quinta-feira, 28 de junho de 2012

O ritual


Com um copo de uísque na mão, Felipe fica surpreso ao atender a porta do sobrado onde mora.

- O senhor veio mesmo, seu Takeshi?!
- Mashida!
- Oi?
- Meu nome é Mashida.
- Ah, claro! 
- Como a gente faz com os cães?
- Pensei que o senhor entendesse de animais.
- Não, senhor.
- Acho que basta deixar os dois juntos, sossegados, a sós... não?
- Seria má ideia.
- Ué, por quê?
- Porque se ficarem sozinhos não vamos saber se cruzaram.
- É verdade. Não rola um cigarrinho no after?
- O senhor diz cada coisa... – reprova o risonho seu Mashida.
- Entra aí! Vamos decidir essa parada aqui dentro.
- Espaçosa a sua casa.
- Sim. Já me apresentei?
- Felipe, né? Tenho boa memória.
- Então... desculpa a abordagem no meio da rua, mas é que o Scotch já tá velho e precisa cruzar logo.
- Entendo.
- E tá difícil achar fêmea de setter como a sua.
- São animais raros hoje em dia.
- Vê se eu ia imaginar que tinha uma tão perto da minha casa?! Aliás, que bonitinha ela é, hein!? – Felipe acaricia a cadela e por pouco não leva uma mordida.
- Obrigado.
- Mas o senhor, como oriental, deve saber conduzir rituais.
- Esse ritual não pertence à minha cultura.
- Hahahaha... claro! Tava só brincando.
- Seu cão não parece muito interessado, né!?
- Talvez sua cadela não seja tão atraente assim.

Seu Mashida fecha a cara. O dono da casa tenta relaxá-lo:

- Vamos beber enquanto rola a sedução? Cervejinha, uísque...?
- Não costumo beber tão cedo.
- Cedo? Mas hoje é sábado!
- Meus netos me esperam em casa.
- E daí? Eu vou tomar mais uma dose porque esses dois aí... Vai lá Scotch! Estraçalha!
- Ele continua desinteressado.
- Calma aí, sem pressão! São só adolescentes, porra! - eleva o tom Felipe.
- Que foi que eu fiz? - assusta-se seu Mashida.
- Já sei! Na internet é moleza descobrir como esses bichos trepam. Vai que precisam de meia luz, ou velas aromáticas, e nem sabemos... né?!
- Se a pesquisa não for demorar...
- Putz, esqueci... meu note tá no conserto. Vamos pesquisar na sua casa?
- Não é boa ideia.
- Mas o senhor não mora na vizinhança?
- Não é boa ideia.
- Bom, então senta aí. Vou colocar uma musiquinha ambiente pro senhor e o casalzinho relaxarem.

Começa a tocar uma música new age repleta de sons pastoris estranhos. Felipe sorri divertido para seu Mashida, que nem ameaça se sentar. Apenas espicha o olhar pela casa sem conter a curiosidade:

- Sua esposa morava aqui com o senhor, não?
- É.
- Separaram?
- Isso.
- Sem filhos?
- É.
- Vive sozinho numa casa desse tamanho?
- Acertou de novo!
- Consegue viver sem uma família nessa idade? Pra mim família é fundamental.
- Meu amigo japa, pra que tanta pergunta se já deve estar por dentro de tudo? Sei como vocês são!
- Não entendi! Vocês quem?
- Vocês, vizinhos! Uns abutres! Farejam fraquezas de gente de bem pra poder arruiná-las moralmente.
- Você bebeu demais, meu jovem. 
- Aqui dentro eu bebo o quanto eu quiser. Vai espalhar que encho a cara às três da tarde? Caguei!
- Sua vida não me interessa - seu Mashida se dirige à porta da rua, mas volta ao notar que a cadela ficou para trás.

Com voz pastosa, pontuada por gestos amplos, o dono de Scotch continua seu desabafo etílico:

- Afinal, vocês vieram lááá do outro lado do mundo pra julgar a gente? É isso? 
- Peralá, eu nasci aqui! Você é que veio de Minas!
- Viu só? Como sabe que vim de Minas? Anda me espionando?
- Percebi pelo sotaque, seu doido! - levanta a voz pela primeira vez o visitante.

Com lentidão ébria, Felipe dá dois passos em direção a seu Mashida, que ao recuar esbarra no copo de uísque sobre a mesa. O copo se espatifa no chão, mas o dono da casa parece nem notar.

- Não sou menos honrado que você! - brada Felipe de forma patética.
- Olha, quem precisa trepar é o senhor, e não o cachorro – rebate seu Mashida, que mesmo hostilizado, junta educadamente os cacos de vidro do chão com um guardanapo.
- Hahahaha... boa, muito boa! Eu preciso mesmo. A ideia era traçar o senhor enquanto os cães se embolavam no quintal. Chega mais! 
- Me respeite! – aponta um dedo ameaçador para Felipe – Vem Cereja! Vamo embora!
- Cereja? Ah, mas se eu soubesse que ela tinha esse nome de puta não teria oferecido ao Scotch. Não mesmo! - debocha.
- Não chega perto! Vem, Cereja!
- Alá! Alá! Tão trepando! Larga ela aí, seu Mashida!

Louco de raiva, Seu Mashida ignora os apelos de Felipe e arranca a cadela da cópula. O indignado Scotch ainda morde debilmente a mão do intruso.

- Viu, japa?! Cê teve o que merecia! Empata foda do caralho!
- Seu cachorro não sabe morder. É como o senhor, só dá showzinho. Passar bem!

Seu Mashida sai arrastando Cereja portão afora. Desesperado, Scotch persegue os dois aos uivos.

- Volta, Scotch! Não vale a pena, rapaz – grita Felipe, sem convicção.

Culpado, o dono da casa sai em busca de outra dose. Ao cão resta apenas lamber o uísque do chão para aplacar a mágoa.