terça-feira, 13 de novembro de 2007

A cabeça

Norberto acordou confuso. Atravessou o apartamento, um quarto e sala, com passos vacilantes. Procurou por água na geladeira. Nem uma gota. Nada sobre o dia anterior lhe vinha à mente. Pouco se importou, pois os dias pareciam sempre iguais para ele. Supôs então ter completado mais uma jornada monótona ao boteco da esquina. Uma ligeira angústia começava a formar-se em seu peito. Normal. A ressaca deixava-o assim. Se deu conta de um cheiro desagradável, semelhante ao de carne podre, a pairar sobre o ambiente. Pensou sinceramente ser ele próprio a exalar. Pensou nisso com tristeza. Mas sob a luz da consciência, afastou a idéia. Jogou-se no sofá-cama da sala e ficou ali respirando desinteressadamente. Passada uma hora inteira, o cheiro deletério pesava bem mais. Começava a incomodar. Voltou à geladeira. Vasculhou. Nada. Apenas uma caixa de nuggets vazia. Colocou a cabeça para fora da janela e sentiu os pulmões aliviados. O odor não vinha da rua. Podia ter vomitado em algum lugar insuspeito do apartamento... isso já ocorrera antes. Não achou nenhuma mancha pelo chão. Era ridículo ter dificuldade em encontrar alguma coisa naquele cubículo. Nada na cozinha, nada no banheiro, no quarto ou no saco de roupa suja. Talvez o ralo. Desistiu. Não estava acostumado a ser persistente em suas buscas. Já era velho demais para ter tanta obstinação, refletiu. O certo, em um dia como aquele, seja qual fosse, era voltar para a cama. Mais sadio. Pensou que as chances de ter algum desgosto, na cama, são bem reduzidas. Adormeceu por duas horas e meia. O despertar foi ainda mais torturante que o de outrora. Sentia frio, o estômago estava corroído pela falta de alimento e o fedor infestava todas as dependências do apartamento. Foi em busca de um cobertor bem grosso para se esconder debaixo. Levantou o assento do sofá-cama e enfiou a mão dentro. Enroscou os dedos em algo que lembrava cabelo humano. Estremeceu. Acendeu a luz e olhou o vão do sofá com espanto. Eram cabelos humanos... e pertenciam a uma cabeça. Um manequim? Não. Aquela cabeça fora degolada do pescoço de alguém. E começava a apodrecer. É dispensável dizer que ali estava a origem do mau cheiro, que agora piorava dramaticamente. Mais intrigado do que assustado, Norberto colocou a cabeça no chão e pô-se a refletir. Buscava na memória alguma explicação plausível para o achado inusitado. Após breve reflexão, concluiu que seu temperamento, mesmo alterado pela bebida alcoólica, não seria capaz de um estrago daqueles. Não tinha mais o que pensar. De resto sobravam apenas especulações. Sentiu preguiça em elaborar uma forma de livrar-se da cabeça. Ficou olhando para ela. Reparou que o corte tinha sido feito bem no alto do pescoço. Não conseguia distinguir o sexo daquela cabeça. O tom da pele mesclava cores como cinza, verde e roxo, mas o amarelo predominava. O cabelo era liso, escuro com alguns fios brancos, e desgrenhados. Buscou um pente para penteá-los. O fez cuidadosamente. Ainda assim, não conseguiu descobrir o sexo. Mas não sentiu remorso por contribuir para a indigência da cabeça. Que fizera ela para vir parar aqui? Levantou para se livrar definitivamente da coisa. Andou pelo corredor do prédio. Ouviu barulho em uma das portas vizinhas e, covardemente, correu de volta para seu apartamento. Ficou bufando por uns instantes e, de repente, ocorreu-lhe um pensamento bem humorado: “Dos troféus que trouxera para casa antes, este era o mais esdrúxulo”. Não tinha nada de engraçado. Apenas um taco de sinuca fora trazido ilicitamente para casa. Isso tinha acontecido há muito tempo atrás. Nada além. Agora era dominado por duas sensações simultâneas: tensão, e raiva por sentir tensão. Não merecia ter um problema daquela espécie. E agora? Não dava para simplesmente jogar a cabeça na lixeira. Jogar pela janela só seria divertido até ela cair dentro da piscina da mansão fronteiriça. Alguém poderia ver e complicar tudo. Chamar a polícia então. Sempre se atrapalhava na presença de policiais, como se devesse algo. Entrelaçou os os dedos pelos cabelos e levantou a cabeça à altura de sua face. Ser ou não ser? Assumir ou não um papel diante da vida. Era difícil continuar se esquivando. Será? Optou por zombar amargamente de tudo aquilo e não fazer rigorosamente nada. Guardou a cabeça dentro do sofá cama. O cheiro teria que esvair-se um dia. Aquele resto mortal ficaria ali guardado. Seja lá de quem fosse. Agora era uma relíquia. Um símbolo de sua própria inaptidão para iniciativas. A representação física da liberdade de não se fazer nada.

2 comentários:

Ricardo disse...

hmmmm... Bicha literária...

MP3 e MP4 disse...

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