quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Estação Perus


No interior do trem, Luana liga a câmera e aponta para Delfino:

- O que você pretende com essa sua jornada?
- Limpar meu nome.
- E o que significa limpar seu nome?
- Rabiscar ele da parede da estação Perus.

Impaciente, Luana desliga a câmera.

- Del, o documentário é sobre a sua jornada de desconstrução. Dá pra ser menos literal?
- Desconstruir o quê? Eu não sou esse babaca que você imagina.
- Então por que te sacanearam assim?
- Sei lá, ainda acho que foi um engano.
- Conta do começo aí, vacilão - liga a câmera - por que tá despencando lá de Pinheiros até Perus, extremo da ZN?
- Começou quando, do nada, uns caras que eu não conheço começaram a invadir meu whats.
- O que eles queriam?
- Puxar papo. Ignorei até certo limite. Quando um cara perguntou se eu era "ativo", quis saber onde tinha arrumado meu número. 
- E aí?
- Perguntei com jeito pra não afugentar. O cara riu, fez joguinho, falou que tinha pegado o número onde eu tinha deixado. Aí insisti e ele abriu o jogo.
- O que ele disse?
- Que tinha visto no Trem de Perus. Achei que fosse algum aplicativo gay.
- Trem de Perus, um aplicativo gay? - desliga a câmera às gargalhadas - com esse nome, só se for de gays mineiros, né?!
- Sei lá, não conhecia o bairro.
- E o que tá escrito lá na estação? – religa a câmera.
- “Moro perto”.
- O que achou da mensagem?
- Sagaz, porque é discreta. Parece de alguém que quer mesmo sacanagem. Logo, deve ser de mulher.
- Como um homem escreveria pra sacanear o outro?
- Com grosseria. Colocaria o tamanho pau, essas coisas.
- Resumindo: você acha que alguma mulher quis te foder colocando seu número lá pra te inundar de mensagens de machos.
- Não é bem isso.
- Sim, porque só macho pra se excitar com anúncio de sexo na parede de estação.
- Olha, eu acho que alguém errou o número, só isso.
- Como é sua vida sexual?
- Você tá tentando provar que eu mereci, é? Tô percebendo a manipulação.
- Só tô investigando. Pelo que eu conheço de você, não estranharia se fosse vingança.
- Lu, seu doc tá com um tom passivo agressivo, ou tô enganado?
- Chegamos, vai lá procurar seu nome enquanto eu te sigo.

20 minutos depois, diante de uma parede coberta de mensagens, anúncios, desenhos e pixos:

- Achei, Lu. Nossa!
- O quê? Nossa, quantos!
- Eu não vou conseguir apagar tantos números. A pessoa quis me foder de verdade.
- Toma o pincel. Vai que eu vou filmar.
- Ei – intervém um funcionário da CPTM – tá desenhando na parede?
- Não, tô apagando os anúncios que fizeram com meu número.
- Rapaz, pode apagar nada não. Só escrever. Essa parede é nosso muro vivo. É cultura de periferia em ebulição.
- Amigo, você não entendeu. Me sacanearam, colocaram meu número aqui.
- Olha quantos profissionais do sexo anunciam aí. Ninguém liga, porque se tornou arte.
- Porra nenhuma, olha o monte de arrombado que me chamou pelo whats.
- Calma, Del – contém o amigo - Senhor, podemos rabiscar só um dos números da sequência? Assim ninguém reconhece o celular dele.
- Lamento. Nesta estação a gente preserva a intervenção artística. Desenha alguma coisa aí, mas respeita a arte alheia.
- Já sei! Del, faz seu manifesto, diz que você foi machista e por isso foi sacaneado. Faz sua mea-culpa, aproveita a oportunidade.
- Mea-culpa de quê? Eu fui chutado pelas minhas quatro últimas ex, sendo que duas me chifraram. 
- É isso ou vamo embora.

