segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Dreads


- Foda-se a minha etnia! Eu sigo o Rei dos Reis e seu pedido é inadmissível.
- Então vem, Rei dos Reis, Leão Conquistador da Tribo de Judah, ruge pra mim.
- Que isso, mulher!? Eu sou um humilde servo. Só quem merece o título de Leão é Hailê Selassiê.
- Se tu é servo, me sirva ao menos uma vez, seu vagabundo!
- Sou servo porém livre! Além do mais, isso é uma puta heresia. Anti-higiênica, inclusive.
- Porra, mas que rastafari chato você é! Bob curtia uma sacanagem, não curtia? Olha a caralhada de filho que ele deixou.
- Deixou, mas duvido que penetrou o dread na vagina de alguém.
- Não era bem na vagina que eu queria, amor.
- Você sabe o trabalho que dá pra cultivar e manter isso aqui?
- Ai, que vaidoso.
- Não podemos fazer outra coisa?
- Podemos inaugurar um novo fetiche?
- Você tá bêbada.
- Dreadfucking?
- Desculpa, mas não é só um visual descolado.
- Ah, claro! Um loirinho de Moema que cultua um Deus Etíope. Toma vergonha nessa cara.
- Toma você! Quem vai ficar com o dread exalando cu por aí serei eu. É indigno!
- Devia te excitar.
- Não tenho essa perversão.
- Nem se te compensar depois pela dádiva?
- Parece um favor bem abjeto.
- Se você fosse um negão de verdade, talvez eu não estivesse quase implorando por esse “favor”.
- Tá insinuando que tenho o pau pequeno porque sou branco?
- Insinuando que você não gosta.
- Ok, então vira! Depois não reclama se te contaminar. 
- Sabia!
- O quê?
- Pode ser mórmon, muçulmano, satanista, o que for!
- Como assim?
- Bastou duvidar da masculinidade que você já caga sobre o Levítico e limpa a bunda com o Velho Testamento.
- Ainda podemos desistir.
- Vem cá, Predador! Mas com jeitinho porque eu nunca fiz isso.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Tinder


Andrício é levado pela moça ruiva até uma mesa cheia de desconhecidos. Percebendo que não ficaria a sós com ela, sente ameaçada a possibilidade de tirar a cueca naquela noite. Ainda assim, procura agir naturalmente:

- Legal, e estão comemorando alguma coisa?
- O teste daquela minha amiga ali - aponta a moça na outra ponta da mesa - que deu negativo. 
- Não tava pronta pra cegonha?
- Era teste de HIV.
- Ah.
- O ex é meio promíscuo, sabe?!- susurra – E o dele deu positivo. Maior bafo. Senta aí que eu te conto.
- Então… acho melhor eu partir. Trabalho amanhã – blefa Andrício, mantendo uma insistente semiereção.
- Como assim? Acabou de chegar.
- Achei que seria só nós dois, tipo um date.
- Ué, mas eu falei isso? – franze a testa, tentando se lembrar.
- Deu a entender pelo Tinder.
- Ah, o Tinder.
- Entendi errado?
- Relaxa, meus amigos são ótimos. 
- Mas vão ficar me julgando. Tipo: quem é o loser que se abalou até aqui atrás de alguém que nem conhece e mesmo depois de descobrir que a moça tava em outro rolé, se submeteu a ser coadjuvante? É como passar o aniversário na festa de outra pessoa, entende? 
- Hahahaha! Não tá falando sério, né?!
- Não seria melhor a gente sair daqui e...
- Puxa uma cadeira aí, vai - ordena, com doce impaciência, ignorando a anêmica tentativa de fuga de Andrício.

Após certa dificuldade em achar cadeira no bar lotado, enfim senta-se ao lado da bela ruiva que motivara-lhe a sair de casa naquela noite fria de terça, mesmo exaurido pelo trabalho, sob a autoimposta obrigação de fugir da rotina, também conhecida como “transar”.

- Você é o primeiro perfumista que eu conheço - ela puxa papo.
- Perfumista? 
- É, não faz perfume? Tô louca?
- Não, sou turismólogo.
- Vixe! E a promessa de criar uma fragrância pra mim? – questiona, simpática.
- Só poderia indicar destinos turísticos mesmo – responde, arrependendo-se do tom humilde, pois jamais envergonhara-se de sua profissão antes.
- Difícil com essa crise. Mas deixa seu cartão – ironiza, desconcertando-o ainda mais.
- Tinha dito que achava minha profissão original, lembra? 
- Desculpa, gato, muitas janelas abertas ao mesmo tempo, me confundo.
- Parecia querer me ver – sente a autoconfiança e a semiereção arrefecerem.
- Peraí, foi você que me mandou foto do pinto?
- Nunca fiz isso – aborrece-se.
- Pena, desse eu me lembro.
- Te mandam mesmo o…
- Ih… – contorce o rosto, deixando a resposta no ar.
- Bom, prefiro mostrar pessoalmente.
- Hahaha... calma, cara.

