terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Musas


- Prova estas mini alcachofras.
- Não. Miguel, tem certeza que não quer que eu vá embora?
- Por que iria querer?
- Sei lá! Sua ex vindo aí, não pode rolar um climão?
- Bia, ela quer falar sobre o Bruninho.
- Não podia usar o celular? Isso me parece mais uma desculpa pra te ver.
- Não começa.

A ex-esposa de Miguel entra no restaurante toda esbaforida, um tanto suada, joga a bolsa sobre a mesa e suspira.

- Ai Miguel, não imagina o quanto eu já andei hoje – senta-se, tirando uma das sapatilhas – Olha o estado do meu pé.
- Márcia, esta é a...
- Oi, amiga do Miguel. Prazer, Márcia. Que negócio é esse aqui? – aponta para o prato.
- Mini alcachofras.
- Credo. Bom, não pretendo estragar o almoço de vocês com problema doméstico. Se preferir, falamos depois.
- O que houve com o Bruninho?
- Fez endoscopia hoje.
- Meu Deus! Mas ninguém me avisa de nada?!
- Não faz o pai zeloso pra sua amiga - alfineta Márcia - Já tá em casa, recuperado, porém...
- Conta do início.
- Tem a ver com a sua coleção.
- Coleção? – agita-se Miguel.
- A de Playboys. Tem outra que eu não saiba?
- Explica isso direito – constrange-se Miguel – É a coleção de revistas que herdei do meu pai. Fico com pena de jogar fora.
- Não seja por isso. Eu mesma jogo. Você nem sentiria falta, tem tudo na internet hoje em dia.
- Péra, péra... o que isso tem a ver com o Bruninho?
- Pois bem, outro dia achei a bunda da Christiane Torloni amassada no banheiro, como se tivesse sido mastigada e cuspida.
- Que papo surreal é esse?
- Eu logo fui pra cima do Tonico, que já é mais rapazinho, e podia estar fuçando as revistas do pai.
- Não são minhas... - irrita-se Miguel - Tá, vai, continua.
- Enfim, o Tonico jurou não ter rasgado revista nenhuma e acusou o irmão.

Bia não contém a curiosidade:

- Mas quantos anos têm esses meninos, afinal?
- O Tonico tem dez e o Bruninho seis.
- Gente, eu ainda não entendi – impacienta-se Miguel – o que a bunda da Chris fazia no banheiro?
- O Bruninho anda comendo suas revistas.
- Sério?
- Ele recorta as partes mais interessantes, tipo bunda, peito e coxa, e come. Só que a Chris não caiu muito bem, porque sentiu dor no estômago, vomitou...
- Mas também, né gente?! É quase uma idosa – desvirtua Bia.
- Idosa?! Essa mulher era um tesão - exalta-se Miguel - E a revista é de 83, se não me engano.
- Tá bom, você que é velho.
- E você é desinformada. Não deve ter visto Um Beijo no Asfalto, ou Rio Babilônia, quando ela era uma ninfetinha linda, contracenando com o...
- Pessoas, vamos voltar ao Bruninho – interrompe Márcia.

Aborrecido, Miguel desvia a atenção para a xícara de café.  

