem que receberam outro tipo de denúncia. Acredita nisso?
-Cala a boca, seu asno! Sei que a culpa disso tudo é da tua molenguice! Preguiçoso de merda!
-O senhor se acalme, por favor! Cadê a roupa dos senhores? Ô porteiro, pega alguma coisa pra eles se cobrirem. Negócio é o seguinte: os moradores do prédio ao lado fizeram uma denúncia de ato obceno ocorrendo neste local.
Ao ouvir a voz da autoridade, Conceição suplicou:
-É isso sim senhor! São todos uns tarados sem o menor respeito pela santa. Me tire daqui, por favor! Me salve, seu policial! Me salve!
-A senhora está louca? – descabelou-se, seu Amadeu.
-Silêncio! Vamos averiguar tudo que aconteceu aqui. Vocês três se cubram e venham até aqui fora prestar esclarecimentos.
-Como assim três? Onde estão seu Tide e dona Doralice? – observou Magali.
-Virge Santa! Tavam aqui agorinha. Pra onde escapuliram? – questionou o porteiro, ainda sob a mira implacável do síndico.
A pedido da polícia, o porteiro subiu até os apartamentos dos dois sumidos, mas ninguém o atendeu. Pensou em procurar nas escadas, mas ao ouvir risinhos abafados vindos de lá, deteve-se. Era um momento especial. Achou melhor não interromper nada. Desceu novamente para a portaria.
- Oxente, seu Amadeu?! Voltando cedo assim pra casa?! Não vai ao boteco do Olavo hoje? Vai ter jogo da Lusa agorinha, sabe não?
-Hoje é o primeiro dia da novena. Fiquei de receber as pessoas e comandar as orações no salão. Acompanha o jogo aí e me avisa se sair gol. Vê se não dorme no posto, cabra. Se te pego cochilando de novo, já sabe...?!
-Cochilando o que, seu Amadeu!? Sou disso não. Aliás, o povo já começou a chegar.
Subitamente, síndico e porteiro começaram a cochichar. Falavam assim quando o assunto era a vida de outros condôminos.
-Ah é? Quem tá aí dentro?
-Seu Duílio.
-Ave Maria! Num vou com a cara desse velho tarado. Pior é deixar ele aí dentro sozinho, na companhia da santa. Ele tá composto, pelo menos?
-Hehe. Tá sim. Mas cedinho ele foi à padaria com aquela calça de pijama transparente, a da braguilha aberta, sabe qual é?
-Sem vergonha exibido! Se eu pudesse, despejava daqui sem dó! Opa, tá chegando gente. Aham... boa noite. – tentou aveludar a voz áspera.
Do elevador saiu a viúva Doralice, sessentona alta e esguia, de beleza ainda viva. Ela gentilmente segurou a porta enquanto a fiel Magali, senhora maltratada pelo tempo, puxava para fora a cadeira de rodas de sua irmã mais velha, Conceição. A anciã incapacitada tinha o semblante carregado. Sua amargura era sentida à distância. Normalmente, as pessoas evitavam olhá-la de frente, por pudor ou sei lá o quê.
Pelas escadas, surgiu seu Tide, um pequenino idoso cheio de disposição. Era gentil com todos, mas só tinha olhos mesmo para Doralice. Nas mãos, alguns botões de rosa amassados. Ao ver as senhoras, ele os distribuiu.
- Oh! Seu Tide é sempre um gentleman. – comoveu-se Doralice, com sua voz melodiosa de coralista da igreja, para em seguida dirigir-se firme ao síndico – Seu Amadeu, já bati em alguns apartamentos, mas acho que hoje não desce mais ninguém. Vamos pro salão?
- É o que eu ia dizer, Dona Doralice. Já passou da hora. Não vamos deixar a Nossa Senhora esperando, né!? – Seu Amadeu, ex-militar, bem sutilmente deixava claro que não estava habituado a receber ordens de uma mulher.
As três senhoras entraram primeiro, seguidas por seu Amadeu e seu Tide, que fez questão de deixar todos passarem à sua frente. O excesso de salamaleques do velhinho parecia incomodar o síndico. Dentro do salão, o grupo se deparou com seu Duílio, de cabelos engomados, vestindo um blazer xadrez antiquado. Ao vê-lo, Conceição acentuou o amargor da expressão. A única a cumprimentá-lo foi Magali:
- Seu Duílio!? Como vai o senhor? Pensamos que não vinha mais ninguém.
- Chh... Chh... Cheguei faz tempo! – A gagueira do velho se manifestava apenas ao iniciar frases.
O cenário do salão era enxuto: apenas uma mesa, coberta por uma toalha de renda impecável, uma jarra d`água e outra com suco de laranja, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, ao centro, e algumas cadeiras encostadas nas paredes.
Seu Amadeu postou-se de pé à cabeceira. Todos guardaram silêncio. A solenidade foi quebrada pelo som da folha de papel que o síndico tirou do bolso e desamassou. Olhares curiosos voltaram-se para ele.
- Bom, antes de começarmos, queria fazer uma... digamos... elucidação. Hoje em dia, a internet nos deixa a par de muitas coisas e, minha netinha, que é fera nessas coisas, imprimiu esse texto. Aqui explica um pouco o termo novena, que talvez nem todos conheçam a fundo... – Seu Amadeu colocou os óculos e iniciou a leitura de um artigo da Wikipedia – Novena é um encontro para orações, realizado durante o período de nove dias, daí o nome novena. Por excelência, trata-se de uma tradição com origem no imaginário da tradição católica, mas pode ser encontrado em outras tradições ou crenças... me perdi aqui, um momento.
Ao perceber que a narração ainda seguiria em frente, Conceição revirou os olhos e respirou fundo em desagravo, o que motivou Doralice a frear o ímpeto do síndico.
- Seu Amadeu, o senhor me desculpe. Sei que é a primeira vez que conduz as orações, mas acho isso desnecessário. Sabemos o significado de uma novena. Além do mais, se atrasarmos muito vamos acabar perdendo a novela, que tá pegando fogo nos capítulos finais, né gente!?
Conceição e Magali sacudiram a cabeça afirmativamente. O síndico, a contragosto, acatou:
- Claro, claro. A novela é o mais importante de tudo, não é!? Vamos começar. Demos as mãos.
BLAM BLAM BLAM
Para impaciência geral, agora alguém batia forte na porta. Mesmo sem qualquer permissão, um rapaz de capuz e arma em punho entrou no salão. Todos ficaram assombrados.