Se continuasse demonstrando tanta impaciência, poderia afugentá-la, pensa. Apesar da prudência indicar que o sentimento ideal é a expectativa controlada, não consegue evitar outra crise de orgulho ferido:

- Você parece não ter ideia de quem eu sou. 
- Péra, qual o seu nome?
- Andrício. 
- Haha... não fode. 
- Não fode você. 
- Nome incomum. Era pra eu me lembrar.
- Então por que chegou em mim no balcão?
- Você me olhou tão empolgado. Achei que tivéssemos combinado algo, sei lá.
- E combinamos! Insistiu pra eu vir aqui, inclusive.
- Gosto daqui.
- Marcou mais algum date pra hoje? – pergunta, atravessando de vez a fronteira entre a impaciência e a animosidade, sem jamais ter sido agradável de verdade.
- Nem sei, Aparício. Falo com tanta gente.
- Andrício.
- Meu, você é meio exigente. Primeiro pede exclusividade, agora quer que eu lembre de coisas que disse chapada. Too much pro meu pobre cérebro.
- Desculpa, Silvia - ele põe as mãos sobre o peito, admitindo culpa - Vamos começar de novo essa conversa?

Ela abafa uma risada.

- Que foi?
- Quem é Silvia?
- Ué… não disse que era o seu…?
- Lá vem você dizer que eu falei isso e aquilo de novo.
- Você não é a Silvia? – saca o celular do bolso e o consulta.
- Sua Silvia é ruiva também? 
- É… - responde, aparentando terrível frustração – Merda, não vi a mensagem. Foi embora há vinte minutos.
- Essa mulher tá te enganando. Tenho certeza que sou a única ruiva aqui desde que cheguei.
- Vocês deviam colocar fotos nítidas nessa porra de aplicativo de paquera!
- “Aplicativo de paquera”? Falando assim fica difícil se solidarizar com você, amigo – debocha.
- É, sou devagar com novas tecnologias - faz o tipo coitado.
- Relaxa porque o negócio ainda pode ficar bom pro seu lado – dá-lhe um tapinha no joelho.
- Como?
- Em primeiro lugar – estende a mão – prazer, Ingrid.
- Prazer. 
- Tem alguém aqui no bar que adorou você.
- Mas eu nem socializei, fiquei só aqui sentado.
- Pra você ver o seu poder de sedução. Posso chamar...?
- Não sei, tinha outros planos.

Ingrid se levanta e grita para alguém no balcão.

- Clinton, chega aí! 

O sorridente barbudo de turbante aproxima-se cheio de ginga, mas detém-se ao perceber a careta de Andrício.

- Bom, chegamos ao famoso “limite” – bate na mesa Andrício.
- Meu, não precisa pegar o Clinton. Ele te curtiu, podem ser amigos.
- Ele é mais sensato que você, tanto que ficou lá na dele.
- Clinton é sensível, meu bem. Captou sua aura negativa.
- Por acaso você chegou em mim por causa dele? 
- Sim e não. Tem dois lados de ver a coisa.
- Quero saber do lado bom. 
- Pode ser um copo meio cheio... ou meio vazio - mantém-se enigmática.
- Bom, eu prefiro meu cu totalmente vazio, ok? 
- Se acha assim, devia procurar outra coisa, tipo aquela mina ali que não tira os olhos de você.
- Quem...? – a visão da pessoa parece causar vertigem em Andrício.
- Se você visse sua cara...
- Tem banheiro aqui? 

Tenta escapulir sem sucesso, pois a mulher misteriosa já estava ao seu lado. 

- Tô surpresa de te ver aqui.
- Oooi – simula uma simpatia tosca – Como você tá?
- Bem. E a Ju, cadê?
- Viajou.
- Bacana – responde seca, espichando os olhos para Ingrid.
- Esta é a Ingrid, uma amiga.
- Oi! A gente se conheceu pelo Tinder – intromete-se Ingrid – Quer sentar?
- Bom...  – fulmina Andrício com o olhar - Não vou me meter nos seus assuntos. Manda um beijo pra Ju.

Impotente, Andrício observa a moça ir embora, concluindo estar irreversivelmente encrencado. 

- Cê quer me foder, né? 
- Eu não. Você que quer me foder. 
- Você mentiu!
- Por que não me disse que tinha rolo com alguém?
- Não tenho, quer dizer, não sei mais, porque aquela é a melhor amiga dela.
- E não ia me contar?
- Deveria? Vim aqui encontrar outra pessoa, esqueceu?
- Mas queria me comer.
- Não, queria a Silvia.
- E o que ela tem de tão diferente? Vocês nem se conhecem.
- Olha, só me arrisquei porque ela tem algo sim.
- Tipo?
- Bom... melhor eu ir. Já me fodi o suficiente.
- Ah não, agora fala.
- Ela não é totalmente mulher.
- É trans?
- É, mais ou menos isso.
- Que máximo! 
- Mulher eu já tenho.
- Peraí! Você me confundiu com a... - arregala os olhos - Acha que eu tenho cara de trans? 
- Não sei, é que hoje em dia...
- Meu Deus!
- Quanto mais feminina melhor, né?!
- Mano, olha o Clinton ali a fim. Tá perdendo tempo por quê?
- Tá doida? Não sou gay, só curto... ou melhor, tenho curiosidade com...
- Pau?
- Trans – olha ao redor, constrangido com a admissão – E seu amigo é muito peludo.
- Bom, então ninguém aqui pode te ajudar.
- Tudo bem. Agora só consigo pensar na merda que vai dar com a Ju.
- Só se rolasse um threesome, que que cê acha? Eu, você e o Clinton.
- Tá de onda, né?
- Uma mão lava a outra. Eu curto com dois caras, você tá atrás de aventura flex e o Clinton é da orgia  – bate palmas, excitada - E aí, partiu?
- Esse é o copo meio cheio de que você tava falando?
- Vai ou não? Sem enrolar.
- Tá.
- Clinton – grita de novo – Pega a catuaba e vem!