Após 15 minutos, sob olhar atento do ferroviário entusiasta das artes, Delfino finaliza seu texto na parede.

- Lê pra gente, Del.
- “Não sou michê. Meu número (987047689) foi escrito neste mural para me punir por suposta conduta inadequada. Peço desculpas a quem possa ter se ofendido. Isso não é nada comparado à violência diária enfrentada pelas mulheres, mas aceito este pequeno castigo e me esforçarei para ser um homem melhor.” Gravou?
- Gravei, seu feministinho de merda. Quer biscoito?
- Chega, vou pedir um Uber.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Filme europeu



- Começa assim: de um rochedo, Tristan contempla as águas cinzentas de uma praia uruguaia...
- Vai direto ao ponto.
- Calma. Então... aí ele mergulha, nada um pouco, como se tentasse fugir dos problemas...
- Se limita à ação.
- Porra, é um filme de arte. Se eu relatar só a ação vai ficar banal.
- Deixa que eu imagine, uai.
- Voltando: aí Tristan sai da água e fica chocado com o que vê na areia. Se aproxima. É um leão marinho agonizante.
- Uau, tem impacto, hein?!
- Sim. Tristan sente um misto de horror e piedade vendo aquela vida primitiva se esvair em um urro.
- Catarse!
- Não, é uma epifania.
- E depois?
- Ele fica nu.
- Faz sentido.
- Sim, aí caminha um pouco. Muito vento, um farol, sons de pelicanos.
- E?
- Ele avista Sven, um sueco pelado.
- Também pelado?
- Isso. Aí Tristan sente uma paz interior.
- Ao contemplar a rôla sueca?
- Não interrompe.
- Desculpa.
- Tristan se senta ao lado de Sven e eles ficam ali calados por uns 7 minutos.
- Consigo sentir o entrelaçamento das almas.
- Não era isso que eu queria transmitir nesse quadro.
- Tá, foda-se, continua.
- Tristan rompe o silêncio dizendo que um barqueiro contou pra ele que aquela região tinha sido um cemitério há muito tempo.
- Será que essa é uma fala boa pra romper o silêncio?
- Sven responde: el mundo es um gran cementerio.
- Uhhh... muito bom. Mas só o Sven fala em espanhol?
- Os dois falam, só quis dar ênfase à fala do sueco.
- Conseguiu. Parabéns.
- Depois eles transam em uma pedra. E basicamente é isso.
- Gosto. Prevejo Palma de Ouro.
- Pretendo ficar pelo circuito independente.
- Parece filme do Julio Medén.
- Quem?
- O que fez Lucía e o Sexo.
- Não conheço.
- Os Amantes do Círculo Polar, não lembra? Usava um DVD desse filme para comer universitárias nos anos 90.
- Você tá comparando meu roteiro com seus pretextos pra foda?
- Bom, voltando ao seu roteiro: o que você acha do Mateus Nachtergaele como barqueiro?
- Pode ser.
- E Tristan e Sven?
- Pensei no Benicio Del Toro como Tristan e Ricardo Darín como Sven.
- Ricardo Darin vai ser o sueco?
- É disruptivo. Um desafio maravilhoso. Ele vai topar.
- Achei muito mainstream. Vai ter dinheiro pra contratar?
- Carlito, é uma produção independente hispano-franco-sueca que se passa no Uruguai por falta de praia melhor. Qualquer ator consagrado vai amar. Cachê simbólico, lógico.
- Entendi. Por que vocês não tentam o Ryan Gosling como Tristan? Benicio é meio velho.
- Vou propor.
- Posso fazer a trilha?
- Você? Desculpa, é que pensei numa trilha mais almodovariana. Uns bolero, sei lá.
- MInha visão sobre sua película é diferente.
- No que pensou?
- Tenho uma referência aqui pra você.

Assistem um vídeo do Youtube por 2 minutos.