- Opa, desculpa aí gente boa, mas é que a gente tá assaltando o prédio. Quero ver todo mundo quieto, sem falar ou se mexer, senão leva chumbo, tá ligado!? Tem nenhum surdinho aí não né?! Ótimo!
- Tá brincando, moleque!? Ponha-se daqui pra fora! – indignou-se a voz cavernosa de Seu Amadeu.
O assaltante deteve-se por um instante, examinou os presentes e, quase gargalhando, expôs a idéia que tivera.
- Eu vou sair mesmo, ô do bigode. Mas vocês ficam aqui... pelados. Quero ver alguém fugir assim. Dou trinta segundos pra geral tirar a roupa. Um, dois, três... Vamo, porra!
O grito fez todos estremecerem, porém ninguém ameaçou se despir.
- Deixa eu ver em quem atiro primeiro... ah, na tia da cadeira ali. Já tá com o pé na vala mesmo.
CLICT
-Não! Peloamordedeus! – implorou Magali, enquanto desabotoava a blusa.
Seu Duílio já estava sem camisa. Os outros começavam a se despir lentamente. Menos Conceição, que de tanto pânico desmaiou. Magali desesperou-se ainda mais:
-Acudam aqui, minha nossa senhora!
-Cala a boca! Ninguém se mexe. Vamo colocando as pelancas pra fora aí. Cês tão ligados que o “paraíba” da portaria tá com o cano na cabeça? Tem ninguém para acudir não. Vou é fuzilar geral.
-Paraíba filha da puta! Devia estar ferrado no sono quando entraram. Por mim pode atirar nesse jumento! – esbravejou o síndico de cuecas.
-Logo se vê que o senhor não tem moral alguma pra conduzir uma novena. – ultrajou-se Doralice, que exibia formas ainda firmes sob a lingerie recatada.
Seu Duilio já estava totalmente nu. Era o único a não aparentar terror. Tal tranquilidade chamava a atenção dos outros, ainda resistentes em seus trajes menores.
-É pelado, porra!
Pronto. Todos ficaram nus. Magali chorava baixinho, escondida atrás da cadeira da irmã desmaiada. A viúva Doralice, mais desamparada do que nunca, tapava os seios e o sexo com as mãos. Seu Tide cobria as vergonhas com uma bandeja, assim como Seu Amadeu, único a fulminar o assaltante com ódio. Seu Duílio parecia estar em uma praia nudista, pois não cobria nada e tinha a face e o pescoço rubros.
- Todo mundo quietinho. Vou sair e trancar a porta. Se gritar, o porteiro morre. Já avisei. – Com uma trouxa de roupas na mão, o jovem assaltante retirou-se.
Apenas o choro esquálido de Magali quebrava o silêncio no salão. Ninguém se dignava a levantar o olhar para o outro. Subitamente, seu Tide saiu da letargia para assumir uma postura heróica. De forma desajeitada, ele colocou a santa e as jarras no chão e, com muita dificuldade, tentou arrastar a pesada mesa para o canto. As mulheres o fitaram por um momento, mas a visão do velhinho pelado se esforçando daquela forma era degradante demais.
- Que cê tá fazendo, homem? - indagou confuso o síndico.
-Não tá vendo? Vou virar a mesa para as mulheres se abrigarem atrás dela. É o mínimo que podemos fazer por estas senhoras.
-Mas você não vai conseguir fazer isso sozinho. – Seu Amadeu achava aquilo uma babaquice inútil, mas cerrou fileira com seu Tide. E para manter a fama de durão, emendou uma ordem para o distraído seu Duílio. - E você aí, não ajuda? Isso aqui não é um camping naturista, seu velho safado!
Seu Duílio se espantou com a reprimenda, mas caminhou obediente até a mesa para ajudar na missão. Juntos, os três se esforçavam pra virar a mesa de lado. Quando se abaixaram para concluir o serviço foram surpreendidos por um grito terrível. Conceição recobrara a consciência e agora tinha, à sua frente, três bundas nada formosas empinadas em sua direção. Magali correu para tentar acalmar a irmã, porém Conceição estava histérica.
-Saiam de perto de mim! Saiam de perto da Santa! Vocês são todos tarados. Vão queimar no inferno! Vão queimar no inferno!
-Calma, minha irmã. Você não se lembra do assalto? – As tentativas da irmã só exasperavam ainda mais a senhora.
-O que estes depravados fizeram com você? Cadê sua roupa? Isso só pode ser um pesadelo! Me tirem daquiiiiiiii. Socoooooooorro!
Desorientados, os três senhores se espremeram no canto, perto de uma porta de vidro que levava à garagem. Doralice se aproveitou do abrigo improvisado e entrincheirou-se atrás do mesão. Ficou de lá assistindo o caos reinante.
-Não grita, pelo amor de Deus! Eles vão matar o porteiro, minha irmã.
-Me tirem daquiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Em meio à confusão, seu Tide olhou para trás e viu, através da porta de vidro, uma família inteira os espreitando da sacada do prédio vizinho. Fez para eles uma mímica desesperada. Pedia que ligassem para a polícia, mas os vizinhos pareciam não entender a mensagem, pois responderam com insultos inaudíveis.
Magali virou a cadeira da irmã para a parede. Conceição parou de gritar, mas caiu em prantos sofridos. Entre soluços balbuciava:
-Como pode? Um espetáculo nojento desses... na frente da santa. Malditos... tarados... Magali, quero você fora da minha casa. Vai mendigar na rua, mas comigo não mora mais...
Agachados pelo salão, todos mergulharam em profundo pesar. Após alguns minutos, seu Amadeu despertou do transe. Caminhou até a porta e começou a esmurrá-la aos berros.
-Abram essa meeeerda! Seus covaaaardes! Podem me matar, seus filhos d`uma puta! Eu sou muito é homem, seus viaaaados!
O síndico gritou até perder a voz. Em certo momento, o alarido surtiu efeito, pois do outro lado alguém enfiou a chave atabalhoadamente na fechadura. Magali estremeceu.
-Ai, meus Deus! Voltaram pra matar a gente.
Surgiram as figuras de dois policiais fardados.
-O que é isso aqui afinal de contas? – parecia não acreditar no que via um dos policiais.
-Graças aos céus! – suspirou Magali.