- Miguel, eu queria que você conversasse com ele. Tentasse entender.
- Conversar o quê? É coisa boba de criança, Márcia. Vai passar.
- Vai tirar o corpo fora, claro.
- Tranca o armário, uai.
- Se a sua solução é essa, vou embora. Mas te aviso: seu filho prefere as revistas dos anos 80, as mais valorizadas por você e seu finado pai. Chato, né?!
- Miguel, eu não acredito que você cultiva amor por essas revistas.
- É bom você tomar uma providência, ou vai esperar ele se intoxicar de verdade? Seu filho já comeu a Maitê Proença, a Monique Evans, a Luiza Brunet, a Lídia Brondi, a Vera Fischer...
- Ah não, a Vera também? 
- Gente, mas o que será que ele viu nessa coroa que nem depila a xana?
- Falou bobagem de novo, Bia - irrita-se Miguel - O primeiro ensaio da Vera foi o momento mais sublime e delicado da história da revista, segundo dizem.
- Dizem, né?!
- Miguel, não entra em provocação.
- Vocês não entendem! Era a fase áurea da revista. Depois veio photoshop e ficou tudo fake. Até deixaria o Bruninho comer esse lixo anos 90, tipo Carla Perez, Feiticeira... mas a Luiza, a Monique, a Claudia Ohana!? Papai infartaria.
- Para de chilique! Ele ainda não chegou na Claudia Ohana. Talvez tenha se assustado com aquela... enfim, com aquele excesso.

Surge o garçom:

- A sobremesa do dia é torta floresta negra.

Miguel o dispensa com um gesto impaciente.

- O problema do Bruninho certamente não é mau gosto. Na playboy da Hortênsia, por exemplo, ele nem tocou.
- Como não é mau gosto? - questiona Bia - As musas dele são todas idosas.
- Que musas, mulher? O menino mal saiu da mamadeira! Miguel, acho melhor a gente conversar sobre isso em particular.
- O que você acha que é, Márcia?
- Sei lá! Tenho medo de ser algum problema neurológico, talvez sejam só vermes.
- Márcia, quem tem verme não come revista.
- Ele costumava comer sabonete. A fase oral continua bem viva.

Bia ameaça um comentário, mas se retrai.

- Fala, Bia. Qual a sua opinião?
- Pode ser só uma tendência à putaria, como a sua.
- Ih, Miguel. Ela já te conhece bem.

***


Miguel verifica número por número. Os recortes de Bruninho: perfeitos. Boa coordenação motora, pelo menos, pensa. Mais de vinte edições danificadas. Nem sempre por causa da garota da capa. Às vezes uma coelhinha ou playmate despertavam maior voracidade. Xuxa, por exemplo, a despeito da fama com os baixinhos, fora ignorada. No entanto, a insossa Lucinha Lins... o que se passa com esse guri?, se pergunta. A conferência chega a 1987. As mãos de Miguel tremem de apreensão ao tocar a edição 149: Luciana Vendramini. Folheia com avidez, contém-se, temendo rasgar. Intacta. Respira aliviado. A boca secara por um instante. Mas estranhamente enche d’água agora. Não resiste e destaca o pôster. Olha bem no fundo dos olhos juvenis de Luciana e a esquarteja, ou melhor, divide o pôster em cabeça, peitos, quadril e pernas. Come as três últimas partes. Não suporta a culpa de encarar Luciana e vai embora, sorrateiro. Se via sem condições emocionais de conversar com Bruninho.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O sinistro Carlos Menininha


- Afe… não te falei, Renan? Isso é talco!
- Vamos ter que levar só a birita mesmo.
- Hoje eu vou lá. Quero o "du bom" que ele disse que tinha ou meu dinheiro de volta. Já é a segunda vez que o filho da puta me passa a perna.
- Surtou, Luca? A gente atrasado pra festa e você querendo levar navalhada na cara.
- Foda-se! Não vou passar recibo de otário pro Menininha. Mas chego de leve, na conversa. 
- Menininha?
- Sim. Carlos Menininha, um tipinho inacreditável da rua Paim. Vai temer um cara com um apelido desses?! Apesar de ter fama de sinistro.
- Por que o apelido ridículo então?
- Vira esse copo aí.
- Peraí, não vou entrar nessa roubada com você.
- Vai vacilar? Cheirar você queria, ou não?

Presos no trânsito da rua Augusta, Luca e Renan tentam encontrar uma vaga.

