quarta-feira, 4 de junho de 2014

Tour


- Eu fico realmente espantado com você.
- Por quê? É tão anormal querer conhecer um puteiro?
- É anormal sim, Maíra! Ainda mais comigo, que jamais fui frequentador, conduzindo o seu tour.
- Não frequenta agora. Mas antes de mim…
- Você acha que vai ver o que aí dentro? Não é Moulin Rouge não, é vida real: gente solitária, bunda espinhenta com estria, cheiro de lubrificante vagabundo…
- Deixa eu me decepcionar, Dirceu.
- Eu vou ter que bancar o eunuco, as putas, coitadas, vão se sentir feito bichos de zoológico, os clientes constrangidos com a sua presença… enfim, ninguém se beneficia nessa história.
- A sua precisão me leva a crer que esse ambiente não é tão pouco familiar assim pra você.

Dirceu esquiva-se da insinuação:

-  Uma cerveja e damos no pé, ok?  Tá bom aquele?
-  Não, olha aquela luz verde da fachada, que horror!
-  Qual o problema?
-  Entristece a figura dos seguranças e não estimula em nada a visita.

Após recusar um outro estabelecimento, em função do terno puído do host, Maíra opta pelo Coco Bongo Night Club. Divertira-se com a temática “caribenha kitsch” do lugar.

- Um sex on the beach, moço.
- Maíra, sabe quanto custa drink aqui dentro?
- Permita-se! – desdenha a namorada, lançando um olhar curioso para a pista, ainda pouco movimentada às onze da noite – Vamos dançar?
- Olha ali, não é o…?
- Quem?
- Nada.
- Você viu algum conhecido? Me mostra.
- Não, achei que…
- Dirceu, Dirceu… tá protegendo quem? Fala!
- Achei ter visto o Saulo… mas deixa ele em paz.
- O Saulo? Peraí, que Saulo? O da Gi?
- É… ou melhor, não sei.
- Você é péssimo! – ataca Maíra, cheia de desprezo pela postura hesitante do namorado - Cadê ele?

Os olhos da mulher percorrem a boate, fixando-se sobre uma silhueta masculina parcialmente encoberta por uma coluna.

- Já vi! Vamo lá!
- Aonde? Não, calma…

Na penumbra, o alvo identificado é surpreendido por Maíra com um tapinha nas costas quando conversava com uma mulher de biquini verde abacate:

- Saulinho, é você mesmo!?

Desconcertado, o homem sorri amarelo, parece indeciso entre reagir ou não com bom humor. Dirceu tenta socorrê-lo:

- Grande, Saulo… sempre bem acompanhado – sorri para o amigo, mas desfaz a empolgação ao perceber a feiúra da moça do biquini abacate.
- Moça, a gente queria falar com nosso amigo um instante – corta a onda Maíra -  Obrigada, querida!

Saulo ainda os encara como se fossem fantasmas.

- O que vieram fazer aqui, afinal? – balbucia.
- Certamente não o mesmo que você, né Saulinho?! – debocha Maíra.
- Maíra! – irrita-se Dirceu – Se tem alguém aqui fora do habitat natural, esse alguém é você.
- Aqui dentro a ética é outra – completa Saulo, mais confiante – Então não vem com lição pro meu lado.
- Que bonito! Os dois declarando o puteiro como zona de exceção. Deixa a Gi saber que existe um lugar onde o namorado dela abandona a monogamia.
- Monogamia? – Saulo gargalha – Francamente, Maíra, você mal passou dos trinta, devia ser menos careta. Vou ao banheiro pra não ter que ouvir isso. Vocês me permitem? Com licença!

O casal já não parece tão animado. Apenas observa a alglomeração crescer cada vez mais, enquanto Lady Gaga berra nas caixas de som.

- Nenhuma sem silicone! Vocês gostam mesmo disso, Dirceu?
- Vamos embora?
- O Saulo foi um grosso! Eu não sou nada careta. Sei separar as coisas.
- Ele deve estar estressado, querendo relaxar, e a gente atrapalhando. Vamos embora?
- Não! Se o Saulo precisa se aliviar, vou dar uma força.
- Como assim?
- Posso ajudar a escolher uma profissional boa e bem limpinha. Sou mulher, tenho feeling.
- A troco de quê?
- Ué, mostrar que sou mente aberta.
- Ele não precisa. Já tá desenvolvendo com outra ali no balcão.
- Aquela baranga? Jesus! Vai levar doença pra Gi!