O porteiro vinha logo atrás dos policiais. Agoniado, tentava explicar o acontecido.
-Seu Amadeu! Eu falei pra eles que teve um assalto. Os bandidos tavam aqui até agorinha, mas eles dizem que receberam outro tipo de denúncia. Acredita nisso?
-Cala a boca, seu asno! Sei que a culpa disso tudo é da tua molenguice! Preguiçoso de merda!
-O senhor se acalme, por favor! Cadê a roupa dos senhores? Ô porteiro, pega alguma coisa pra eles se cobrirem. Negócio é o seguinte: os moradores do prédio ao lado fizeram uma denúncia de ato obceno ocorrendo neste local.
Ao ouvir a voz da autoridade, Conceição suplicou:
-É isso sim senhor! São todos uns tarados sem o menor respeito pela santa. Me tire daqui, por favor! Me salve, seu policial! Me salve!
-A senhora está louca? – descabelou-se, seu Amadeu.
-Silêncio! Vamos averiguar tudo que aconteceu aqui. Vocês três se cubram e venham até aqui fora prestar esclarecimentos.
-Como assim três? Onde estão seu Tide e dona Doralice? – observou Magali.
-Virge Santa! Tavam aqui agorinha. Pra onde escapuliram? – questionou o porteiro, ainda sob a mira implacável do síndico.
A pedido da polícia, o porteiro subiu até os apartamentos dos dois sumidos, mas ninguém o atendeu. Pensou em procurar nas escadas, mas ao ouvir risinhos abafados vindos de lá, deteve-se. Era um momento especial. Achou melhor não interromper nada. Desceu novamente para a portaria.
terça-feira, 16 de março de 2010
A loja
- Onde eu tava com a cabeça quando embarquei nessa?
- Estava com a cabeça na bufunfa, queridinho.
-Queridinho?! O que houve com você, Cardoso? Só porque da noite para o dia assumiu que é gay vai passar a falar desse jeito? Se olha no espelho! Um senhor de bigodes!
- Ai como você é veeeelho, Armando. Eu sempre tive o mesmo jeito de falar. É que com você precisei ter outra... digamos... postura! Aliás, todo mundo precisa ser meio careta ao seu lado. É fato. Pensa bem, te dei várias pistas. Lembra das minhas assaduras de fundo emocional? Pois é. Só você pra acreditar nisso.
- Que nojo! Cardoso, eu nunca fui preconceituoso, você sabe. Quando você me chamou para ser sócio nessa loja de coisas... hum, fálicas, eu estranhei, mas levei a sério o potencial do negócio. Afinal, o que mais tem em São Paulo é viado e engraçadinho descolado. Enfim, cliente não ia faltar. Só que agora você decidiu jogar merda no ventilador, né?
-Não são coisas fálicas, Armando. É piroca mesmo. Cacete. Rola. Jeba!! Shampoo, chocolate, pasta de dente, tubo de chantilly, biscoito para cachorro e tudo que se possa imaginar no formato de um latejante caralho! Entendeste agora?
-Fala baixo! Olha o cliente aí.
Uma menina cadavérica e um gordinho de topete laranja entram na loja. Os dois parecem encantados com a variedade de produtos disponíveis. Após uma rápida olhada nos cosméticos, vão para o setor de comestíveis. Entre cochichos, o gordinho comenta com a amiga:
-Não te falei? É tudo em formato de pinto. Esses caras são geniais. Leu a entrevista de um deles para a revista Negócios SP? – A menina balança a cabeça afirmativamente e lança um olhar simpático para Armando e Cardoso, estáticos atrás do balcão.
Com passinhos curtos, o gordinho se aproxima dos dois e desabafa:
-Amei a loja. Vocês têm a cara de Sampa. Tipo... uma cidade assim... de pessoas corajosas, empreendedoras, que dão a cara para bater, que se assumem de ver-da-de. Ai, desculpa... tô sendo chato? Tô falando demais? Então...
Armando, com um sorriso melancólico, sentia o estômago revirar à medida que o gordinho perdia o fôlego. Não tinha porque ser admirado, refletia. Afinal, montara esse negócio esdrúxulo com Cardoso, até então um machão convicto, porque parecia uma forma bem-humorada de levantar dinheiro para abrir seu escritório de consultoria financeira. Não estava em seus planos ser alçado à categoria de personalidade gay. O fato é que após a entrevista de seu sócio, todos achavam que ele e Cardoso formavam um casal, concluía com horror.
Alheio às preocupações de Armando, Cardoso gentilmente mima os visitantes:
-Ai, imagiiiina. Vocês é que fazem o sucesso da loja. Fico é contente em saber que não vivemos mais numa era tão careta, sabe? Vocês não viveram na ditadura, nem sabem como era... Bom, deixa eu mostrar para vocês umas novidades. Já viram estes fantoches? É para teatrinho de adultos, ok? Nada de dar para a sobrinha. Rárárárá...
Armando se contorcia. Porra! O Cardoso era um funcionário público salafrário que mamava nas tetas da ditadura. Como pode ser tão cínico? – se questionava, cada vez mais moralista.
A menina, menos deslumbrada, muda de assunto:
-Meu, como vocês conseguiram tantos produtos nesse formato? Deve ter um milhão de paus espalhados por aqui – Todos riram, menos Armando.
-Se-gre-do. Eu sou um businessman, né gente?! Tenho muitos contatos. – respondeu Cardoso, com as mãos na cintura, mais afetado do que nunca.
Antes de ir embora, o gordinho comprou um pênis de chocolate meio amargo para presentear um colega de trabalho hetero. “Só de zoação”. Armando pensou em como o sucesso da loja estava associado ao crescimento do consumo irônico. Todo mundo vive colocando malícia infantilóide nas coisas. Odiava essa turminha irreverente. Se sentia deslocado naquele ramo, apesar das boas vendas. E para completar, a fanfarronice do sócio, estampada em uma revista de grande circulação, o deixara realmente puto.
-Olha para isso, Cardoso! Todos pensam que somos um casal! Eu devia te cobrir de porrada, mas acho que você vai é gostar...
-Vou mesmo. Agora fica calmo, pensa comigo: a entrevista foi uma grande jogada de marketing. A confissão de minha homossexualidade é só um detalhe. Pouco importa. O importante é que o interesse pela nossa vida privada vai atrair mais e mais clientes.