- Pele branquinha, cabelo chanel, sardas...  é assim que você descreve a figura sinistra que te vende pó?
- E acho que ele usa rímel, mas aí pode ser meu cérebro avacalhando.
- Então é um traveco!
- Não é. A roupa, o jeito, é quase tudo de homem. Ele só é meio... uhm... angelical. Tipo uma criança doentia, sabe?
- Um traficante angelical da Paim. É isso?
- Bom, você vai ver. Olha ali a vaga!

Estacionam e vão andando até a Paim, uma rua sem saída tomada pelo lixo, destoante da vizinhança civilizada.

- Rua porca, hein?! Parece que passou um bloco de carnaval por aqui.
- Olha ele lá - aponta discretamente - Na mesa do canto.

Carlos Menininha era fiel à descrição: físico delgado, baixa estatura, quase sumia em meio aos demais. Estava concentrado, escrevendo em um bloco de papel, observado de perto por um casal bronzeado em trajes hippies. Ele termina o que parece ser a caricatura do casal, entrega aos dois, que agradecem, riem um pouco e vão embora satisfeitos. O traficante retribui com a cabeça, ignorando a lenta aproximação de Renan e Luca. 

- Para de rir, Renan.
- Desculpa...  mas eu não consigo. Ele é engraçado demais. Olha esse cabelo lisinho de Cleópatra!
- Shhh... só eu falo agora!

Menininha ergue os olhos para os visitantes. Com cândida solicitude, pergunta:

- Querem que eu faça uma caricatura de vocês?

Renan nota que além das sardas, Menininha possui longos cílios. Luca não se atém a tais detalhes, vai direto ao ponto:

- Não finge que não me conhece - crispa os lábios de raiva - Eu voltei e você sabe o porquê.
- Vai com calma, Luca – apazigua Renan.
- Não sei. Por quê? – pergunta o traficante, sem se alterar, apenas intrigado.

A aparente docilidade de Menininha inflama Luca:

- E aquele papo de "da pura" e o caralho? É a mesma merda que já tinha me empurrado antes.
- Ué, me disseram que era boa.

Luca respira fundo, contendo o ímpeto violento. Menininha tenta se justificar, um pouco vacilante:

- Olha, eu nem uso... o que você quer que eu faça?
- Me dá o do bom! – levanta a voz Luca.
- Psss... fala baixo. Não tenho outro – aflige-se Menininha.
- Porra, se não vai me dar outro, devolve a merda da grana, vai!
- Escuta, o dinheiro eu já usei, ou melhor, vou usar.
- Como assim?
- Com a minha namorada.
- Haha... Ouviu Renan? Dá pra levar a sério?

Renan sorri amarelo, louco para ver-se livre daquele disparate de situação, porém Luca parece prestes a perder de vez o respeito pela singela figura do submundo:

- Namorada é o caralho! Essa não convence nem a tua mãe. Sei qual é o seu negócio – faz alusão a um pênis com as mãos.

Pálido e com os olhos marejados, Menininha suplica:

- Passa outro dia, por favor.

Luca empurra o traficante, agitando-lhe os fios delicados do cabelo e derrubando uma cadeira da Skol. A agitação desperta o povo ao redor. Um homem atravessa a rua em direção ao conflito e se faz notar:

- Ô playboy!

Renan percebe a aproximação de curiosos e se apavora.

- Porra, Luca! Olha aí a merda.

Mas o alvo era mesmo Luca, logo cercado por quatro homens, e desafiado pelo estranho que atravessara a rua:

- Vai tirar com o Menininha na quebrada dele, palhaço? Treta cum nóis  – dito isso, desfere uma cabeçada que desnorteia o rapaz.

A solidariedade com o traficante faz insurgir a patuleia formada por bebuns e traficantes. Para infelicidade de Luca, todos bem maiores que Menininha. Enquanto o pau come, Renan observa o pivô da discórdia caminhar até o balcão do bar, pedir uma fanta uva e voltar à mesa de canto para desenhar, alheio ao tumulto. Aliás, a modalidade agora era chute no corpo do rapaz jogado na poça. Qualquer um podia entregar-se à atividade. Os golpes foram suficientes para Renan desistir da festa e chamar uma ambulância. A noite dos dois, que mal chegara a começar, termina no Pronto Socorro.