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Pole dancer


O interfone toca e Enzo atende:

- Pois não?!
- Marido de aluguel!
- Quem?
- É o Clarício.
- Acho que é engano.
- Não pediu serviço de hidráulico e encanador?
- Pedi.
- Então é comigo. Pode abrir.

No banheiro, Clarício abre a caixa de ferramentas, sob olhares intrigados do dono da casa.

- Quem te indicou foi a Cidinha do 201, mas ela não me disse que você era…
- Marido de aluguel? Sou profissional completo, irmão.
- E ela é muito bem humorada.
- O que vai ser?
- Instalar o chuveiro e desentupir a pia.
- Mas isso é só um bico.
- Oi?
- Marido de aluguel é só bico.
- Clarício, vou te tratar como encanador, ok? Esse negócio de marido de aluguel, sei lá, me humilha um pouco.
- Pode me tratar como dançarino.
- Não entendi.
- Dançarino Clarício. Aliás, dançarino não. Pole dancer Clarício, melhor.
- Você é dançarino?
- Pole dancer.
- Isso é sério?
- Falei que meu ramo era outro. 
- Você vive de pole dance?
- Tento, né?! Viajo bastante com esse projeto.
- Viaja?
- Tô aqui pra etapa brasileira do Circuito Mundial de Pole Dance Masculino. E sou o melhor, modéstia à parte.
- Parabéns – disfarça o riso - Nem sei o que dizer.
- Veda-rosca, por favor.
- Vedar o quê?
- Pega o veda-rosca aí na caixa, irmão.
- Ah! É isso?
- Acontece que a próxima etapa é em Las Vegas e a grana pra passagem tá curta.
- Mas se você é campeão, não devia ter grana pra participar das etapas?
- Tá duvidando?
- Não, foi só uma pergunta.
- Ainda não sou campeão, mas sou o primeiro do ranking brasileiro.
- Existe ranking? 

Clarício não responde, parece contrariado.

- Tá, eu acredito.
- Pode perguntar pra Cidinha.
- Cidinha? A Cidinha do 201?
- É, ela já viu minha apresentação.
- Viu? Onde? Você tambem faz… michê?
- Tá me tirando?
- Olha, Clarício pole dancer, eu não quis duvidar de você. Isso é novidade pra mim. 
- O quê é novidade?
- Esse negócio de pole dance masculino, a Cidinha e tudo mais.
- Ah, porque só mulher pode dançar pendurada no cano.
- Não, achei curioso o lance da Cidinha, apenas. Parece pegadinha dela.
- Agora vai espalhar pro prédio que eu dancei pra Cidinha, vai?
- Eu?
- Aí perco meu bico com a vizinhança e no money for Vegas.
- Escuta, só encomendei um serviço. Se é pole dancer ou se dança pra minha vizinha, tanto faz.
- Relaxa, pra mim também é novidade atender gente feito você.
- Por quê?
- Porque, desculpa a sinceridade, homem sozinho se vira, né?!
- Não entendi. 
- Geralmente resolve a bucha sem precisar de “marido”.
- Já falei que não sabia que você era um…
- Fica entre nós.
- Por ser homem, tenho que manjar de consertos?
- Só disse que era incomum, meu parça.
- Não sou seu parça, sou o otário que te descola dinheiro fácil.
- Ih, ficou ofendido.
- Porque é preconceito.
- Doeu em você, foi? Desculpa, mas meu preconceito não é pior que o seu. 
- Não fui preconceituoso, você que é paranoico. 

Clarício abandona o serviço e encara Enzo, um tanto ofendido e um tanto ameaçador.

- Vai me agredir, seu Clarício, é isso?
- Não, vou argumentar: o que tá rolando aqui é conflito de classe. 
- Oi?
- É! O pobre coitado do pole dancer não pode ir pra Vegas, não pode pegar a vizinha rica. 
- Você “pegou” a Cidinha?
- “Só pode ser michê”, aposto que tá pensando nisso até agora – ressente-se.
- A questão é que eu e a Cidinha temos um…
- Você não se conforma por eu levar uma vida mais da hora que a sua.

A campainha toca e Enzo não demonstra surpresa ao abrir e ver Cidinha entrar sem cerimônia.

- E a pia, consertou? – pergunta enquanto atravessa a sala de pijama – Pole dancer Clarício taí?
- Cidinha, você mandou um michê vir aqui? Cidinha, vem cá! – persegue a moça até o banheiro.
- Oi, Clarício! E Vegas, vai rolar, baby?
- Fala, minha gata! – beija a bochecha que Cidinha oferece - Olha a caca que seu vizinho arrumou aqui.

Enzo e Cidinha olham enojados para um enorme tufo capilar nas mãos do dançarino.

