quarta-feira, 5 de abril de 2017

Curry


- Já refletiu sobre a galera que morreu pra você poder usar essa cuequinha grená?
- Como assim?
- Antes dos europeus chegarem ao oriente, as roupas eram todas marrons, tristes, um horror. Não tinha corante, não tinha brilho.
- Quem te contou isso?
- Também enfrentaram tormentas para que o boyzinho pudesse usar um perfuminho – dá uma fungada no cabelo do namorado - Gosta de perfuminho, não gosta?
- Deixa de ser ridícula.
- Perfuminho atrai femeazinha feito eu. Mas de que adianta, né?!
- Já entendi aonde quer chegar.
- Agora vamos falar de temperos.
- Não, não vamos.
- Imagina a merda que era o gosto da comida antes da Rota das Índias. Nem sal direito tinha. Imagina curry.
- Sabia.
- Eu não sei quantos barcos afundaram para a gente ter curry na nossa mesa, mas posso pesquisar na internet. Peraí.
- Bia, chega! Eu não consigo e pronto. Sente esse cheiro.
- Você é um fresco! Queria o quê? O restaurante indiano é meu vizinho. Vai ter cheiro de curry pra caralho sim! Ou se acostuma ou não trepamos mais.
- Desculpa, curry me brocha.
- Eu preciso de uma paciência de Gandhi com você.
- Gandhi não era paciente, era pacifista.
- Então vamos pra sua casa.
- Meus pais estão lá, esqueceu?
- E aquele motel, o Plexus?
- Acho motel nojento.
- Você tá querendo levar uma porrada ou um chifre?
- Quer gastar dinheiro a toa?
- Interessante, Cadu. Nojo de curry, nojo de motel e nojo de buceta. Que bela época pra estar viva.
- Não tenho nojo de buceta.
- E não faz oral por quê?
- A gente tava falando de curry.
- Mas eu quero falar de buceta. Primeiro dizia que menstruação te afastava, mesmo quando mal tinha descido, eu entendi, apesar de contrariada, aí depois parou de vez com o oral.
- Eu peguei trauma de menstruação porque um dia…
- Já sei, a menina não te avisou e você foi lá e caiu de boca. É psicológico, querido.
- Chegou a comida – levanta-se Cadu ao ouvir o interfone.
- Vai lá, foge mesmo.

Minutos depois:

- Que massa boa.
- Gostou do molho que eu escolhi?
- Amo molho branco. Que restaurante é esse?
- Não viu o folder?
- Não veio.
- Se chama O Sabor da Saroba, cozinha experimental.
- Sucesso. Mas experimental por quê?
- Porque usa ingredientes novos, super nutritivos.
- Uai, isso é creme de leite, não?
- Sim, também tem gengibre e esperma, que harmonizam bem.
- Vai se foder.
- Qual o problema? Faz bem pra saúde.
- Filha da puta! – revolta-se Cadu, largando a quentinha e trancando-se no banheiro.
- Amor, é brincadeira – bate na porta -  Você é caipira mesmo em achar que existe delivery de sêmen. Se tivesse, eu já tinha pedido. Amor, tá vomitando?

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