- Devia ter aceitado o desenho, tomado uma fanta-uva, chamado ele de padrinho, sei lá.
- Renan, eu tô levando pontos, reparou? Dá pra calar a boca?
- Ih, rapaz! Agora fodeu! – alerta Renan, correndo para aumentar o som da TV do quarto.

Um programa exibe matéria sobre a agressão na rua Paim. Enquanto se lê na legenda: CARLOS MENININHA, O BANDIDO ANGELICAL QUE ATRAI PROTEÇÃO, o apresentador Datena vocifera:

- Eu peço licença para mostrar a vocês imagens da mais pura barbárie. Não dá pra chamar de outra coisa: é barbárie mesmo! Isso aconteceu agora há pouco, na Bela Vista. O indivíduo conhecido como Carlos Menininha tá ali atrás, fingindo que não é com ele, reparem. Esse bandido entra e sai da cadeia, tá sempre metido em confusão e por trás da carinha de anjo está um monstro, um parasita da pior espécie. É essa fragilidade, esse ar de coitadinho, que atrai a proteção dessa corja aí, chutando um pobre coitado, um infeliz rolando na poça feito uma ratazana gorda. Coitada da mãe que vê isso e... – Renan muda o canal.

- O cara é sinistro mesmo, hein, Luca?!
- Renan, você não tem mais nada pra fazer? O rolé acabou. Pode ir pra casa.

Renan aproveita a saída do enfermeiro para colocar diante do rosto costurado do amigo um papel amassado que acabara de tirar do bolso.

- Olha o que ele me deu quando a gente saía.
- Que porra é essa?
- Não reconhece?

Mesmo com apenas um olho bom, Luca se reconhece no desenho, bem realista por sinal, de um homem caído na poça, chutado impiedosamente por quatro homens.

- Não é possível!
- E ele fez isso muito rápido, pois seu massacre durou quase nada.
- E você não fez nada? Nem xingou o filho da puta fanfarrão?
- Tive vontade de dar um pirulito pra ele.
- Eu vou pegar esse viado de porrada! E o Datena vai ter que mostrar na TV!
- Calma, ele nem cobrou pelo desenho.
- Ah, que gracinha da parte dele.
- Acho que ele simpatizou comigo, Luca. Disse pra eu voltar outro dia.
- Pra quê?
- Prometeu colorir o desenho. Diz aí Luca, você que saca de submundo como ninguém, isso pode ser algum código? Ok, sem stress, cuidado com esses pontos aí.


