terça-feira, 11 de outubro de 2011

Teaser

- Pai, quero uma pomba branca!
- Que novidade é essa, Iberê? Pomba é bicho sujo de rua.
- Então por que o moço tá vendendo naquela loja? Vi um montão na gaiola.
- Que loja?
- Ali ó – Iberê aponta para uma placa onde se lê: Artigos Religiosos Pena Verde.
- Vem comigo.
- Oba! Vai comprar?

Pai e filho entram na loja. Um homem jovem de camisa listrada os atende.

- Posso ajudar?
- Amigo, o senhor está vendendo pombos aqui?
- Quantos o senhor quer?
- Pai, posso escolher?
- Fica quieto, Iberê! Eu não quero pomba nenhuma. Isso não é animal doméstico. Qual a finalidade?
- O senhor trabalha em algum órgão ambiental? – questiona o vendedor, sem perder a amabilidade.
- Não, senhor. Sou biólogo. E sei que esses animais transmitem doenças. Imagina se uma criança pouco instruída leva uma pra casa!?
- Bom, parece que o senhor também não está bem instruído.
- Olha o deboche – ameaça o biólogo.

Após longa pausa, o vendedor junta as mãos e dirige-se a Iberê com ar professoral:

- Veja bem, a pomba branca é símbolo de várias coisas: é o Espírito Santo para o cristianismo e associada também a Oxalá, o orixá mais cultuado do candomblé. Hoje em dia qualquer pessoa usa a pomba pra pregar a paz sem saber bem o significado da...
- Tá, tá... e as pombas são vendidas pra sacrifício, não são?
- Isso é uma prática ultrapassada. O sacrifício costumava ser feito ao babalorixá. Se o senhor quer saber, hoje quem compra mais é esse povo de passeata pela paz. Eles levam pra soltar as bichinhas. Até em evento corporativo andam usando. Virou moda soltar pomba branca por aí.
- Ah tá! O pessoal que marcha pelos direitos dos animais deve comprar também, correto?

O vendedor respira fundo, mas mantém o sorriso amável.

- Olha, eu não sei mesmo. Se não deseja mais nada, peço por favor pra dar a vez a outro.
- Outro? Ué, não tô vendo mais ninguém aqui.
- O senhor é que pensa – sussurra o lojista, dando as costas ao biólogo.
- Oi?

Ao notar que Iberê brinca no fundo da loja com duas pequena estátuas, o pai decide encerrar o caso.

- Vem Iberê! Larga isso aí!

Ignorado mais uma vez, o pai tenta pegar o menino pelo braço, mas tropeça em uma gaiola, que tomba no chão. A cena a seguir é espantosa: em choque, o vendedor e Iberê veem as pombas escaparem e lançarem-se contra o biólogo caído. Elas bicam-lhe as costas com selvageria.

- Iberêêê! – grita o biólogo, sem entender o ataque.

Com a tardia intervenção do vendedor, as pombas finalmente se afastam, refugiando-se nas prateleiras superiores da loja. Em prantos, Iberê socorre o ensanguentado pai.

Uma hora depois, de bruços em uma cama de hospital, sob olhares aflitos do filho e da esposa, o biólogo tem os ferimentos desinfetados. Quando a enfermeira sai por um momento, a esposa nota algo ainda mais incomum que o ataque das pombas da paz. Os cortes formam a enigmática mensagem:

AS VIÚVAS DE CHICO XAVIER
EM NOVEMBRO, NO TELECINE PIPOCA.