- Aparei a barba na pia.
- Que barba, Enzinho? Você nunca teve – entrega a vizinha.
- Isso aqui tem outro nome: é pentelho! – esclarece o marido de aluguel.
- Enzinho!
- Pois é, Cidinha, seu vizinho me trata como inferior porque cultuo o corpo, mas depila o saco na pia. 
- Eu não fiz isso.
- Enzinho, você tá discriminando o Clá? Não acredito.
- Já me acostumei. Gente como o seu Enzo acha que artista é vagabundo, gentinha.
- Artista? – ri Enzo com ironia.
- É artista sim – defende Cidinha - Mostra aí Clá. Trouxe o pole portátil?
- Que isso, Cidinha?! – encabula-se Clarício - A hora de trabalho é sagrada.
- Sagrada?! Já fez lá em casa, esqueceu?
- Ok, só um passinho – tira da caixa de ferramentas um cano de metal portátil e dirige-se até a sala.
- Ei, termina o serviço antes – ordena Enzo, antes de ter a boca tapada por Cidinha.

O pole dancer aciona o cano portátil, que cresce de tamanho.

- Você leva essa porra de cano portátil pra todo lugar? 
- Sim, senhor. Inclusive outro dia usei pra salvar um pugzinho que caiu no bueiro.
- Olhaí, o Clá é um herói – derrete-se Cidinha. 

Clarício passa cola na extremidade do cano e o fixa ao chão. Em seguida dá play em uma música do Jamiroquai em seu celular.

- Ele passou cola? Vai foder meu piso.
- Relaxa, depois a gente limpa – tranquliza Cidinha, causando desconfiança em Enzo.
- Sei. Queria um bueiro igual ao do pugzinho pra não ter que ouvir essa músi… o que é isso? – espanta-se ao ver Clarício livrar-se de uma vez só dos trajes, ficar de sunga e pendurar-se no cano.
- É velcro - explica Cidinha - Legal, né?! 
- E tá besuntado! Como esse cara faz isso? Já acorda assim?
- Ele é pole dancer. Deve ter um verniz natural.
- Essa música alta vai perturbar os vizinhos.
- Ai, Enzinho, vai tomar seu floral, vai – recomenda Cidinha, sem deixar de aplaudir e dançar ao ritmo da música.

Um rosto curioso surge por trás da porta entreaberta. É o zelador do prédio, acompanhado de outro homem, de macacão, carregando um botijão de gás.

- Seu Enzo, desculpa entrar assim. Acho que o senhor não ouviu o interfone, por causa da música, então o rapaz tocou no meu – olha para o sujeito pendurado no cano – Este aí não é o…?
- Vai falar que também conhece a peça? – irrita-se Enzo.

O homem do gás espicha a cabeça da cozinha, onde instala o botijão, e se mete na conversa.

- Esse aí é o cara da TV? – grita, para ser escutado.
- Ele foi no Otávio Mesquita - revela o zelador - O cabra tá de parabéns.
- Isso não tá acontecendo.
- Enzo, o Clarício é energia pura, é vida! Você tinha que se inspirar no exemplo dele – empolga-se Cidinha.
- Que exemplo?
- Ele se vira pra cuidar do filho deficiente – intromete-se novamente o homem do gás.

Leves batidas na porta. Outra pessoa se anuncia, para desespero do anfitrião involuntário.

- Seu Benito! Me desculpa pela música alta – vira-se furioso para Cidinha e cia – Olhaí, vocês conseguiram trazer o síndico até minha casa.
- Fica tranquilo, seu Enzo. Sou só o humilde enviado de umas senhoras que estão lá embaixo, na portaria – anuncia o senhor de bigode.
- Como assim?
- Elas souberam que tem celebridade no prédio e pediram pro senhor Clarício se apresentar lá no playground, se não for incômodo, claro.

Após um ultimo rodopio de ponta cabeça, Clarício cai de pé como um legítimo ginasta olímpico. Quase todos aplaudem.

- Mas tem que rolar um cachezinho, seu Benito! – intervém Cidinha - O Clá tá no horário de trabalho dele.
- Inclusive meu banheiro tá esperando.
- Acho que elas não vão negar uma contribuição.

Clarício descola o pole com uma flanela embebida em um produto químico estranho, pega a caixa de ferramentas e desce sem titubear. A pequena plateia o acompanha em júbilo. 

- E o meu chuveiro?
- Banho frio faz bem pra seborreia – debocha Cidinha, antes de fechar a porta do elevador.  


Enzo encara o tufo de pentelhos no chão do banheiro, refletindo sobre a própria inaptidão.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Você me decepcionou favoravelmente


