segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Repórter da Vice


No apartamento do pai, Cibele mata o tédio com seu smartphone, assim também evita a triste visão do coroa, que costuma andar pelado pela casa, sem cerimônia, exibindo tattoos tribais e uma bolsa escrotal já incapaz de suportar o peso dos anos.

- Vai aonde hoje à noite, filha?
- Ver Rei Leão no teatro. Quer ir, pai?
- Nah…
- Que foi?
- Pensei numa pauta pra me impedir de ir em cana, mas preciso da sua ajuda.
- Como assim “ir em cana”?
- Ué, sem trampo: sem dinheiro. Sem dinheiro: sem pensão. Sem pensão: já viu, né?!
- Vou falar com a mamãe.
- Não, quero você como minha parceira em uma matéria pra Vice.
- Que matéria?
- Sobre virgindade.
- Ah, não começa.
- Nem vai querer ouvir?
- Odeio quando se mete na minha intimidade e mais ainda das matérias que o senhor escreve.
- Filha, larga esse “Eu Esperei pra Dar” de lado e confie no papai.
- É “Eu preferi esperar”, respeite a minha escolha.
- Onde já se viu, uma menina linda, nessa idade, esperar marido pra liberar a pepeka?!
- Ok, pai, terminamos por hoje – levanta-se e pega a bolsa.
- Peraí, mal chegou… senta aí e me ouve!

Mesmo contrariada, Cibele obedece ao pai com disciplina cristã.

- O trabalho jornalístico do seu pai foge de amarras técnicas e políticas, entende? É ir aonde ninguém nunca vai por nojinho, é imersão, jornalismo gonzo, autoral, orgânico, percebe?
- Tá, pai, não sou seu público mesmo – desdenha.
- Busco o novo, não me interessa dar a mesma ração diária aos incautos.
- Já ouvi isso mil vezes.
- Um cara perdendo a virgindade não dá matéria, mas uma menina de boa formação, que caga pra tradições e decide perder o cabaço com um profissional é, sim, um material divino. Divino! – empolga-se com a palavra.
- Vai me vender como prostituta? – dá as costas ao progenitor de forma dramática.
- Eu vou pagar pelo serviço, o que não faz de mim um cafetão.
- Pagar o quê? Pra quem?
- Seguinte: te levo aos michês do centro, até deixo você escolher o mais bonitinho, aí dou uma grana pra ele te iniciar, depois documento tudo.
- Isso é doença.
- Isso é subverter convenções. Que pai faria isso?
- Me pergunto o mesmo.
- E de quebra ainda faço um relato sobre o obscuro mundo dos gigolôs, bem menos glamourizados que as putas e as travas, sabe-se lá o por quê.
- Pai, quero perder com o meu marido.
- Filha, vou ser esculachado de todo jeito pela internet, mas é a melhor maneira de voltar por cima.
- O senhor escutou o que eu falei? Não!
- Tá, prefere continuar tão obtusa e ver seu pai preso?
- Deus me perdoe, mas acho que o senhor merece a cadeia mesmo.
- E só me ver em dias de visita ou indulto de Natal?
- Quem sabe lá o senhor não encontra uma boa pauta? Se for estuprado, pode ter a sua tão valiosa “imersão”.
- Filha, sem ousadia não se sai do lugar.
- Pai, acorda, não sou mais virgem! – grita descontrolada – Agora me deixe em paz.
- Mas… que merda!
- Merda por quê? – enxuga uma lágrima - Não queria isso? Pronto, eu dei.
- Você… você é uma dissimulada, isso sim!
- E o senhor um egoísta! - magoa-se - Quer me vender por uns trocados.
- Sua mãe sabe disso?
- De que importa?
- Peraí, vou ligar pra ela.
- Ah, antes a moralista, a obtusa era eu! Agora caiu sua máscara, né?
- Olha, se você já deu, fica até mais fácil.
- Como assim?
- Você não fez aulas de interpretação?
- Sim, mas…
- E o Preferi Esperar? Não te dá uma carteirinha?
- Tá louco?
- Você se faz de virgem e pronto, o resto é com o michê.
- Meus Deus! Além de depravado o senhor é desonesto!
- E você é uma puta!
- Adeus!

Cibele bate a porta e o pai pega o celular sem qualquer remorso. Do outro lado alguém atende. Vai direto ao ponto:


- Giba, então… ela não topou. Mas tive outra ideia: tô pra ir em cana e…  não interessa, nada grave, me escuta, porra! Acho que de lá posso mandar um material bem revolucionário… Título? Perdi minha virgindade anal na cadeia. Que tal? Acha que essa carcaça murcha ainda aguenta o tranco?… Hahahaha! Fechou!