Novamente Saulo tem a conversa interrompida pelo casal. Dessa vez ele reage com mais calma:

- Maíra, não fica preocupada com a Gi, só vim aqui beber.
- Sei. E tá conversando com as meninas pra quê?
- Sou educado. Respondo às abordagens delas.
- Saulo, não precisa bancar o sonso, eu te ajudo a achar uma.
- Ah, claro! Vai fazer a cafetina e depois me entregar.
- Opa! - intromete-se Dirceu.
- Shiu, Dirceu! Se você deixar, não conto pra Gi - promete Maíra - Aperta a minha mão.
- Aperto porra nenhuma, já disse que vim aqui só beber e conversar, aliás...

Saulo tenta retomar a conversa com a puta, mas ela faz uma careta e os abandona, toda rebolativa. Dirceu e Saulo observam a bela bunda se distanciar. Maíra ignora o transe momentâneo dos dois e estica os olhos pela boate em busca de nova companhia para o amigo.

- Aquela ali, Saulo! É perfeita! Vamos chegar nela.
- Como assim “vamos”? Maíra, você tomou ácido? – reage Saulo – Em primeiro lugar ela se veste como uma evangélica…
- Ela tá elegante de vestido, ué! Só porque não usa fio dental? Vocês deviam curtir mais um mistério! Ô falta de imaginação, viu!? 
- Em segundo lugar – retoma Saulo – Eu não preciso da sua ajuda.

O barman, que ouve a conversa enquanto enxuga alguns copos, resolve se meter, mostrando indiscreta intimidade com Saulo:

- Ô Borracha, vai na dica da sua amiga que é sucesso. A Nicole faz um boquete que nenhuma outra mina da casa é capaz de fazer.
- Borracha? – intriga-se Dirceu.
- Até você quer se meter nas minhas fodas, Jurandir? – indigna-se Saulo.

 Maíra não contém a curiosidade:

- Por que borracha?
- É o apelido carinhoso que as meninas deram pra ele. Porque na hora agá – mostra o polegar pra baixo, causando espanto em Maíra e indignação em Saulo.
- Tá louco, Jurandir? Que piada de mau gosto!
- Gente, mas é culpa do pó. Essas coisas acontecem mesmo. Eu tenho um primo…
- Ô Jura, vê se cala essa boca! – ordena Saulo, voltando-se em seguida para os amigos – Deixa eu chegar na rainha do boquete pra ver se vocês me deixam em paz.

Dando o assunto como encerrado, Dirceu insiste para pagarem a conta, porém:

- Calma, agora tá quase no fim. Deixa eu ver como termina.
- Aí já é voyeurismo. Vai querer ir pro quarto com os dois também?
- Porra, mas eles já estão conversando faz tempo. Vocês costumam demorar assim na negociação?
- Bom, depende…
- Ahá! Você se entrega mesmo, hein!?
- Olha lá, estão se distanciando, acho que não vai rolar.

Maíra corre até os dois:

- Oi, prazer, meu nome é Maíra.
- Meu Deus! O que foi agora? – enlouquece Saulo, ao ter a conversa interrompida mais uma vez.
- Vocês estão demorando demais pra decidir. Quero ir embora. Olha lá a cara do Dirceu, coitado.

Saulo suspira, aponta pra puta e, mau-humorado, esclarece:

- Tô negociando o completinho. Mas ela tá cobrando caro.
- Completinho?
- É, Maíra, o cu! Se você convencê-la a fazer mais barato, fecho com ela. Que tal?
- Eu? Tá maluco, Saulinho? Reprovo completamente.

De saco cheio, a puta se encarrega de encerrar o impasse:

- Vem, Borracha, paga quanto quiser, mas para de enrolar – puxa Saulo pela braguilha até os fundos da boate.

À distância, Saulo vira-se para Maíra e sorri. Ela responde com um sinal de positivo pouco convincente. Depois se encaminha para pagar a conta. Já na rua, comenta:


- Vou ligar pra Gi.
- Vai nada!
- Vou sim. Nunca gostei desse Saulo, ainda menos agora ao saber que ele anda comendo cu de puta por aí.
- Mas foi você que armou!
- Me poupa, né!?
- Eu fico realmente espantado com você!

- Para de repetir isso. Shiu, tá chamando…