-Jogada de marketing é o caralho! Você sempre foi um enrustido e aproveitou os holofotes para sair do armário. Só não precisava mentir a meu respeito.
-Não coloque palavras na minha boca. Eu não disse nenhuma mentira.
-Não disse? Vou ler o maldito trecho para refrescar sua memória: “Não nego minha homossexualidade, já o meu sócio é bastante discreto. Jamais faria uma confissão dessas. É um direito dele. Mas posso revelar que a empatia entre nós, torna o sucesso da loja mais consistente. Quando a gente se une a alguém que gosta, o resultado é sempre feliz...”. E por aí vai... puta que o pariu!! Se isso não é chamar alguém de viado publicamente, eu não sei o que é!
-Desencana, Armando. Somos personagens da vida paulistana. Estamos sujeitos a fofocas. Vai por mim, isso é bom para o negócio.
-Vai falar isso para a Dulce! Por mais que eu repita a ela que nunca tive um caso com meu amigo de infância, ela sempre ficará desconfiada. Meus amigos do boliche agora acham que eu mordo a fronha desde criancinha.
-Nossa! Eles pensam isso? Será que é porque você abriu uma loja de caralhos chamada Here comes the fun no meio da rua Augusta? Ou será por motivos mais secretos? Conta pra mim, Mandinho.
-Dobra tua língua, safado! Só dei essa bandeira toda porque achei que nossa parceria renderia grana. Mas não era esse tipo de “parceria” que eu tinha em mente. Você vai se retratar publicamente!
-Ora, não delira. Depois sou eu que tenho mania de grandeza. O que está feito está feito. A Dulce que se lixe. Se te trata desse jeito é porque não merece você.
-Vou te mostrar o que VOCÊ merece. – Armando empurra Cardoso com violência sobre uma mesa repleta de velas em forma de pênis. Várias se quebram no chão.
Cardoso levanta possesso com a atitude do sócio:
-Aaaahhh! Ficou doido? Olha o prejuízo, seu mané! Essas velas são importadas do Brunei!
-Eu vou quebrar cada falo desses na tua cabeça até você ir se explicar com a Dulce e com o jornal.
-Rárárá. Não seja patético! Você acha que eu deixei de ser homem porque me assumi? Te quebro a cara se encostar em mais alguma mercadoria. Experimenta!
-Vamos ver.
Armando tenta dar um soco em Cardoso, mas é surpreendido pelo sócio, que amortece o golpe e o imobiliza. Roxo de raiva, Armando vocifera:
-Bicha escrota! Esse é o braço que tem um pino, espera até eu te pegar com o outro. Arrrgggh.
-Eu fiz aulas de defesa pessoal, sabia!? Agora, fica calminho, nenê.
Dulce entra na loja e presencia Cardoso dando uma gravata em Armando. Transtornada, se despede sem avaliar a situação:
-Como fui idiota em querer me meter na relação de vocês. TCHAU, Armando!
Cardoso solta o amigo e ele corre para a porta.
-Dulce!
Armando tenta perseguir sua namorada porém é puxado de volta para dentro da loja.
-Eu não acredito! Você quer me deixar puto mesmo, pois então ago... – Aflito, Cardoso o interrompe.
-Shhh! Olha ali.
-Oi?
-Não tá vendo? Encostados no carro ali. Um bando de carecas! E tão armados, pode acreditar! Esses caras tão afim de confusão, Armando. Vamos fechar a loja. Chama a polícia!
-Ora, vai se foder! Eu vou atrás da Dulce. Cadê sua defesa pessoal agora? Tomara é que te comam na porrada mesmo.
-Cuidado, Armando!
O crânio de Armando é golpeado com um cano de alumínio, enquanto o sócio é arrastado para os fundos da loja. Nos fundos, entre um insulto e outro, Cardoso leva uma surra impiedosa. Pior sorte teve o inconsciente Armando. Atirado no chão, não pode se defender de vários pisões na cabeça. O sangue saía pela boca, pelos ouvidos, pelo nariz e lhe empapava os cabelos.
A entrevista para a revista Negócios SP tornou-se irrelevante. Nos dias que se passaram, Cardoso experimentou uma fama muito mais consistente. Manchetes denunciavam a violência sofrida por ele e o amigo, grupos gays pediam justiça, a população repudiava a existência de jovens neo nazistas e a discussão fervia em tudo quanto é canto. Mas infelizmente, o nome mais citado era o de Armando Queiróz, que não resistira aos ferimentos e agora era alçado à condição de mártir da causa homossexual.
Mesmo com menos dentes na boca, Cardoso convoca órgão de imprensa para soltar o verbo:
-Gente, isso passou do limite! Não foi um ato cometido por alguém que ganhou um pinto de chocolate e não gostou, entendem? Esse tipo de reação não cabe mais nos dias de hoje. Eu vivi os anos de ditadura, sei como era terrível. Parece que a repressão está de volta! Meu companheiro está morto e essa tragédia tem que servir para discutirmos mudanças na maneira de enxergar o público GLBT. Chega de reclusão e intolerância!
Dulce prefere se recolher. Cardoso vira a viúva oficial de Armando. Fica em evidência durante alguns meses, aparece no programa de Luciana Gimenez na TV, mas aos poucos some da mídia.
Seis meses depois, Cardoso reaparece. Agora à frente de um movimento gay, decidido a emplacar um pacote de leis municipais à favor do direito dos homossexuais manifestarem sua opção sexual em locais públicos. Também pediam punição específica para atos que infligissem tais direitos. O pacote de leis, aprovado pela câmara, é batizado com o nome de Armando Queiróz, mas popularmente é conhecido como Lei Arco Íris.
Ao repórteres, Cardoso declara emocionado:
-Esse é o ato final. Seja onde estiver, agora Armando está mais feliz. Descanse em paz, meu amigo.
- Estava com a cabeça na bufunfa, queridinho.
-Queridinho?! O que houve com você, Cardoso? Só porque da noite para o dia assumiu que é gay vai passar a falar desse jeito? Se olha no espelho! Um senhor de bigodes!
- Ai como você é veeeelho, Armando. Eu sempre tive o mesmo jeito de falar. É que com você precisei ter outra... digamos... postura! Aliás, todo mundo precisa ser meio careta ao seu lado. É fato. Pensa bem, te dei várias pistas. Lembra das minhas assaduras de fundo emocional? Pois é. Só você pra acreditar nisso.