- Me excluiu?
- Sim, geral tá assumindo um lado. E o meu, definitivamente, não é o seu.
- Como assim? Eu não curto Bolsonaro e essas merdas.
- Mas passou o dia postando fotos de indoor sky diving
- Você manja?
- Sei o nome porque pesquisei.
- E?
- Não tô interessado no seu hobby escroto. A pauta hoje é outra.
- Hahahaha... meu, você não imagina como é animal!
- Pelo menos pula de paraquedas de verdade, caralho. Não fica aí nessa punhetinha aérea, pedindo aplauso. Isso equivale a bicicleta de rodinhas.
- Vou pular em breve. Tava me preparando.
- Também excluí os paraquedistas.
- E os fãs do Bolsonaro?
- Não tinha nenhum.
- E por isso veio implicar comigo.
- O Brasil caindo e você pulando em tubinho de ar, mostrando linguinha, fazendo hang loose. Você me deprime.
- É pessoal, né babaca?!
- Não, também excluí três celíacos e dois veganos que pagam de virtuosos da alimentação.
- Você é um infeliz.
- Te dei uma chance. Achei que hoje viria seu post engajado. Não veio, tchau.
- Quer saber?! Exclui. Pode excluir! Mas vou te dar um motivo de verdade.
- Nem precisa.
- Sabe a Isabela, sua antiga namorada? Comia sempre.
- Pode comer, uai.
- Comia enquanto ela estava com você.
- Mentira.
- Sempre quando você ia à manifestação.
- Meu feeling tava certo.
- Não fode! Você nem desconfiava.
- Você é um conspirador que caga pra qualquer tipo de aliança.
- Hahaha… gozei no tubinho de ar dela.
- Tubinho de ar?
- No cu, Vítor.
- Ah, era pra ser uma piada?
- Não curtiu? Que pena.
- Olhaí… tu é um misógino que trai a confiança de uma mulher.
- Não sou eu que tenho problema.
- Rapaz, você pode até ter comido minha namorada, mas sabe o que eu fiz?
- Não me interessa.
Base jumping.
- Duvido.
- Não sou homem de ficar pulando em tubinho de vento não, porra!
- Cadê foto?
- Só carentão precisa postar fotinho.
- Queria te ver com aquela roupa de esquilinho voador ridícula.
- Tem vários programas sobre base jumping no canal Off. Não me lembro de ter visto algum sobre tubinho de vento.
- Você blefa.
- E você não é tão idiota quanto eu pensava.
- Vindo de um corno ressentido, tomarei como elogio.
- É sério, você me decepcionou favoravelmente.
- O que isso significa?
- Que vai continuar excluído.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Fungos emocionais


Londres, 30 de janeiro de 1969

Stu ergue-se na ponta dos pés para tentar localizar alguém em meio ao movimento anormal da rua Savile Row.

- Nicky, aqui! – identifica a moça de casaco pesado que se acotovela entre transeuntes e curiosos.
- Sem beijinho - evita o cumprimento do rapaz - Pode ir falando.
- Vamos subir.
- Por que essa galera aqui na porta? Eles estão aí? – arregala os olhos – Stu, eles estão?
- Você vai ter que merecer essa informação – ri para a moça, sem ser correspondido.
- Sai, groupie suja! – Nicky afasta uma menina de poncho que obstrui a porta do prédio.

Stu puxa Nicky pra dentro do famoso edifício da Apple Records. Abre a porta do elevador e sinaliza para ela entrar.

- Me conta o que tá rolando, Stu! Você disse que tinha a ver com eles. 
- Calma – aperta um botão e se mantém de costas.

Pouco depois o elevador enguiça entre dois andares.

- Ué, parou?
- Parece que sim.
- Por isso que eu não entro em elevador sem ascensorista.
- Nicky, eu vou ser bem direto: tenho sentido coisas estranhas, não vou suportar essa nossa situação.
- Que situação? Faz essa merda funcionar, tenho claustrofobia.
- Eu tenho uma surpresa pra você, mas antes quero me certificar de que tudo vai voltar a ser como antes.
- Como antes? A gente terminou, esqueceu?
- Você terminou. Eu ando doente, arrasado, sem saber o que houve.
- Não fode! Aconteceu que você é um ciumento psicótico que desconfia até do meu pôster do Ringo.
- O Ringo é a ponta do iceberg. Você vive na cola de tudo quanto é roqueiro piolhento desta ilha.
- Começou, né?! Depois pergunta por que foi chutado.
- Groupie do Ringo, como pode? – pergunta-se baixinho.
- Groupie é a sua mãe!
- Você quer que eu morra?
- Seu problema é mental, não físico. – empurra o rapaz e aperta o alarme.
- Ninguém vai aparecer. Tá todo mundo no terraço.
- O que tá acontecendo, afinal?
- Eu te digo: minha imunidade baixou e eu contraí fungos no pé. O médico disse que é depressão – começa a desamarrar os tênis.
- Fungos emocionais? Conte-me mais.
- Começou aqui na sola e agora tá chegando à planta do pé – exibe um dos pés descalços - Não imagina como isso dói. Pelo menos alivia a dor do coração.
- Se é o melhor que pode fazer pra me comover, já era.
- A tristeza é feia, Nicky.
- E também fede!
- Não é o único sintoma. Também tenho furúnculos no quadril e ouvidos entupidos, mal escuto.
- Deve ser a natação.
- Meu ouvido fabrica mais cera quando fico angustiado.
- A sua hipocondria não tem limites.
- Não é psicológico. Tô mostrando os efeitos no meu corpo.                                                      
- Foda-se com as suas ecas.
- Nicky, minha carcaça tá literalmente apodrecendo. Não posso viver assim.              
- Surreal! Você não quer reatar porque se arrepende, ou coisa do tipo, mas por estar coberto de bolor.                                                           
- Meu antídoto é você.
- Chega, maluco, vou gritar.

Stu a segura pelo braço.