- Carlito, é só um bêbado ridículo tentando pular uma grade.
- Sente a atmosfera. Ouve esse piano.
- Porra, o pianinho é de zuêra.
- Mas conseguiu o efeito. Tem lirismo. É o palhaço melancólico. Vejo Chaplin. Vejo Peter Sellers em Muito Além do Jardim.
- Você quer comparar o @guerreirinho95 com o Hal Ashby?
- Amanda, não seja esnobe. Esses são os verdadeiros artistas contemporâneos.
- Vê se aterrissa, Carlito. Você delira demais.
- Eu?
- Adeus. Abre a porta pra mim.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Chupe sua mina



- Minha vó tá sendo atacada por haters do Twitter.
- A dona Conceição usa o Twitter?
- Eu fiz pra ela.
- Pra quê?
- Pra ela interagir, uai.
- E quem atacaria aquele doce de pessoa?
- Então, a culpa é um pouco minha, porque eu fiz uns tweets pra ela que viralizaram.
- Você fez um fake da sua avó, Cami?
- Descobriram nossos celulares e o nosso endereço, agora fudeu.
- O que você tweetou?
- Chupe sua mina.
- Só isso?
- Me empolguei e depois escrevi “Sou maconheira feminista e não passo beck pra machista.”
- Que original.
- Ai, eu sei. Tô nervosa, não me julga.
- Isso aí no twitter equivale a xingar Maomé em Meca. Mas passa.
- Mais ou menos. Rolou uma divisão.
- Problematizaram a velha?
- É. Primeiro a esquerda printou e saiu compartilhando, tipo: olha que bonitinha a idosa progressista. Aí rolou stress do outro lado, nazi ameaçando minha avó e o caralho.
- Tadinha.
- Aí fiz outro tweet para dizer que foi minha neta a autora, ou melhor, que tinha sido eu.
- Acalmou?
- Nada. O Kim Kataguiri fez textão para dizer que a feministinha aqui usa a própria avó, que isso é nojento, enfim, fez um puta auê e expôs meu perfil.
- Esse bosta reclamando de mensagem fake?
- Olha a audácia do filho da puta! Só que teve cem mil compartilhamentos.
- Ignora os bolsominions.  
- Aí não me segurei e defendi a minha neta, ou seja, eu mesma, pelo perfil da vovó. Já tinha limpado a barra da véia e agora tão chamando ela de marxista de novo.
- Apaga essa conta, Cami!
- Já apaguei, mas você não sabe o que rolou ontem na feira.
- Na feira?
- Aquele babaca do canal Mamãe Falei foi provocar minha vó e levou com a sombrinha na fuça. Depois postou vídeo pra mostrar a cicatriz. Pesquisa aí.
- Achei. Mamãe Falei versus Dona Conceição. Hahahahahahaha!
- Não ri não porque a gente vem recebendo ameaça pelo celular.
- Troca o número.
- Tô com medo de incendiarem nossa casa. Posso dormir aqui?
- Pode, mas vai deixar a dona Conceição sozinha?
- Despachei e véia pra Holambra e pedi para ela não postar nenhuma selfie com flores.
- Coitada. De que vale visitar Holambra assim?
- Clandestinidade, Aline. Onde eu durmo?



