quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Cu

- Cissa, sobre ontem a noite, eu…
- Gostou, né?! - sorri sem graça enquanto coloca o sutiã.
- Não é isso que eu ia dizer.
- Não? Que pena.
- A gente não vai voltar, foi uma recaída. Nunca tínhamos feito aquilo, mas ainda assim eu…
- Ainda assim o quê?
- Não vamos voltar a namorar.
- Quem foi que falou isso?
- Você tava bêbada, parecia bem frágil. Só quis te tirar daquele bar, te consolar.
- Sei, e aí aproveitou o embalo pra comer meu cu.
- Peraí, foi você que ofereceu.
- Era um teste.
- Cissa, sei bem o que você queria…
- Queria ver se o seu oportunismo te ajudaria dessa vez.
- Oportunismo? Você usou o seu… usou essa tática aí pra conseguir…
- Na sua cabeça eu usei meu cu pra te segurar?
- Não?
- Ah, agora meu cu virou super trunfo? - veste a calça de moletom - Acha que eu preciso disso?
- Precisar não precisa, mas usou o ânus como carta coringa sim.
- Quanta pretensão!
- Não tem problema. Fica entre nós.
- Cara, quer saber mesmo o que eu queria? - começa a se exaltar - Quer?
- Na verdade não.
- Pois eu digo mesmo assim: queria dar o cu! - grita, fazendo Caio estremecer.
- Ah, não me diga?! Isso esclarece tudo.
- Mas NÃO pra te segurar, querido, e sim porque gosto de sentir prazer.
- Claro, claro - balança a cabeça, condescendente.
- E por gostar de sentir prazer, quis te dar a última chance de me proporcionar algum.
- Última chance? Ah, agora vai cuspir no prato que comeu?!
- Sim. Até gostava de você, mas vivia frustrada.
- Então espero que tenha aproveitado ontem, porque não vai rolar mais.
- Hahaha… pois apenas constatei o óbvio: você não sabe comer cu, Caio.
- Não faço isso sempre, mas não significa que…
- Significa sim. Todo sem jeito, afobado, como se estivesse em vaga proibida com pisca alerta ligado, nem uma maldita cuspidinha; se eu não tivesse tanta paciência, teria te mandado ir dormir na sala.
- Dormir na sala? Sua bipolar, psicótica dos infernos!
- Ihh, desceu a ladeira…
- Você me persegue desde o fim da relação!
- Sou carente sim. Mas esse teste foi bom pra eu me desiludir de vez.
- Acabei com minha noite pra vir cair nessa arapuca e agora vem me esculachar?
- Ué, quer que eu minta? Você no papai e mamãe vá lá, mas pra sodomia pesada ainda é mirim, fazer o quê?!
- Recalcada!
- Quem tá agindo com recalque? - assume postura bem resolvida, quase robótica - Tem que aceitar crítica, amor.
- Nosso término te deixou amarga.
- Caio, você não gosta de variar. Que mal há nisso? Tem 24 anos, vai evoluir.
- Acho anal hipervalorizado sim, porém não significa que não goste.
- Sei, agora praticar com a namorada que é bom, nada, né?!
- Não achei que a EX-NAMORADA gostasse.
- Xô te explicar: a mina que disser que não gosta tá mentindo.
- E se eu não quisesse? - desafia - Acha seu cu tão irresistível assim?
-Acho. E também acho você incompetente. Quem negligencia sexo anal é incompetente sim!
- Negligencia? Você nunca me deu chance!
- Caio - fecha os olhos, dramática - eu tô lá toda molhada, pensando no beijo grego, enquanto você ainda tá na mordidinha na orelha. Tem que se ligar!
- Beijo grego?
- Aí, tá vendo? Manja nada de cu - pega no ombro do rapaz - E fio terra, conhece?
- Esse eu conheço.
- Claro.
- Que risadinha foi essa?
- Vai buscar conhecimento e não me amola mais.
- Então é assim? Vamos generalizar os costumes sexuais da humanidade. É a ditadura do cu!
- Isso aí! Geral cultua o cu. Menos você.
- Era só me dizer que gostava… - balbucia, inconformado.
- Cadê feeling, querido? - levanta-se e entreabre a porta do quarto.
- Vai aonde?
- Duda! - grita para a irmã.
- Cissa, eu tô pelado aqui - Caio corre para se cobrir.
- Quié? - grita de volta a irmã, de algum ponto da casa.
- Curte dar o cu? - questiona Cissa, deixando o ex-namorado perplexo.
- Claro, por quê? - responde a irmã, sem pensar muito.
- Pergunta pra Clarinha aí.
- Perguntar o quê?
- Se ela também curte dar o cu.
- Mas a Clarinha tem dezesseis anos - susurra Caio, quase tendo um derrame.
- Pffff - bufa para o ex - Pergunta aí, Duda!
- Falou que não gosta - Caio parece aliviado com a resposta - ama!

As irmãs riem juntas. Enrolado no edredom, encolhido na cama, sentindo os pilares de sua masculinidade rachando, Caio enxerga algo de diabólico na cena toda.

- Agora vamos perguntar pra mamãe - provoca Cissa, produzindo ainda mais risadas no quarto ao lado.
- Ok, chegamos ao limite - o rapaz começa a se vestir apressadamente.
- Relaxa aí e se liga no poeminha que eu fiz pra você: cu não é areia movediça, não prende ninguém. Caio, você tá livre, e eu também - sorri meiga -  Curtiu?
- Você sempre foi boa de improviso.
- Já você, nem tanto.
- Não queria mesmo voltar?
- Você é complicado demais. Precisa superar essa repulsa anal.
- Vamos conversar.
- Tolinho. O jogo virou - coloca a blusa e sai do quarto.

Caio e sua auto-estima descem as escadas. Detém-se ao ver mãe e filhas tomando café da manhã na mesa da sala. Parecem nem notá-lo. Ele se esgueira até a porta da rua.

- Ei, Caio! Toma café? - oferece a mãe.
- Obrigado, Dona Vitória! Tenho que ir - destranca a porta - Não precisa se levantar.
- Tchau, meu filho. Espero que você supere.
- Eu não tenho nenhuma repulsa anal pra superar, Dona Vitória - irrita-se.
- Supere o fim do namoro, Caio - corrige a mãe.


Caio bate a porta e Dona Vitória fica sem entender o alvoroço das filhas.

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