*Ilustração de Ricardo Coimbra

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O canto da anunciação


- Tá resmungando o que aí?
- Não sabia que era proibido cantar na agência.
- Gus, preciso te contar.
- Uhm? - tira o fone dos ouvidos.
- Acho que sei quem anda me ligando.
- Quem o quê?
- Não te contei?
- Não, mas vai contar.
- Tem uns 4 dias que meu celular toca na madruga, aí atendo e ninguém fala nada – faz uma pausa dramática - Só escuto uma música da Edith Piaf ao fundo. E toca sem parar, até eu desligar. Depois perco o sono.
- Edite? É sertanejo?
- Não, aquela cantora francesa. A que canta com um ranho na garganta.
- Isso que dá fumar.
- A música é até bonita, mas às 3 da manhã, vinda do celular de um psicopata, dá um cagaço.
- E você não liga de volta?
- Número privado.
- Pode ser uma menina tirando com a sua cara.
– Acho que é coisa do Edu.
- Quem?
- O cara do financeiro.
- O gay ou o hetero?
- Ele não é assumido.
- Por que seria ele?
- Lembra daquele dia no bar do bigode? Ele ficou falando da paixão pela Edith Piaf, me alugou um tempão.
- Você dá corda.
- No dia seguinte começaram as chamadas.
- Ele viu alguma coisa em você e agora quer te tirar do armário.
- Não fode.
- Ué, vocês vivem trocando referências musicais, falando de autores, agora ele te quer.
- Mesmo se fosse, por que esse filho da puta faria algo tão freak?
- Ah, então o problema é a abordagem? Mateus, Mateus, você tá se entregando.
- Não muda o foco da conversa.
- Lá em Jandira existe uma fábula famosa. Já te contei?
- Não, mas vai contar.
- Dizem que quando o indivíduo anda indeciso sobre a sexualidade, a Mãe Natureza envia o Passarinho da Anunciação pra acabar com a dúvida.
- Como é que é?
- É um pássaro que canta bem de manhãzinha, um canto chiliquento, meio adocicado, e só o sujeito em dúvida escuta.
- Então é assim que o povo da sua terra se assume?
- É.
- E como é o canto?
- Não sei se vou saber reproduzir.
- Pelo visto você não escutou seu passarinho com atenção.
- Escutei sim, mas não foi de manhã, e nem em jejum, que é o momento da anunciação.
- Gustavo, faz um favor: cala a boca até o fim do dia.
- Mateus, o seu canto da anunciação é em francês. Pelo jeito você será uma gay sofisticadíssima.
- Vai trabalhar, vai.
- Então deixa eu ouvir meu sertanejo, que aliás é em bom português - recoloca o fone nos ouvidos.

Mateus vai até a copa pegar um café. Enche o copo de plástico e cantarola baixinho:

- Non... je ne regrette rien. C'est payé, balayé, oublié, je me fous du passé.

Ao perceber outra presença, interrompe o canto e pigarreia. Mas para sua surpresa, a música continua em outra voz, na de Edu:

- Avec mes souvenirs. J'ai allumé le feu, Mes chagrins, mes plaisirs, je n'ai plus besoin d'eux!

Mateus encara a figura risonha e cúmplice do contador. Faz uma mesura educada, porém impessoal, antes de se retirar. De volta à sua cadeira, ameaça abordar Gustavo novamente, no entanto nada diz.

- Mateus, se você visse a sua cara.
- O que tem?
- Igual à dos rapazes indecisos de Jandira.
- Controla suas fantasias aí.

À noite, Mateus aguarda ansioso pela ligação que não vem. A insônia se mantém nos dias posteriores.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Delírio de Cotard



Manhã chuvosa. Basileu acorda com Manu a encará-lo, sentada na cama. Depois do susto, vem o mau humor:

- Que foi, Manu? Parece que viu fantasma.
- Depende do ponto de vista.
- Dá um tempo.
- Queria me desculpar pelo mau cheiro.
- Que cheiro?
- De decomposição. Não consigo evitar, meu amor.

Basileu consulta o relógio: 6:50.

- Ainda faltam 40 minutos pro despertador tocar. Odeio acordar antes da hora – levanta-se à procura dos chinelos, que lhe fogem dos pés.
- Eu gostaria que você fosse mais positivo daqui pra frente.
- Você me acorda mais cedo do que devia em uma segunda-feira e pede pra eu ficar contente?
- Eu não te acordei, só enviei um estímulo telepático e você plim, despertou. Temos um elo, meu querido. Isso é maravilhoso.

O marido observa a esposa, incrédulo. Alivia-se por não possuir temperamento violento.

- Você não pode ser normal nem quando acorda?
- Baby, não sou mais como você. Eu tô morta.
- Então não acordasse tão cedo. Pode fazer o café, pelo menos?
- Você não entendeu. Eu morri. Fiz a passagem, mas continuo aqui, encarnada.

Basileu suspira. Os últimos indícios de enlouquecimento da esposa não lhe provocavam mais tristeza, apenas desânimo. Um surto pela manhã, após uma tranquila noite na casa de amigos, interrompia o progresso recente, reflete cheio de pessimismo.