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Broxada


- Uma menina me disse que acha fofo broxar.
- Porque você devia estar broxando na hora, presumo.
- Não, infelizmente. Porque só broxa quem tá em ação, né?!
- É...
- Na verdade, foi a namorada de um amigo, a Nina. Acabou expondo o cara.
- Mas você prefere broxar ou não ter a oportunidade de broxar?
- Eu prefiro broxar.
- Muito bem, cara. Só se vive uma vez.
- Porque mesmo uma broxada pode ser a semente para uma nova oportunidade. E como disse a Nina: broxar é fofo.
- Como foram suas últimas broxadas?
- Na última tive uma boa razão.
- Qual?
- A menina tinha mau hálito.
- Chato isso. E você não tava bêbado ou drogado, imagino.
- Cê viu aquela pesquisa que concluiu que o hálito do brasileiro piorou muito de um ano pra cá?
- Você tem que ler menos o Diário do Centro do Mundo.
- A era Temer produz mais broxadas, é fato. Nem preciso de pesquisa pra concluir.
- Me diz uma coisa...
- Uhm...?!
- Quando foi essa sua última broxada?
- Ontem.
- Entendi. Você acha que foi culpa da era Temer?
- Sim e não. Mau hálito, né?! Que pode ter diversas razões, inclusive políticas.
- Cara, o que tem de fofo nessa situação toda? Broxada é broxada. Desagradável desde a época das cavernas.
- Não tinha broxada naquela época. Tinha só o instinto, que era pegar a fêmea de paulada quando a vontade vinha.
- Ainda assim, nunca vai ser algo edificante.
- Inclusive, evolutivamente, a broxada é a desconstrução total do macho das cavernas. O homem sensível certamente broxa mais.
- Sei. Você quer dizer que as suas broxadas são sintomas de uma era em que a igualdade de gênero é iminente?
- Talvez seja isso sim.
- Seria uma broxada do bem, um ato de solidariedade ou, como disse a tal de Nina, algo fofo.
- Por que não? Um atestado de fragilidade involuntário.
- Porque não é esse tipo de “adesão” à causa que as mulheres querem.
- Se os tempos são de fome, eu passo fome. Se os tempos são de desgraceira mental, eu broxo. Sou um homem do meu tempo.
- Tá ligado que, se essa tal de Nina falou mesmo isso, não foi a sério, certo?!
- Não importa.
- Pedro, isso tudo não seria só contorcionismo retórico pra se consolar de uma noite ruim?
- É e não é. Veja bem...
- Você quer um abraço?
- Podemos tentar fazer...?
- Não.
- Tá, serve o abraço.



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Pelados no parque


Parque do Ibirapuera: duzentas pessoas nuas se reúnem em ato contra os ataques conservadores ao MAM.

- O que é isso na sua barriga?
- Que te interessa, cara? Presta atenção no protesto.
- Parece um…
- É uma pinta. Tá esclarecido?
- Não, não é pinta não – vira-se para o pelado da fila ao lado – Tavares, isso aqui parece uma pinta?
- Eita, é bom se ligar porque pode ser um câncer – opina Tavares.
- Eu nem conheço vocês. Que invasão é essa?
- Desculpa. Eu sou o Vanderlei, ele é o Tavares e isso na sua barriga é um bagulho bem estranho.
- Olha, eu não devia, mas vou explicar: isso é um terceiro mamilo que…
- Ah, eu sabia! Paga a aposta, Dulce – dirige-se à pelada logo atrás.
- Deixa eu ver, deixa eu ver! – ultrapassa Vanderlei, desorganizando a fila – Ai, que exótico!
- Vocês nunca ouviram falar em herança atávica?
- É o quê?
- Meus avós eram primos de primeiro grau. Então rolam pequenas mutações na família. Minha tia, por exemplo, tem seis dedos.
- Ela taí? – empolga-se Dulce.
- Mano, não deixa as criancinhas verem isso – adverte Vanderlei.
- Deixa de ignorância. Isso é herança genética, natural como um corpo nu.
- Porém mais repugnante.
- Teu cu!
- Ih, o três tetas partiu pra ignorância – afasta-se Tavares, chateado.
- Eu tô sendo discriminado em um ato contra a intolerância. Surreal!
- Sossega aí, o cara do autofalante tá apontando pra gente.
- Você aí das três tetas, bora alinhar essa fila – ordena a voz metálica, provocando uma onda de olhares curiosos sobre o mamilo incomum.
- Só no Brasil mesmo - susurra Três Tetas, contrariado.
- Não olha pra mim – defende-se Vanderlei – Essa tua teta pode ser vista até da lua.
- Eu nem gosto de ficar pelado – resmunga Três Tetas - Saí cedo do trabalho porque a causa é justa.
- Pois eu vim porque tenho tesão em ficar pelado. Não notou?
- Notou o quê? Puta que pariu, vira esta vara para lá, olha as crianças!