- Por que o Ringo? 
- Ai, Deus! Porque ele não é estrelinha. Por isso. 
- Você que pensa.
- Além do mais, todos têm um beatle preferido.
- Eu não tenho.
- Tem sim, é o tal do Martin.
- George Martin.
- Ter o produtor como beatle favorito diz muito sobre seu caráter.
- Ele é gênio, é o meu guru.
- Guru de quê? Você é só um auxiliar de técnico de som.
- Mas é graças ao meu emprego que você tá aqui dentro.
- Presa no elevador? Ainda não vi vantagem alguma.
- Se não fosse tão teimosa…
- Peraí! Você parou o elevador de propósito?

Stu se cala, um tanto corado, enquanto Nicky se distrai com algum som externo.

- Tá ouvindo isso? – ilumina-se, tremendo de emoção.
- O quê?
Don`t let me down - aperta o braço do ex.
- Não é minha intenção.
- É a música, idiota.
- Ah sim.
- Stu, eles estão tocando em algum lugar do prédio!

Nicky pega Stu pelos ombros e o chacoalha.

- Você tem que me levar lá!
- A ideia era essa, mas antes você tinha que me perd… - é interrompido por uma nova chacoalhada.
- Faz essa porra funcionar!

Stu aperta botões, mexe na grade da porta, mas nada.

- Com esse macete era pra funcionar.
- Get Back! Get Back!
- Não adianta.
- É a música, porra!
- Deve ter enguiçado de verdade, desculpe.
- Eu não acredito! – escorre pela parede até o chão, dramática.
- Calma – tenta afagá-la.
- Não chega perto de mim – reage, abatida.
- Isso aqui tá me lembrando a situação do fab four – pronuncia fab four com ironia explícita.
- Por quê? – Nicky parece a beira das lágrimas - O que eles tem a ver com essa doença que a gente vive?
- Eles também estão doentes, Nicky.
- Eu só tô nessa merda de elevador por causa deles.
- E eu tô aqui por sua causa.
- Você me enganou.
- Pra mim a causa era justa.
- Pois é, somos dois interesseiros.
- Feito o John e o Paul. Entendeu?
- Do que você tá falando, seu lunático?
- Eles só estão nessa por causa da grana. A casa caiu faz tempo.
- Não fala bobagem, essa parceria é pra sempre.
- Também achei que a nossa fosse. Agora a gente tá aqui assim, unidos pelo interesse. O elevador é o nosso Fab Four.
- Nossa, que inteligente sua analogia – desdenha.
- O tempo me dará razão, mesmo se eu já estiver morto.
- A diferença é que os Beatles estão presos em um sonho bom, enquanto eu tô presa em um conto mal escrito.
O pesadelo deles é estarem juntos.
Para de falar isso, por favor, ou meu mundo vai deixar de fazer sentido.
- Ok, então não falo.

Após vinte torturantes minutos aprisionados no que Stu, em momento de perspicácia duvidosa, definiu com “submarino de mágoa”, sons de engrenagens e cordas pouco lubrificadas trazem alívio. O elevador ruma para o ultimo andar.

- Tá subindo! Tá subindo! – Nicky vibra
- Até que enfim! Nunca uma viagem de elevador durou tanto.

Nicky cantarola The long and winding road e os dois riem. Por um momento dividem uma expectativa boa. O elevador chega, finalmente.

- E agora, como faz pra chegar ao terraço? - pergunta Nicky, sem conter a ansiedade.
- Tem que subir a escada e…
- Ok, eu acho! – abre a grade do elevador com vitalidade, mas é inesperadamente barrada por alguém.
- Vai aonde, moça? – pergunta o sujeito fardado – Senhor, achei quem tava impedindo o acesso.

Um policial mais velho se aproxima sacudindo a cabeça com ar de reprovação.

- O senhor pode nos dar licença? - pede Nicky - Temos autorização pra subir. Ele trabalha aqui – aponta para Stu.
- Vocês descem com a gente - conduz os dois de volta para o elevador.
- Descer? Por quê?
- Tentar barrar a justiça é crime, moça.
- Como assim barrar, seu policial? – pergunta Stu, timidamente.
- Acha que é mole subir esses andares todos de escada?
- Ninguém é preso por ficar em elevador enguiçado.
- Não é prisão, rapaz. Por enquanto só vão nos explicar umas coisinhas.
- Mas os Beatles estão lá no terraço. Não faz isso com a gente! – implora Nicky.
- Estavam. Já mandamos parar.
- Stu, pelo amor de Deus – choraminga – quero vê-los.
- Acho que não vamos ter outra chance.
- Eles vão acabar mesmo? – aterroriza-se Nicky, indo da desilusão à ira em um segundo  – Eu vou pegar aquela japa de porrada!
- Calma, moça. Você não tá em posição de ameaçar ninguém – intervém o policial velho.
- Seu covarde! Vai lá prender o Lennon. Quero ver!
- É o que eles querem – responde o policial - Não vou dar esse gostinho.
- Nicky – susurra para a ex-namorada - Vai me dar outra chance?
- Stu, a gente tá sendo preso, percebeu? Olha o embaraço.

A porta se abre e os dois são escoltados em meio a uma pequena multidão. Ao ver um dos policiais se distanciar com Nicky, Stu grita, quase em pânico:

- Ei, nao pode me dizer?
- O sonho acabou! – grita de volta.

