sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Tinder


Andrício é levado pela moça ruiva até uma mesa cheia de desconhecidos. Percebendo que não ficaria a sós com ela, sente ameaçada a possibilidade de tirar a cueca naquela noite. Ainda assim, procura agir naturalmente:

- Legal, e estão comemorando alguma coisa?
- O teste daquela minha amiga ali - aponta a moça na outra ponta da mesa - que deu negativo. 
- Não tava pronta pra cegonha?
- Era teste de HIV.
- Ah.
- O ex é meio promíscuo, sabe?!- susurra – E o dele deu positivo. Maior bafo. Senta aí que eu te conto.
- Então… acho melhor eu partir. Trabalho amanhã – blefa Andrício, mantendo uma insistente semiereção.
- Como assim? Acabou de chegar.
- Achei que seria só nós dois, tipo um date.
- Ué, mas eu falei isso? – franze a testa, tentando se lembrar.
- Deu a entender pelo Tinder.
- Ah, o Tinder.
- Entendi errado?
- Relaxa, meus amigos são ótimos. 
- Mas vão ficar me julgando. Tipo: quem é o loser que se abalou até aqui atrás de alguém que nem conhece e mesmo depois de descobrir que a moça tava em outro rolé, se submeteu a ser coadjuvante? É como passar o aniversário na festa de outra pessoa, entende? 
- Hahahaha! Não tá falando sério, né?!
- Não seria melhor a gente sair daqui e...
- Puxa uma cadeira aí, vai - ordena, com doce impaciência, ignorando a anêmica tentativa de fuga de Andrício.

Após certa dificuldade em achar cadeira no bar lotado, enfim senta-se ao lado da bela ruiva que motivara-lhe a sair de casa naquela noite fria de terça, mesmo exaurido pelo trabalho, sob a autoimposta obrigação de fugir da rotina, também conhecida como “transar”.

- Você é o primeiro perfumista que eu conheço - ela puxa papo.
- Perfumista? 
- É, não faz perfume? Tô louca?
- Não, sou turismólogo.
- Vixe! E a promessa de criar uma fragrância pra mim? – questiona, simpática.
- Só poderia indicar destinos turísticos mesmo – responde, arrependendo-se do tom humilde, pois jamais envergonhara-se de sua profissão antes.
- Difícil com essa crise. Mas deixa seu cartão – ironiza, desconcertando-o ainda mais.
- Tinha dito que achava minha profissão original, lembra? 
- Desculpa, gato, muitas janelas abertas ao mesmo tempo, me confundo.
- Parecia querer me ver – sente a autoconfiança e a semiereção arrefecerem.
- Peraí, foi você que me mandou foto do pinto?
- Nunca fiz isso – aborrece-se.
- Pena, desse eu me lembro.
- Te mandam mesmo o…
- Ih… – contorce o rosto, deixando a resposta no ar.
- Bom, prefiro mostrar pessoalmente.
- Hahaha... calma, cara.

Se continuasse demonstrando tanta impaciência, poderia afugentá-la, pensa. Apesar da prudência indicar que o sentimento ideal é a expectativa controlada, não consegue evitar outra crise de orgulho ferido:

- Você parece não ter ideia de quem eu sou. 
- Péra, qual o seu nome?
- Andrício. 
- Haha... não fode. 
- Não fode você. 
- Nome incomum. Era pra eu me lembrar.
- Então por que chegou em mim no balcão?
- Você me olhou tão empolgado. Achei que tivéssemos combinado algo, sei lá.
- E combinamos! Insistiu pra eu vir aqui, inclusive.
- Gosto daqui.
- Marcou mais algum date pra hoje? – pergunta, atravessando de vez a fronteira entre a impaciência e a animosidade, sem jamais ter sido agradável de verdade.
- Nem sei, Aparício. Falo com tanta gente.
- Andrício.
- Meu, você é meio exigente. Primeiro pede exclusividade, agora quer que eu lembre de coisas que disse chapada. Too much pro meu pobre cérebro.
- Desculpa, Silvia - ele põe as mãos sobre o peito, admitindo culpa - Vamos começar de novo essa conversa?

Ela abafa uma risada.