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Crítica social foda


- Olha isso: “todo dia o governo esporra na nossa cara enquanto permanecemos impassíveis”.
- Que é isso, Mari?
- É o Cauê falando bosta no face logo cedo.
- Tentou fazer uma crítica social foda e ficou cômico.
- Ele se apropriou do abuso do doido do ônibus, o que gozou no pescoço da moça.
- E ficou ridículo demais pra gerar revolta.
- Nem é isso, Flavio. É que essa luta é feminista e ele não pode descontextualizar, pagando de vítima. É oportunismo.
- Até porque, em certos casos, pode ser um ato de amor. Estaríamos estigmatizando quem curte tomar gozada na cara. Não de um estranho no ônibus, claro, mas…
- Já tá falando merda.
- Não tô endossando, Mari, mas o Cauê deveria escrever assim: todo dia o Governo esporra na nossa cara sem consentimento. Só que aí perde o frescor, né?!
- Frescor?
- Sim, fica rebuscado.
- Você já mudou o sentido da discussão completamente. 
- Eu não tenho nada pra falar sobre feminismo.
- Muito menos a me ensinar.
- Sim, tô só refletindo sobre frases revoltadas com temática sexual.
- Ai, como você é pedante.
- Era mais fácil ele ter dito: todo dia o governo coloca na nossa bunda…
- Mas não estaria pagando de antenado com a causa alheia.
- Se você fala: meu chefe não quis pagar minha indenização mas eu botei na bunda dele, você mandou ver.
- Justo, mas se você diz: meu chefe não quis pagar minha indenização mas eu esporrei na cara dele, fica só gay, porque o povo ainda leva de forma literal.
- Sim, vão pensar que você teve um surto psicótico.
- É babaquice heteronormativa, Flávio. Botar na bunda é forte, tipo submeter, já esporrar na cara tá no campo da perversão, é safadeza.
- Se o Cauê passasse um tempo nos Estados Unidos, iria voltar falando: todo dia o Governo nos obriga a beijar seu rabo.
- Não consigo falar nada sério com você, Flávio.
- Sem perceber que lá isso até pode ser uma ofensa, mas aqui talvez soe carinhoso.
- Carinhoso?
- É.
- Pensando bem, prefiro essa metáfora à da ejaculada.
- Cauê tem razão, o Governo anda muito pervertido com o cidadão.
- É, daqui a pouco tá mandando um fist fucking, uma golden shower. E a gente lá, de boca aberta.
- Comenta aí no post do Cauê: todo dia o Governo nos faz um fio terra, apalpa nossa próstata, dá tapão na bunda, goza na cara, vira pro canto, não dá boa noite, nem chama no zap no dia seguinte.
- Hahaha… todo dia o Governo nos sevicia com roupa de vinil e chicote. Melhor assim?
- Besuntando a gente em queijo catupiry e entumescendo nossos mamilos com a língua de um anão.
- Eita! Continua, governão da porra, vai.
- Tá sem limites esse Governo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Lacração