Os dois são colocados em viaturas separadas.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cu

- Cissa, sobre ontem a noite, eu…
- Gostou, né?! - sorri sem graça enquanto coloca o sutiã.
- Não é isso que eu ia dizer.
- Não? Que pena.
- A gente não vai voltar, foi uma recaída. Nunca tínhamos feito aquilo, mas ainda assim eu…
- Ainda assim o quê?
- Não vamos voltar a namorar.
- Quem foi que falou isso?
- Você tava bêbada, parecia bem frágil. Só quis te tirar daquele bar, te consolar.
- Sei, e aí aproveitou o embalo pra comer meu cu.
- Peraí, foi você que ofereceu.
- Era um teste.
- Cissa, sei bem o que você queria…
- Queria ver se o seu oportunismo te ajudaria dessa vez.
- Oportunismo? Você usou o seu… usou essa tática aí pra conseguir…
- Na sua cabeça eu usei meu cu pra te segurar?
- Não?
- Ah, agora meu cu virou super trunfo? - veste a calça de moletom - Acha que eu preciso disso?
- Precisar não precisa, mas usou o ânus como carta coringa sim.
- Quanta pretensão!
- Não tem problema. Fica entre nós.
- Cara, quer saber mesmo o que eu queria? - começa a se exaltar - Quer?
- Na verdade não.
- Pois eu digo mesmo assim: queria dar o cu! - grita, fazendo Caio estremecer.
- Ah, não me diga?! Isso esclarece tudo.
- Mas NÃO pra te segurar, querido, e sim porque gosto de sentir prazer.
- Claro, claro - balança a cabeça, condescendente.
- E por gostar de sentir prazer, quis te dar a última chance de me proporcionar algum.
- Última chance? Ah, agora vai cuspir no prato que comeu?!
- Sim. Até gostava de você, mas vivia frustrada.
- Então espero que tenha aproveitado ontem, porque não vai rolar mais.
- Hahaha… pois apenas constatei o óbvio: você não sabe comer cu, Caio.
- Não faço isso sempre, mas não significa que…
- Significa sim. Todo sem jeito, afobado, como se estivesse em vaga proibida com pisca alerta ligado, nem uma maldita cuspidinha; se eu não tivesse tanta paciência, teria te mandado ir dormir na sala.
- Dormir na sala? Sua bipolar, psicótica dos infernos!
- Ihh, desceu a ladeira…
- Você me persegue desde o fim da relação!
- Sou carente sim. Mas esse teste foi bom pra eu me desiludir de vez.
- Acabei com minha noite pra vir cair nessa arapuca e agora vem me esculachar?
- Ué, quer que eu minta? Você no papai e mamãe vá lá, mas pra sodomia pesada ainda é mirim, fazer o quê?!
- Recalcada!
- Quem tá agindo com recalque? - assume postura bem resolvida, quase robótica - Tem que aceitar crítica, amor.
- Nosso término te deixou amarga.
- Caio, você não gosta de variar. Que mal há nisso? Tem 24 anos, vai evoluir.
- Acho anal hipervalorizado sim, porém não significa que não goste.
- Sei, agora praticar com a namorada que é bom, nada, né?!
- Não achei que a EX-NAMORADA gostasse.
- Xô te explicar: a mina que disser que não gosta tá mentindo.
- E se eu não quisesse? - desafia - Acha seu cu tão irresistível assim?
-Acho. E também acho você incompetente. Quem negligencia sexo anal é incompetente sim!
- Negligencia? Você nunca me deu chance!
- Caio - fecha os olhos, dramática - eu tô lá toda molhada, pensando no beijo grego, enquanto você ainda tá na mordidinha na orelha. Tem que se ligar!
- Beijo grego?
- Aí, tá vendo? Manja nada de cu - pega no ombro do rapaz - E fio terra, conhece?
- Esse eu conheço.
- Claro.
- Que risadinha foi essa?
- Vai buscar conhecimento e não me amola mais.
- Então é assim? Vamos generalizar os costumes sexuais da humanidade. É a ditadura do cu!
- Isso aí! Geral cultua o cu. Menos você.
- Era só me dizer que gostava… - balbucia, inconformado.
- Cadê feeling, querido? - levanta-se e entreabre a porta do quarto.
- Vai aonde?
- Duda! - grita para a irmã.
- Cissa, eu tô pelado aqui - Caio corre para se cobrir.
- Quié? - grita de volta a irmã, de algum ponto da casa.
- Curte dar o cu? - questiona Cissa, deixando o ex-namorado perplexo.
- Claro, por quê? - responde a irmã, sem pensar muito.
- Pergunta pra Clarinha aí.
- Perguntar o quê?
- Se ela também curte dar o cu.
- Mas a Clarinha tem dezesseis anos - susurra Caio, quase tendo um derrame.
- Pffff - bufa para o ex - Pergunta aí, Duda!
- Falou que não gosta - Caio parece aliviado com a resposta - ama!

As irmãs riem juntas. Enrolado no edredom, encolhido na cama, sentindo os pilares de sua masculinidade rachando, Caio enxerga algo de diabólico na cena toda.