- Que foi?
- Quem é Silvia?
- Ué… não disse que era o seu…?
- Lá vem você dizer que eu falei isso e aquilo de novo.
- Você não é a Silvia? – saca o celular do bolso e o consulta.
- Sua Silvia é ruiva também? 
- É… - responde, aparentando terrível frustração – Merda, não vi a mensagem. Foi embora há vinte minutos.
- Essa mulher tá te enganando. Tenho certeza que sou a única ruiva aqui desde que cheguei.
- Vocês deviam colocar fotos nítidas nessa porra de aplicativo de paquera!
- “Aplicativo de paquera”? Falando assim fica difícil se solidarizar com você, amigo – debocha.
- É, sou devagar com novas tecnologias - faz o tipo coitado.
- Relaxa porque o negócio ainda pode ficar bom pro seu lado – dá-lhe um tapinha no joelho.
- Como?
- Em primeiro lugar – estende a mão – prazer, Ingrid.
- Prazer. 
- Tem alguém aqui no bar que adorou você.
- Mas eu nem socializei, fiquei só aqui sentado.
- Pra você ver o seu poder de sedução. Posso chamar...?
- Não sei, tinha outros planos.

Ingrid se levanta e grita para alguém no balcão.

- Clinton, chega aí! 

O sorridente barbudo de turbante aproxima-se cheio de ginga, mas detém-se ao perceber a careta de Andrício.

- Bom, chegamos ao famoso “limite” – bate na mesa Andrício.
- Meu, não precisa pegar o Clinton. Ele te curtiu, podem ser amigos.
- Ele é mais sensato que você, tanto que ficou lá na dele.
- Clinton é sensível, meu bem. Captou sua aura negativa.
- Por acaso você chegou em mim por causa dele? 
- Sim e não. Tem dois lados de ver a coisa.
- Quero saber do lado bom. 
- Pode ser um copo meio cheio... ou meio vazio - mantém-se enigmática.
- Bom, eu prefiro meu cu totalmente vazio, ok? 
- Se acha assim, devia procurar outra coisa, tipo aquela mina ali que não tira os olhos de você.
- Quem...? – a visão da pessoa parece causar vertigem em Andrício.
- Se você visse sua cara...
- Tem banheiro aqui? 

Tenta escapulir sem sucesso, pois a mulher misteriosa já estava ao seu lado. 

- Tô surpresa de te ver aqui.
- Oooi – simula uma simpatia tosca – Como você tá?
- Bem. E a Ju, cadê?
- Viajou.
- Bacana – responde seca, espichando os olhos para Ingrid.
- Esta é a Ingrid, uma amiga.
- Oi! A gente se conheceu pelo Tinder – intromete-se Ingrid – Quer sentar?
- Bom...  – fulmina Andrício com o olhar - Não vou me meter nos seus assuntos. Manda um beijo pra Ju.

Impotente, Andrício observa a moça ir embora, concluindo estar irreversivelmente encrencado. 

- Cê quer me foder, né? 
- Eu não. Você que quer me foder. 
- Você mentiu!
- Por que não me disse que tinha rolo com alguém?
- Não tenho, quer dizer, não sei mais, porque aquela é a melhor amiga dela.
- E não ia me contar?
- Deveria? Vim aqui encontrar outra pessoa, esqueceu?
- Mas queria me comer.
- Não, queria a Silvia.
- E o que ela tem de tão diferente? Vocês nem se conhecem.
- Olha, só me arrisquei porque ela tem algo sim.
- Tipo?
- Bom... melhor eu ir. Já me fodi o suficiente.
- Ah não, agora fala.
- Ela não é totalmente mulher.
- É trans?
- É, mais ou menos isso.
- Que máximo! 
- Mulher eu já tenho.
- Peraí! Você me confundiu com a... - arregala os olhos - Acha que eu tenho cara de trans? 
- Não sei, é que hoje em dia...
- Meu Deus!
- Quanto mais feminina melhor, né?!
- Mano, olha o Clinton ali a fim. Tá perdendo tempo por quê?
- Tá doida? Não sou gay, só curto... ou melhor, tenho curiosidade com...
- Pau?
- Trans – olha ao redor, constrangido com a admissão – E seu amigo é muito peludo.
- Bom, então ninguém aqui pode te ajudar.
- Tudo bem. Agora só consigo pensar na merda que vai dar com a Ju.
- Só se rolasse um threesome, que que cê acha? Eu, você e o Clinton.
- Tá de onda, né?
- Uma mão lava a outra. Eu curto com dois caras, você tá atrás de aventura flex e o Clinton é da orgia  – bate palmas, excitada - E aí, partiu?
- Esse é o copo meio cheio de que você tava falando?
- Vai ou não? Sem enrolar.
- Tá.
- Clinton – grita de novo – Pega a catuaba e vem!