terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Musas


- Prova estas mini alcachofras.
- Não, obrigada. Miguel, tem certeza que não quer que eu vá embora?
- Por que eu iria querer?
- Sei lá! Sua ex vindo aí, não pode rolar um climão?
- Bia, ela quer falar sobre o Bruninho.
- Não podia usar o celular? Isso me parece mais uma desculpa pra te ver.
- Não começa.

A ex-esposa de Miguel entra no restaurante toda esbaforida, um tanto suada, joga a bolsa sobre a mesa e suspira.

- Ai Miguel, sabe o quanto eu já andei hoje? Você não imagina! – senta-se, tirando uma das sapatilhas – Olha o estado do meu pé.
- Márcia, esta é a...
- Ah, oi amiga do Miguel. Prazer, Márcia. Que negócio é este aqui? – aponta para o prato.
- Mini alcachofras.
- Credo. Bom, não pretendo estragar o almoço de vocês com problema doméstico. Então, se preferir, nos encontramos depois.
- Veio até aqui, agora fala. O que houve com o Bruninho?
- Fez endoscopia hoje.
- Meu Deus! Mas ninguém me avisa de nada?!
- Não precisa bancar o pai zeloso pra sua amiga - alfineta Márcia - Já foi, o estômago dele tá bom, porém...
- Porém o quê? Conta do início.
- Tem a ver com a sua coleção.
- Que coleção? – agita-se na cadeira Miguel.
- A de Playboys. Tem alguma outra que eu não saiba?
- Ahhhh... hehe... Explica isso direito – constrange-se Miguel diante do olhar curioso de Bia – É a coleção de revistas que herdei do meu pai. Fico com pena de jogar fora.
- Não seja por isso. Eu mesma posso jogar. Você nem sentiria falta, deve ter tudo na internet hoje em dia – minimiza Márcia.
- Péra, péra... fala o que isso tem a ver com o Bruninho.
- Pois bem, outro dia achei a bunda da Christiane Torloni amassada no banheiro, como se tivesse sido mastigada e cuspida.
- Que papo surreal é esse?
- Eu logo fui pra cima do Tonico, que já é mais rapazinho, e podia estar fuçando as revistas do pai.
- Não são minhas... - irrita-se Miguel - Tá, vai, continua.
- Enfim, o Tonico jurou não ter rasgado revista nenhuma e acusou o irmão.

Bia não contém a curiosidade:

- Mas quantos anos têm esses meninos, afinal?
- O Tonico tem dez e o Bruninho seis.
- Gente, eu ainda não entendi – impacienta-se Miguel – que diabo a bunda da Chris fazia no banheiro?
- O Bruninho anda comendo suas revistas.
- Como assim?
- Ele recorta as partes mais interessantes, tipo bunda, peito, coxa, etc., e come. Simples assim. E, pelo visto, a da Christiane não caiu muito bem, porque sentiu dor no estômago, vomitou...
- Mas também, né gente?! É quase uma idosa – desvirtua Bia.
- Idosa?! Essa mulher era um furacão - exalta-se - E a revista é de 83, se não me engano.
- Tá bom, desculpa. Você que é velho, Miguel.
- E você é desinformada. Obviamente não viu Um Beijo no Asfalto, ou Rio Babilônia, quando ela era uma ninfetinha linda, contracenando com o...
- Pessoas, vamos voltar ao Bruninho – interrompe Márcia.

Aborrecido, Miguel desvia a atenção para a xícara de café.  

- Miguel, eu queria que você conversasse com ele. Tentasse entender.
- Conversar o quê? É coisa boba de criança, Márcia. Vai passar.
- Vai tirar o corpo fora, claro.
- Tranca o armário, uai.
- Você e suas soluções simples.Vou embora. Mas antes, um aviso: seu filho prefere as revistas dos anos 80.
- Sério?
- As consideradas mais valiosas por você e pelo seu finado pai. Chato, né?!
- Miguel, eu não acredito que você cultiva amor por essas revistas – estranha Bia.
- É bom você tomar uma providência, ou vai esperar ele se intoxicar de verdade? Seu filho já comeu a Maitê Proença, a Monique Evans, a Luiza Brunet, a Lídia Brondi, a Vera Fischer...
- Ah não, a Vera também? 
- Gente, mas o que será que ele viu nessa coroa que nem depila a xana?
- Falou bobagem de novo, Bia - irrita-se Miguel - O primeiro ensaio da Vera foi o momento mais sublime e delicado da história da revista, segundo dizem.
- Dizem, né?! Sei.
- Miguel, não entra em provocação.
- Você duas não entendem! Era a fase áurea da revista. Depois veio photoshop e ficou tudo fake. Até deixaria o Bruninho comer essas porcarias anos 90, tipo Carla Perez, Feiticeira... mas a Lídia, a Monique, a Claudia Ohana!? Papai teria um ataque.
- Para de chilique! Ele ainda não chegou na Claudia Ohana – consola Márcia - Talvez tenha se assustado com aquela... enfim, com aquele excesso.

Surge o garçom:

- A sobremesa do dia é torta floresta negra.

Miguel o dispensa com um gesto impaciente.

- O problema do Bruninho certamente não é mau gosto. Na playboy da Hortênsia, por exemplo, ele nem tocou.

Bia não se conforma:

- Como não é mau gosto? As musas dele são todas vovozinhas.
- Que musas, mulher? O menino mal saiu da mamadeira! Miguel, acho melhor a gente conversar sobre isso em particular.

Miguel ignora a rixa entre as duas:

- O que você acha que é, Márcia?
- Sei lá! Tenho medo de ser algum problema neurológico, talvez sejam só vermes.
- Márcia, quem tem verme não come revista.
- Ele costumava comer sabonete. A fase oral continua bem viva.

Bia ameaça um comentário, mas se retrai.

- Fala, Bia. Qual a sua opinião?
- Pode ser só uma tendência à putaria, como a sua.
- Ih, Miguel. Ela já te conhece bem.

***


Miguel verifica número por número. Os recortes de Bruninho: perfeitos. Boa coordenação motora, pelo menos, pensa. Mais de vinte edições danificadas. Nem sempre por causa da garota da capa. Às vezes uma coelhinha ou playmate despertavam maior voracidade. Xuxa, por exemplo, a despeito da fama com os baixinhos, fora ignorada. No entanto, a insossa Lucinha Lins... o que se passa com esse guri?, se pergunta. A conferência chega a 1987. As mãos de Miguel tremem de apreensão ao tocar a edição 149: Luciana Vendramini. Folheia com avidez, contém-se, temendo rasgar. Intacta. Respira aliviado. A boca secara por um instante. Mas estranhamente enche d’água agora. Não resiste e destaca o pôster. Olha bem no fundo dos olhos juvenis de Luciana e a esquarteja, ou melhor, divide o pôster em cabeça, peitos, quadril e pernas. Come as três últimas partes. Não suporta a culpa de encarar Luciana e vai embora, sorrateiro. Se via sem condições emocionais de conversar com Bruninho.