- Que nojo! Cardoso, eu nunca fui preconceituoso, você sabe. Quando você me chamou para ser sócio nessa loja de coisas... hum, fálicas, eu estranhei, mas levei a sério o potencial do negócio. Afinal, o que mais tem em São Paulo é viado e engraçadinho descolado. Enfim, cliente não ia faltar. Só que agora você decidiu jogar merda no ventilador, né?
-Não são coisas fálicas, Armando. É piroca mesmo. Cacete. Rola. Jeba!! Shampoo, chocolate, pasta de dente, tubo de chantilly, biscoito para cachorro e tudo que se possa imaginar no formato de um latejante caralho! Entendeste agora?
-Fala baixo! Olha o cliente aí.
Uma menina cadavérica e um gordinho de topete laranja entram na loja. Os dois parecem encantados com a variedade de produtos disponíveis. Após uma rápida olhada nos cosméticos, vão para o setor de comestíveis. Entre cochichos, o gordinho comenta com a amiga:
-Não te falei? É tudo em formato de pinto. Esses caras são geniais. Leu a entrevista de um deles para a revista Negócios SP? – A menina balança a cabeça afirmativamente e lança um olhar simpático para Armando e Cardoso, estáticos atrás do balcão.
Com passinhos curtos, o gordinho se aproxima dos dois e desabafa:
-Amei a loja. Vocês têm a cara de Sampa. Tipo... uma cidade assim... de pessoas corajosas, empreendedoras, que dão a cara para bater, que se assumem de ver-da-de. Ai, desculpa... tô sendo chato? Tô falando demais? Então...
Armando, com um sorriso melancólico, sentia o estômago revirar à medida que o gordinho perdia o fôlego. Não tinha porque ser admirado, refletia. Afinal, montara esse negócio esdrúxulo com Cardoso, até então um machão convicto, porque parecia uma forma bem-humorada de levantar dinheiro para abrir seu escritório de consultoria financeira. Não estava em seus planos ser alçado à categoria de personalidade gay. O fato é que após a entrevista de seu sócio, todos achavam que ele e Cardoso formavam um casal, concluía com horror.
Alheio às preocupações de Armando, Cardoso gentilmente mima os visitantes:
-Ai, imagiiiina. Vocês é que fazem o sucesso da loja. Fico é contente em saber que não vivemos mais numa era tão careta, sabe? Vocês não viveram na ditadura, nem sabem como era... Bom, deixa eu mostrar para vocês umas novidades. Já viram estes fantoches? É para teatrinho de adultos, ok? Nada de dar para a sobrinha. Rárárárá...
Armando se contorcia. Porra! O Cardoso era um funcionário público salafrário que mamava nas tetas da ditadura. Como pode ser tão cínico? – se questionava, cada vez mais moralista.
A menina, menos deslumbrada, muda de assunto:
-Meu, como vocês conseguiram tantos produtos nesse formato? Deve ter um milhão de paus espalhados por aqui – Todos riram, menos Armando.
-Se-gre-do. Eu sou um businessman, né gente?! Tenho muitos contatos. – respondeu Cardoso, com as mãos na cintura, mais afetado do que nunca.
Antes de ir embora, o gordinho comprou um pênis de chocolate meio amargo para presentear um colega de trabalho hetero. “Só de zoação”. Armando pensou em como o sucesso da loja estava associado ao crescimento do consumo irônico. Todo mundo vive colocando malícia infantilóide nas coisas. Odiava essa turminha irreverente. Se sentia deslocado naquele ramo, apesar das boas vendas. E para completar, a fanfarronice do sócio, estampada em uma revista de grande circulação, o deixara realmente puto.
-Olha para isso, Cardoso! Todos pensam que somos um casal! Eu devia te cobrir de porrada, mas acho que você vai é gostar...
-Vou mesmo. Agora fica calmo, pensa comigo: a entrevista foi uma grande jogada de marketing. A confissão de minha homossexualidade é só um detalhe. Pouco importa. O importante é que o interesse pela nossa vida privada vai atrair mais e mais clientes.
-Jogada de marketing é o caralho! Você sempre foi um enrustido e aproveitou os holofotes para sair do armário. Só não precisava mentir a meu respeito.
-Não coloque palavras na minha boca. Eu não disse nenhuma mentira.
-Não disse? Vou ler o maldito trecho para refrescar sua memória: “Não nego minha homossexualidade, já o meu sócio é bastante discreto. Jamais faria uma confissão dessas. É um direito dele. Mas posso revelar que a empatia entre nós, torna o sucesso da loja mais consistente. Quando a gente se une a alguém que gosta, o resultado é sempre feliz...”. E por aí vai... puta que o pariu!! Se isso não é chamar alguém de viado publicamente, eu não sei o que é!
-Desencana, Armando. Somos personagens da vida paulistana. Estamos sujeitos a fofocas. Vai por mim, isso é bom para o negócio.
-Vai falar isso para a Dulce! Por mais que eu repita a ela que nunca tive um caso com meu amigo de infância, ela sempre ficará desconfiada. Meus amigos do boliche agora acham que eu mordo a fronha desde criancinha.
-Nossa! Eles pensam isso? Será que é porque você abriu uma loja de caralhos chamada Here comes the fun no meio da rua Augusta? Ou será por motivos mais secretos? Conta pra mim, Mandinho.
-Dobra tua língua, safado! Só dei essa bandeira toda porque achei que nossa parceria renderia grana. Mas não era esse tipo de “parceria” que eu tinha em mente. Você vai se retratar publicamente!
-Ora, não delira. Depois sou eu que tenho mania de grandeza. O que está feito está feito. A Dulce que se lixe. Se te trata desse jeito é porque não merece você.
-Vou te mostrar o que VOCÊ merece. – Armando empurra Cardoso com violência sobre uma mesa repleta de velas em forma de pênis. Várias se quebram no chão.
Cardoso levanta possesso com a atitude do sócio:
-Aaaahhh! Ficou doido? Olha o prejuízo, seu mané! Essas velas são importadas do Brunei!
-Eu vou quebrar cada falo desses na tua cabeça até você ir se explicar com a Dulce e com o jornal.
-Rárárá. Não seja patético! Você acha que eu deixei de ser homem porque me assumi? Te quebro a cara se encostar em mais alguma mercadoria. Experimenta!
-Vamos ver.