- Você comeu empadinhas demais ontem. Só pode ser.
- Meu cheiro não tá incomodando mesmo?
- Não, não está. Fica quietinha aí que eu mesmo faço o café.
- Então por que o Argos não chega nem perto? – aponta para o cachorro, imóvel na porta do quarto.
- Esquece o Argos. Eu dou a comida dele.

Retorna ao perceber que o celular vibra sobre o criado mudo. Manu continua na mesma posição, olhos brilhantes e curiosos, fitando o marido como se ele fosse um animal exótico.

- Amor, e agora? Continua me vendo?
- Shhh... É do trabalho, deixa eu atender.

Basileu se atrapalha e acaba recusando a chamada.

- Merda, Manu, para de falar coisa sem sentido. Isso me perturba.
- Não se perturbe, meu querido. Eu explico.

Mesmo evitando incentivar a loucura da mulher, Basileu dobra-se diante da comovente expectativa nos olhos dela.

- Fala, Manu.
- Simples. Ou eu sou imortal ou você é médium. Seja o que for, é uma bênção. Sinta-se grato.
- Tá bom, tá bom... vem Argos, vamos fazer o café da mamãe.

Ainda nas escadas, Basileu liga para o psiquiatra da esposa. Não atende. Cedo demais, pensa. Uma segunda chamada interfere. De novo vem do escritório.

- Oi, Getúlio. Bom dia... é, desculpa. Tô tendo problemas com a Manu... não, nada grave. Oi? Vou, claro... porra, mas a reunião é às nove... relaxa, relaxa. Até mais... ah, Getúlio... não comenta nada sobre a Manu. Abraço, velho!

Basileu coloca água em uma chaleira. Disperso, esquece de acender o fogão. Tenta ligar novamente para o psiquiatra, insiste, nada. Pelo tablet, abre uma pasta secreta onde guarda artigos sobre síndromes e males que já acometeram a esposa: personalidades múltiplas, bipolaridade, estresse pós-traumático, amnésia dissociativa, fuga psicogênica e... nada parecido com o sintoma atual. O psiquiatra atende com voz sonolenta. Após breve e atabalhoada explanação do caso, o doutor levanta uma hipótese.

- Delírio de que? Cotard? – aflige-se Basileu - Que diabo é isso?

A hipótese do psiquiatra não o convence de cara.

- Tem certeza? E a esquizofrenia tá ligada a isso? Tá, entendi... e como trata? Levo ela aí?

Finalmente Basileu percebe que o fogão estava apagado. Acende prontamente.

- Não, não deixei sozinha. Tá na cama. Calma! Nervoso aqui já basta eu, doutor. Um minutinho... Manu! Manu, tudo bem aí?
- Sim, querido – responde do quarto a esposa.
- Tá tudo bem, doutor. Vou pedir dispensa do trabalho. Até daqui a pouco – finaliza a chamada, apesar da nítida vontade do psiquiatra em dialogar mais sobre o caso.

A água praticamente secara na chaleira. Alheio, Basileu permite-se responder alguns e-mails. A falta de banho e café o mantém em marcha lenta. E ainda tem que se justificar para Getúlio, recorda-se. Em outra aba, o dedicado marido busca no google informações sobre o tal Delírio de Cotard. Lá estava: a síndrome dos que juram estar mortos. O psiquiatra não estava mentindo, mas as ocorrências eram raríssimas, surpreende-se. Por que tinha que acontecer logo na sua casa, em uma segunda pela manhã? Desliga o fogo. Leva apenas água para a esposa. Tomarão café na padaria, decide. Celular toca. Getúlio mais uma vez. Porém, agora menos compreensivo.

- Foi mal! O que eu posso fazer, deixar a Manu sozinha? Porra, Getúlio, segura essa pra mim – passando em frente à janela da sala, Basileu escuta sirenes e observa a rua interditada, ambulância, viatura, caos – Não tenho opção se... desliga na cara da mãe, filho da puta!