- Agora vamos perguntar pra mamãe - provoca Cissa, produzindo ainda mais risadas no quarto ao lado.
- Ok, chegamos ao limite - o rapaz começa a se vestir apressadamente.
- Relaxa aí e se liga no poeminha que eu fiz pra você: cu não é areia movediça, não prende ninguém. Caio, você tá livre, e eu também - sorri meiga -  Curtiu?
- Você sempre foi boa de improviso.
- Já você, nem tanto.
- Não queria mesmo voltar?
- Você é complicado demais. Precisa superar essa repulsa anal.
- Vamos conversar.
- Tolinho. O jogo virou - coloca a blusa e sai do quarto.

Caio e sua auto-estima descem as escadas. Detém-se ao ver mãe e filhas tomando café da manhã na mesa da sala. Parecem nem notá-lo. Ele se esgueira até a porta da rua.

- Ei, Caio! Toma café? - oferece a mãe.
- Obrigado, Dona Vitória! Tenho que ir - destranca a porta - Não precisa se levantar.
- Tchau, meu filho. Espero que você supere.
- Eu não tenho nenhuma repulsa anal pra superar, Dona Vitória - irrita-se.
- Supere o fim do namoro, Caio - corrige a mãe.


Caio bate a porta e Dona Vitória fica sem entender o alvoroço das filhas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Massagem tântrica


- Não goza! Não goza!
- …
- Droga, perdi mais um paciente.
- Eu morri?
- Pedi pra não gozar, cara. Olha aí – consulta o relógio – nem três minutos de sessão.
- Desculpa, você foi muito… eficiente.
- Tá louco? Sabe onde você tá? Massagem tântrica é pra reter energia. Não pra… aff, sujou até o teto.
- Você me estimulou, ué. Queria o quê?
- Estimulei? Mano, eu toquei suas têmporas e seu joelho. Quantas zonas
erógenas você tem, afinal?

O rapaz senta na maca, ainda com aspecto relaxado, tentando recuperar a lucidez.

- Quanto tempo trabalha nisso? – puxa conversa.
- Sou iniciante. Terminei meu curso há dois meses.
- Logo vi.
- Era pra durar uma hora, mas você… sei lá, você é bem apressado
também, né?
- Eu? – indigna-se, obscurecendo o jeitão relaxado – moça, eu sou rápido
mesmo. Muito rápido! E é por isso que eu vim aqui.
- Ejaculação precoce?
- É.
- Eu tinha que colocar uma placa lá na porta, proibindo ejaculador precoce de entrar.
- Mas eu vim pra me tratar. 
- Olha, pode pagar só metade, tá?
- Minha namorada ainda tá na sessão aí ao lado.
- Daqui uma horinha ela sai.
- Você é bem arrogante pra quem faz um serviço tão porco.
- Porco é você. Melou até a ficha de inscrição.
- Tem nojinho? Tá no ramo errado.
- Amigo, isso aqui é uma filosofia, um método milenar, e não putaria.
- Sei, mas você andou fugindo das aulas, né?! Foi curso online?
- Foi no SENAC.
- Talvez precise de uma pós.
- Ganho 500 paus por sessão. Tô nem aí pra insinuações.
- Mas comigo você não fez valer.
- Eu tenho uma técnica mais extrema de cura pra essas horas.
- O que você vai…?

A massagista começa a arrancar do rosto uma fina película de borracha, que dava forma aos seu finos traços. Por baixo da máscara surge uma face tão conhecida quanto inusitada.

- Você é o… não pode ser.
- Achei que não fosse me reconhecer. Não notou nem minha voz?
- Olha, se você é mesmo o Gugu Liberato, devo te dizer que sua voz
não é das mais masculinas.
- E como se sente sabendo que o Gugu, o apresentador que você via no Viva a Noite quando criança, te levou ao orgasmo?

A indagação faz o rapaz estremecer.

- Aqui na clínica usamos todos os métodos, inclusive o trauma psicológico. Pode acreditar, daqui pra frente, nada de ejaculação precoce na sua vida. Aliás, nada de ejaculação de nenhum tipo – solta sua gargalhada característica de Gugu, iniciando a dança do passarinho.

Bailarinas e um homem fantasiado de pênis amarelo entram no consultório e colocam-se a dançar, atordoando ainda mais o rapaz.

- Mas que porra é essa? Tem alguma câmera filmando isso? – inquieta-se.

Gugu e seus dançarinos continuam a performance, cantando Meu Pintinho Amarelinho sem se abalarem, enquanto o rapaz foge, gritando pela namorada pelos corredores da clínica:

- Vânia! Vânia, cadê você?

Ele soca a porta do consultório onde a mulher é massageada. Nada acontece, até que alguém toca em seu ombro, fazendo-lhe despertar.

- Amor, acorda!
- Vamo embora daqui!
- Embora de onde, Vitor? Cê tá na sua cama, foi só um sonho ruim.
- Horroroso!
- De novo com o Gugu?
- Por que esse maldito tomou conta do meu subconsciente?!
- Vai saber - diverte-se Vânia -  Pelo menos ele tem te dado uns toques, não?
- Tenho até vergonha de contar isso na análise.
- Uhm… e qual foi a mensagem edificante dessa vez?
- Ele…
- Diga.
- Vamos tocar aquele tratamento, o da ejaculação – constrange-se.
- Santo Gugu! – comemora Vânia – Vou mandar flores para a… qual é
mesmo o canal dele?
- Eu mereço.