Armando tenta dar um soco em Cardoso, mas é surpreendido pelo sócio, que amortece o golpe e o imobiliza. Roxo de raiva, Armando vocifera:
-Bicha escrota! Esse é o braço que tem um pino, espera até eu te pegar com o outro. Arrrgggh.
-Eu fiz aulas de defesa pessoal, sabia!? Agora, fica calminho, nenê.
Dulce entra na loja e presencia Cardoso dando uma gravata em Armando. Transtornada, se despede sem avaliar a situação:
-Como fui idiota em querer me meter na relação de vocês. TCHAU, Armando!
Cardoso solta o amigo e ele corre para a porta.
-Dulce!
Armando tenta perseguir sua namorada porém é puxado de volta para dentro da loja.
-Eu não acredito! Você quer me deixar puto mesmo, pois então ago... – Aflito, Cardoso o interrompe.
-Shhh! Olha ali.
-Oi?
-Não tá vendo? Encostados no carro ali. Um bando de carecas! E tão armados, pode acreditar! Esses caras tão afim de confusão, Armando. Vamos fechar a loja. Chama a polícia!
-Ora, vai se foder! Eu vou atrás da Dulce. Cadê sua defesa pessoal agora? Tomara é que te comam na porrada mesmo.
-Cuidado, Armando!
O crânio de Armando é golpeado com um cano de alumínio, enquanto o sócio é arrastado para os fundos da loja. Nos fundos, entre um insulto e outro, Cardoso leva uma surra impiedosa. Pior sorte teve o inconsciente Armando. Atirado no chão, não pode se defender de vários pisões na cabeça. O sangue saía pela boca, pelos ouvidos, pelo nariz e lhe empapava os cabelos.
A entrevista para a revista Negócios SP tornou-se irrelevante. Nos dias que se passaram, Cardoso experimentou uma fama muito mais consistente. Manchetes denunciavam a violência sofrida por ele e o amigo, grupos gays pediam justiça, a população repudiava a existência de jovens neo nazistas e a discussão fervia em tudo quanto é canto. Mas infelizmente, o nome mais citado era o de Armando Queiróz, que não resistira aos ferimentos e agora era alçado à condição de mártir da causa homossexual.
Mesmo com menos dentes na boca, Cardoso convoca órgão de imprensa para soltar o verbo:
-Gente, isso passou do limite! Não foi um ato cometido por alguém que ganhou um pinto de chocolate e não gostou, entendem? Esse tipo de reação não cabe mais nos dias de hoje. Eu vivi os anos de ditadura, sei como era terrível. Parece que a repressão está de volta! Meu companheiro está morto e essa tragédia tem que servir para discutirmos mudanças na maneira de enxergar o público GLBT. Chega de reclusão e intolerância!
Dulce prefere se recolher. Cardoso vira a viúva oficial de Armando. Fica em evidência durante alguns meses, aparece no programa de Luciana Gimenez na TV, mas aos poucos some da mídia.
Seis meses depois, Cardoso reaparece. Agora à frente de um movimento gay, decidido a emplacar um pacote de leis municipais à favor do direito dos homossexuais manifestarem sua opção sexual em locais públicos. Também pediam punição específica para atos que infligissem tais direitos. O pacote de leis, aprovado pela câmara, é batizado com o nome de Armando Queiróz, mas popularmente é conhecido como Lei Arco Íris.
Ao repórteres, Cardoso declara emocionado:
-Esse é o ato final. Seja onde estiver, agora Armando está mais feliz. Descanse em paz, meu amigo.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Eu, Croquete
Podia dizer que minha vida foi em vão. Afinal, aqui estou há quase 24 horas, deteriorado e sem perspectiva alguma de ser ingerido. Inclusive, sinto a consciência me fugir, à medida que salmonelas consomem meu interior. Apesar de estar azedo, posso, pelo menos, oferecer um testemunho sobre o que vivi. Talvez assim a minha trajetória não se torne uma inutilidade completa.
Ainda jovem, na manhã de ontem, quando eu era um croquete fresquinho e vistoso, compartilhei esperanças com outros colegas de estufa. Pura diversão. Não tínhamos muitos objetivos na vida. Podíamos ser comparados a uma turma de calouros, que deseja se enturmar e experimentar o máximo de sensações possíveis. Afinal, nossa existência é tão efêmera... então tudo deveria ser encarado como uma agradável novidade. Mas não foi bem assim.
Fizeram parte de minha geração algumas coxinhas, sensuais e douradas, cientes do papel de prestígio que desempenham nas refeições cotidianas, tinha também uns poucos quibes, inatingíveis como príncipes exilados, uma meia dúzia de bauruzinhos, tipos leves e descompromissados, além de outros irmãos croquetes. Irmãos? Bem... não chega a tanto. A consciência de nossas origens nebulosas gerava desconfianças mútuas. Na outra ponta da estufa, instalaram-se algumas salsichas empanadas, totalmente desordeiras. Tais tipos me provocavam certo desconforto. Não era preconceito, mas sabe como é!? Às vezes o santo não bate. Aliás, preconceito mesmo, quem sentiu na pele fui eu. Como disse antes, os croquetes não possuem uma receita bem definida. Não sabemos muito sobre nossas origens, ou seja, os ingredientes que nos constituem são pra lá de suspeitos. Repletos de contra-indicações, eu diria. Carnes e temperos obscuros podem ocasionar problemas sérios para quem os consome. O pessoal lá da estufa foi percebendo isso aos poucos. Viramos os mestiços nocivos, os mulatos da turma. Sabe amigo, esse ambiente não é muito diferente da vida na sociedade humana. Nos habituamos às chegadas e partidas, à insegurança quanto ao futuro, aos amores frustrados e também à segregação social. E para completar, quando um croquete chega ao crepúsculo de sua existência, ninguém nos reverencia ou pede conselhos. Querem mais é nos empurrar para a boca de algum cão vira-lata, o que seria uma completa desonra. Deixemos isso para lá por enquanto.