Não encontra Manu no quarto. Porta do banheiro fechada. Deu duas batidas delicadas.

- Manu?! Meu bem, pedi folga. Vamos sair um pouco, vamos? Manu...?

Nada da esposa no banheiro, nem na casa inteira. Pela porta da rua não teria saído sem ser notada. Assustado, Basileu sua frio. Pensa em ir à portaria. Mais fácil interfonar, conclui.

- Oi, Jurandir. Manu passou pela portaria? Que foi, Jurandir?  – escuta mal o porteiro por causa do barulho de sirenes - Fala alto, caralho!

Basileu bate o interfone. Paralisado, observa a janela da sala, hesita em aproximar-se. Uma ideia sinistra o fez correr até o elevador, para então cruzar a portaria com agilidade inédita. Jurandir ainda tenta interpelá-lo com sua cantilena lamentosa:

- Seu Basileu, perdão! Já tem mais de uma hora e nada do senhor. Não avisei porque não sei dar notícia triste assim. Não fosse o senhor não interfonasse, iria ligar. Juro pelo que há de mais sagrado!

O marido se detém diante da maca onde jaz Manu. O ouvido só capta o barulho de chuva sobre a lona. Mais nada. Um carro espatifado denuncia onde caíra o corpo. Paramédicos e policiais agem em câmera lenta, extremamente cautelosos. Apenas um policial de gestos duros cumpre rotina sem pesar. Pelo rádio, passa dados sobre o ocorrido:

- Sim, rua Garcês, em frente ao número 193. Ocorrência registrada às seis e vinte da manhã. Óbito instantâneo. Isso, seis e vinte. Registrou?

Seis e vinte? Como poderia?, pergunta-se Basileu. Com uma esperança inintelígivel aos olhos dos presentes, dá as costas à tragédia e sobe 8 lances de escada até seu apartamento. Lá dentro, frustrado, nada encontra além de Argos, ansioso pela primeira refeição do dia.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Pergunte ao Obama



A pequenina Bel invade o quarto de Carlos chacoalhando colares, pulseiras, peitos e uma enorme bolsa.

- Porra, Cal! Te ligo, mando mensagem... e nada. Tá se escondendo?
- Já experimentou bater na porta?
- Rabugento! Quem tem razão para estar indignada sou eu.
- Desliguei o celular porque quero sossego.
- Posso imaginar o porquê de ter desligado. Eu devia sentir raiva de você, mas tenho mesmo é pena.
- Tá falando de quê?
- Não sabe mesmo? Peraí, deixa eu pegar o iPhone na bolsa.
- Ah, lá vem você também. Por que ninguém me deixa em paz?
- Ué, mas eu sou a principal interessada nas suas palhaçadas. E a que mais se envergonha também.

Bel saca o celular e vai direto à página de seu e-mail.

- Puta que pariu! Só enquanto eu vinha pra cá chegaram mais 2. O que tá acontecendo, afinal?
- Eu é que pergunto.
- Filho da puta! Você sabe muito bem. Ontem me mandaram prints de conversas suas, marcando encontros pelo face. E agora, pelo visto, vem mais sujeira.
- Quem mandou isso?
- Um fake qualquer que quer te foder comigo. E tá conseguindo!
- Eita, porra! Me hackearam, e isso é serio.
- Nossa, Carlos André! Agora chegou o seu histórico. Deus do céu!
- Passa pra cá. – avança Carlos sobre o iPhone.