- Aqui é a Agnes em Capri, na Itália, usando calça capri.
- Bacana.
- Olha esta, João, que hilária: ela teve que levar pão francês até a França pra poder fazer a foto, porque lá não tem… haha.
- Hmm.
- Aqui usando bermuda nas Bermudas, comendo bolognesa em Bologna, frankfurters em Frankfurt…
- O nome é salsicha.
- A autêntica. Não é Sadia, não.
- Só pela foto eu não afirmaria.
- Ah, adivinha o conceito desta – aponta para mais uma foto na tela do tablet.
- De camisa da Seleção, lendo um livro e segurando uma panela – coça a cabeça - É na Paulista?
- Em Viena.
- Que extravagante.
- É ela “estudando” a Escola Austríaca na Áustria. Mises, viu a capa? Liberalismo econômico, sacou?
- Então não devia estar de verde e amarelo, porque paneleiro não é chegado em livro.
- Ai, detesto explicar piada.
- Desculpa, Bia, mas esse é o projeto mais ridículo que eu já vi. Ela largou o emprego pra isso?
- Sim, e hitou. 
- Hitou?
- Sim. Já tem gente imitando.
- O povo compra qualquer jequice.
- Você não entende quem larga tudo pelo que ama porque é acomodado.
- Eu? Me mato naquela redação todo dia. Já essa Agnes nunca trabalhou de verdade.
- Como não? Ter ideias não é trabalho?
- Só se não forem cretinas. Olhaí que mau gosto – aponta para mais uma foto - comendo camarões em Camarões, um país pobre.
- Você vive num mundo antigo.
- Pois prefiro.
- Sabe o que você é? Um fóssil cristalizado no âmbar mofado do jornalismo.
- Pisa mais.
- É pro seu bem, miga. Posso continuar?
- Chega desse constrangimento, vai.
- A lacração vem agora. Olha.
- Nossa, quem é esse aí? Não é o Mauricio.
- Pois é, ela deu um french kiss em um estranho em Paris.
- Que sacanagem com o Mau.
- Ela descobriu que tava levando chifre pelo face, aí radicalizou o projeto. Mas mandou as fotos só pro Mau. Aí ele vazou.
 - Caralho. E esta, é ela?
- O cu é dela sim. E o cara é um grego. Beijo grego de um grego na Grécia.
- Tá, não precisa explicar tudo.
- E pra completar: as tetas com essa piroca espanhola no meio.
- Não sabia que ela tinha peito pra uma vingança dessas.
- Teve, literalmente.
- Mostra mais.
- Procura na internet. Chega de expor minha amiga.
- Por que o Mau vazou?
- Vingança da vingança. Ele colocou chifre, ela mandou foto de putaria, ele foi e vazou. Um escroto.
- Já era pros dois, né.
- Nada, a guerra continua.
- Teve mais baixaria?
- Ela pegou um nude antigo dele e pediu pro irmão fazer uma montagem. Agora tem uma foto do Mau com mini piroquinha circulando. Quer ver?
- Pegou pesado.
- O Mau processou o irmão dela. Parece que vai ganhar.
- Vai ter morte nisso aí.
- Vai nada. Tão ganhando dinheiro. A Ag posou pra Trip e agora vai ao programa da Fátima Bernardes.
- E o Mau?
- O Mau foi defendido em post do Eduardo Bolsonaro e no programa do Gentili. Agora tá sendo seguido por mais de dois mil moleques de 15 anos. Sabe o que é isso?
- Misoginia?
- Digital influencer, querido.
- Por causa de uma piroquinha?
- E o bebê dos dois, que nem nasceu, já tem conta no insta com 10 mil seguidores.
- Bebê? Do Mau?
- Claro, de quem mais? A Ag tá com três meses, por isso deu uma pausa na lacração.
- Bia, é muito doente isso tudo.
- Doente é você que vive por fora. Nem parece jornalista.
- Minha editoria é Bem-estar.
- Jamais irá lacrar.
- Eu faço tudo nessa casa. Cozinho, limpo, reciclo, construí os móveis… não te basta?
- Sim, mas cadê seu ibope? Ninguém te lê, ninguém te segue…
- Não preciso ser escroto pra ser notado.
- Se é tão perfeitinho, deveria ao menos se vender melhor.
- Minha virtude não tá a venda.
- João, você podia ser um Rodrigo Hilbert. O meu Rodrigo Hilbert! O da vida real.
- Dá licença, vou tirar o lixo.
- Olhaí, preciso mostrar a joia que você é pro mundo.
- Foto não, Bia, tô de cueca.