Gostaria de relembrar algo bom, ou quase isso. Se hoje sou imune ao amor, no passado, já experimentei seu contágio. Mais precisamente ontem, ao meio-dia. Uma coxinha enorme, suculenta e crocante, chegou sem pedir licença à nossa estufa. Era a maior do grupo. Uma explosão de nutrição! Deus! Cabia um frango inteiro ali dentro! Perdoem a exaltação. É que nessa época sentia uma carência terrível. Mesmo tendo aquela multidão de croquetes ao meu redor. Sei lá, era como se não falássemos a mesma língua, sabe?! E para piorar, éramos evitados pelos outros salgados. Mas com aquela coxinha foi bem diferente. Ficamos inseparáveis. Trocávamos impressões sobre tudo. Ela era muito espirituosa. Vivia fazendo piadas com a barriga do cozinheiro, criticando de maneira mordaz os fregueses que passavam ali pelo nosso boteco, enfim, era uma coxinha à frente do tempo dela. Mas sabe aquela máxima melancólica dos homens, que diz que a felicidade dura pouco?! Pois é, comprovei a teoria. Sempre comentávamos entre gargalhadas o ar blasé e afrescalhado dos sanduíches naturais. Ela me matava de rir quando os imitava. Realmente, não dava para levá-los a sério. Ainda bem que viviam isolados lá no freezer. Afinal, eles não agüentariam um segundo da vida na estufa, amigo. Aqui a chapa esquenta, tá ligado? Pois então... Acabei me estrepando. De tanto implicar, minha amiga se apaixonou perdidamente por um deles. Viviam se acenando, ou fazendo mímicas apaixonadas. De uma hora para outra eu me tornei um confidente. Meu peito ardia ao ouvi-la dirigir palavras melosas ao tal sanduichezinho. Ó injustiça! Tive que me afastar de minha rotunda paixão. Pior é que ela mal percebeu, tão atraída que estava pelo meu frio oponente. E foi à distância que vi o suplício terminar de forma dramática. Todo salgado feito ao meio-dia possui vida curtíssima. Essas pobres almas são vítimas de uma convenção alimentar mundana, conhecida como almoço.
Um gordo suado a devorou sem dó. Fechei os olhos para não ver a cena, enquanto os demais habitantes da estufa se alvoroçavam com a perda repentina. Horas depois, o “Romeu” afrescalhado de minha amada foi consumido por uma madame. Ele também não devia estar se sentindo bem, pois a madame começou a empolar ali mesmo, intoxicada pela amargura do sujeitinho. Depois dessa tragédia, procurei evitar enlaces amorosos. Fui além. Intencionalmente, me descuidei da aparência a fim de desencorajar qualquer investida feminina.
Minha posição não permite enxergar muita coisa. Apenas pessoas que transitam de um lado para o outro pela calçada. Nunca um tipo interessante. Também pudera. O meu boteco fica pessimamente localizado. Por aqui só passam putas e tipos grosseiros. E sempre encostam a maldita barriga no balcão. Não percebem o quanto isso dificulta minha única distração externa: observar o movimento do puteiro em frente. Nem se animem muito, meus amigos. Só tem bagaço. Aliás, ontem à noite, prestes a completar doze horas de vida, comecei a me identificar com uma delas. Não me entendam mal, por favor. A pobrezinha já tinha certa idade. Era rejeitada até mesmo por homens vulgares, de gostos duvidosos. Sim, acabei me identificando! Afinal, sou evitado por fregueses de péssima reputação alimentar. Ela pelo menos pode fumar um cigarrinho e se afogar em bebida barata... já eu fico aqui nessa escuridão.
Opa, abriu! Nossa! Que dia lindo! Não é hora para lamentos. O fim está próximo e ninguém me ouve nesta choça. Tão logo saia a primeira fritada, darei adeus a esse mundo. Queria dedicar o sol dessa manhã a todos os amigos salgados com quem convivi. Todos engolidos e digeridos, quiçá excretados, ao longo dessas quase vinte e quatro horas. Um brinde a vocês!
Sinto vontade de cantar. Here comes the sun, tchutchururu, here comes the sun. Deus, essas salmonelas começam a afetar meu juízo. Por obséquio, joguem-me logo na lixeira. Não suporto mais ficar nesta estufa vazia, repleta de recordações.
Quem é esse aí que apareceu? Coitado. É tão velho que anda auxiliado por uma enfermeira. Aonde ela vai? Ao banheiro? Hehe. Eu não iria lá se fosse ela. Por que o velhote me encara dessa maneira? O que você quer? Você só pode estar de brincadeira...
- Pois não, senhor?
- Me vê esse croquetinho aqui, meu filho.
- Vixe! Isso taí desde ontem. Péra um pouquinho que já vão sair os salgados novos.
- Tem problema não, meu filho. Se vivi até hoje, não há de ser um croquetinho a me matar. Manda aí.
- O senhor que sabe.
Não acredito. O que este assassino vai fazer? Ele tá me pegando. Ih rapaz, ele tá falando sério mesmo. Vai me colocar na bandejinha e tudo. Não faça isso! Eu tenho uma população inteira de motivos para não ser servido. Pare! Não quero cometer um assassinato nos meus derradeiros momentos de vida. Seria uma mancha na minha trajetória. Malditos celerados! Tenho que evitar isto! Nem que seja meu último ato de nobreza.
- Opa! Desculpa! Caiu no chão.
- O danado parece que rolou sozinho...
- Isso mesmo. O senhor também reparou?
- Reparei que você é muito estabanado, meu filho.
- Sinto muito. Este vai pro cachorro.
Ainda jovem, na manhã de ontem, quando eu era um croquete fresquinho e vistoso, compartilhei esperanças com outros colegas de estufa. Pura diversão. Não tínhamos muitos objetivos na vida. Podíamos ser comparados a uma turma de calouros, que deseja se enturmar e experimentar o máximo de sensações possíveis. Afinal, nossa existência é tão efêmera... então tudo deveria ser encarado como uma agradável novidade. Mas não foi bem assim.
Fizeram parte de minha geração algumas coxinhas, sensuais e douradas, cientes do papel de prestígio que desempenham nas refeições cotidianas, tinha também uns poucos quibes, inatingíveis como príncipes exilados, uma meia dúzia de bauruzinhos, tipos leves e descompromissados, além de outros irmãos croquetes. Irmãos? Bem... não chega a tanto. A consciência de nossas origens nebulosas gerava desconfianças mútuas. Na outra ponta da estufa, instalaram-se algumas salsichas empanadas, totalmente desordeiras. Tais tipos me provocavam certo desconforto. Não era preconceito, mas sabe como é!? Às vezes o santo não bate. Aliás, preconceito mesmo, quem sentiu na pele fui eu. Como disse antes, os croquetes não possuem uma receita bem definida. Não sabemos muito sobre nossas origens, ou seja, os ingredientes que nos constituem são pra lá de suspeitos. Repletos de contra-indicações, eu diria. Carnes e temperos obscuros podem ocasionar problemas sérios para quem os consome. O pessoal lá da estufa foi percebendo isso aos poucos. Viramos os mestiços nocivos, os mulatos da turma. Sabe amigo, esse ambiente não é muito diferente da vida na sociedade humana. Nos habituamos às chegadas e partidas, à insegurança quanto ao futuro, aos amores frustrados e também à segregação social. E para completar, quando um croquete chega ao crepúsculo de sua existência, ninguém nos reverencia ou pede conselhos. Querem mais é nos empurrar para a boca de algum cão vira-lata, o que seria uma completa desonra. Deixemos isso para lá por enquanto.
Gostaria de relembrar algo bom, ou quase isso. Se hoje sou imune ao amor, no passado, já experimentei seu contágio. Mais precisamente ontem, ao meio-dia. Uma coxinha enorme, suculenta e crocante, chegou sem pedir licença à nossa estufa. Era a maior do grupo. Uma explosão de nutrição! Deus! Cabia um frango inteiro ali dentro! Perdoem a exaltação. É que nessa época sentia uma carência terrível. Mesmo tendo aquela multidão de croquetes ao meu redor. Sei lá, era como se não falássemos a mesma língua, sabe?! E para piorar, éramos evitados pelos outros salgados. Mas com aquela coxinha foi bem diferente. Ficamos inseparáveis. Trocávamos impressões sobre tudo. Ela era muito espirituosa. Vivia fazendo piadas com a barriga do cozinheiro, criticando de maneira mordaz os fregueses que passavam ali pelo nosso boteco, enfim, era uma coxinha à frente do tempo dela. Mas sabe aquela máxima melancólica dos homens, que diz que a felicidade dura pouco?! Pois é, comprovei a teoria. Sempre comentávamos entre gargalhadas o ar blasé e afrescalhado dos sanduíches naturais. Ela me matava de rir quando os imitava. Realmente, não dava para levá-los a sério. Ainda bem que viviam isolados lá no freezer. Afinal, eles não agüentariam um segundo da vida na estufa, amigo. Aqui a chapa esquenta, tá ligado? Pois então... Acabei me estrepando. De tanto implicar, minha amiga se apaixonou perdidamente por um deles. Viviam se acenando, ou fazendo mímicas apaixonadas. De uma hora para outra eu me tornei um confidente. Meu peito ardia ao ouvi-la dirigir palavras melosas ao tal sanduichezinho. Ó injustiça! Tive que me afastar de minha rotunda paixão. Pior é que ela mal percebeu, tão atraída que estava pelo meu frio oponente. E foi à distância que vi o suplício terminar de forma dramática. Todo salgado feito ao meio-dia possui vida curtíssima. Essas pobres almas são vítimas de uma convenção alimentar mundana, conhecida como almoço.
Um gordo suado a devorou sem dó. Fechei os olhos para não ver a cena, enquanto os demais habitantes da estufa se alvoroçavam com a perda repentina. Horas depois, o “Romeu” afrescalhado de minha amada foi consumido por uma madame. Ele também não devia estar se sentindo bem, pois a madame começou a empolar ali mesmo, intoxicada pela amargura do sujeitinho. Depois dessa tragédia, procurei evitar enlaces amorosos. Fui além. Intencionalmente, me descuidei da aparência a fim de desencorajar qualquer investida feminina.
Minha posição não permite enxergar muita coisa. Apenas pessoas que transitam de um lado para o outro pela calçada. Nunca um tipo interessante. Também pudera. O meu boteco fica pessimamente localizado. Por aqui só passam putas e tipos grosseiros. E sempre encostam a maldita barriga no balcão. Não percebem o quanto isso dificulta minha única distração externa: observar o movimento do puteiro em frente. Nem se animem muito, meus amigos. Só tem bagaço. Aliás, ontem à noite, prestes a completar doze horas de vida, comecei a me identificar com uma delas. Não me entendam mal, por favor. A pobrezinha já tinha certa idade. Era rejeitada até mesmo por homens vulgares, de gostos duvidosos. Sim, acabei me identificando! Afinal, sou evitado por fregueses de péssima reputação alimentar. Ela pelo menos pode fumar um cigarrinho e se afogar em bebida barata... já eu fico aqui nessa escuridão.
Opa, abriu! Nossa! Que dia lindo! Não é hora para lamentos. O fim está próximo e ninguém me ouve nesta choça. Tão logo saia a primeira fritada, darei adeus a esse mundo. Queria dedicar o sol dessa manhã a todos os amigos salgados com quem convivi. Todos engolidos e digeridos, quiçá excretados, ao longo dessas quase vinte e quatro horas. Um brinde a vocês!
Sinto vontade de cantar. Here comes the sun, tchutchururu, here comes the sun. Deus, essas salmonelas começam a afetar meu juízo. Por obséquio, joguem-me logo na lixeira. Não suporto mais ficar nesta estufa vazia, repleta de recordações.
Quem é esse aí que apareceu? Coitado. É tão velho que anda auxiliado por uma enfermeira. Aonde ela vai? Ao banheiro? Hehe. Eu não iria lá se fosse ela. Por que o velhote me encara dessa maneira? O que você quer? Você só pode estar de brincadeira...
- Pois não, senhor?
- Me vê esse croquetinho aqui, meu filho.
- Vixe! Isso taí desde ontem. Péra um pouquinho que já vão sair os salgados novos.
- Tem problema não, meu filho. Se vivi até hoje, não há de ser um croquetinho a me matar. Manda aí.
- O senhor que sabe.
Não acredito. O que este assassino vai fazer? Ele tá me pegando. Ih rapaz, ele tá falando sério mesmo. Vai me colocar na bandejinha e tudo. Não faça isso! Eu tenho uma população inteira de motivos para não ser servido. Pare! Não quero cometer um assassinato nos meus derradeiros momentos de vida. Seria uma mancha na minha trajetória. Malditos celerados! Tenho que evitar isto! Nem que seja meu último ato de nobreza.
- Opa! Desculpa! Caiu no chão.
- O danado parece que rolou sozinho...
- Isso mesmo. O senhor também reparou?
- Reparei que você é muito estabanado, meu filho.
- Sinto muito. Este vai pro cachorro.
Assinar:
Postagens (Atom)