Bel protege-se da investida com um olhar ameaçador. Depois continua a ler, enquanto o namorado se faz de ofendido:

- Ah, quer ler? Quer invadir minha privacidade? Que se foda!
- O que é ballbusting?
- Ahn...? Esquece essa merda.
- Esclarece pra mim porque eu fiquei curiosa.
- Ah, quem nunca clicou em um link sem querer, só por curiosidade?
- Mais de quarenta vezes? Olha, eu nem ligo se você tem tara por mulher que te chuta o saco, mas manter conversa com piranha e ainda marcar chopinho é demais. Tá infeliz comigo? Cai fora, meu!
- Bel, alguém tá orquestrando uma campanha contra mim. Isso é espionagem.
- Ah, me poupa! Pra que iriam te espionar?
- Pergunte ao Obama.
- Oi?
- Fui hackeado por causa do meu ativismo. A ideia deles é me expor ao ridículo.
- Você já é ridículo por si só. Não precisa de ninguém pra “orquestrar” isso.
- Bel, articulamos a maioria dos protestos. Esqueceu? Tem corporação puta com a gente, mídia descendo o pau e a CIA por dentro de tudo!
- Notei que invadiram sua conta, mas daí a acreditar que, em meio a centenas de milhares de militantes, o escolhido pela CIA seja você, é pedir pra me colocarem em uma camisa de força.
- Você é leitora da Veja. Vai sempre desqualificar nossa luta - estranha a letargia da namorada - Bel?
- Jesus Cristo! Eu ainda não tinha visto o facebook hoje.
- Eu queria te prevenir.
- Mais de 2 mil compartilhamentos. Quanta gente doente!
- A coisa perdeu o controle, mas eu posso explicar.
- Então explica isso.

Bel dá play em um vídeo e começa uma grotesca compilação de cenas, que mostram Carlos cumprindo um mesmo ritual sucessivas vezes, diante do vaso sanitário, em cujo interior está posicionada a câmera. Primeiro ele olha para a lente, diz o nome completo, a data da ação, a hora e o enigmático termo “Fecal Monitoring Project”. Aí vem a pior parte: Carlos vira a bunda desnuda, que avança em direção à tela. A massa fecal expelida é vista nos mínimos detalhes. O ânus está desfocado, mas o rosto de Carlos não, para azar do rapaz.

- Fecal Monitoring Project, Carlos André? - controla o riso Bel - Ainda bem que colocaram um blur no seu cu. Nem eu tinha te visto nesse ângulo.
- Tem um sentido nisso.
- Claro. Virar o meme mais escroto da história da internet.
- Bel, era pra ser sigiloso. Acha que eu faria se tivesse algum risco de vazar?
- E por que fez, porra? Por quê? – desespera-se Bel.
- Por causa da grana, pra me curar... – aflige-se Carlos - E também por ser uma boa ação.
- Boa ação? Quem te pagou pra fazer essa nojeira? Só pode ser algum site pornô.
- Não, Bel. O projeto é de um laboratório farmacêutico. Eles querem desenvolver um remédio para a síndrome do intestino irritável.
- Conta outra.
- Eu coleto material toda semana, mas também mando vídeos diários pra monitorarem os meus hábitos e a intensidade da evacuação. Enfim, minha vida intestinal.
- Você vendeu sua vida intestinal pra um laboratório. É isso?
- É... mais ou menos isso. Mas tem uma coisa boa além da grana.
- Aposto que sim.
- Se desenvolverem a cura, ganho medicamento pra vida toda. Aí acabou o desconforto – sorri amarelo, sem obter contrapartida alguma - Sabe o que é ter que correr pro banheiro em toda ocasião tensa?

Bel não se comove.

- Você foi feito de otário. Acha mesmo que iriam pedir vídeos das suas cagadas?
- Bel, eu li a metodologia.
- E cadê o dinheiro?
- Me deram uma parte. A pesquisa demora um tempo.
- Vai se foder! Alguém te deu um golpe pra poder colocar isso na internet. A mesma pessoa que anda te queimando comigo.

Suando pela testa, Carlos investiga os cantos do quarto, em uma afetada busca por câmeras escondidas.

- Isso é coisa de gente graúda, Bel.
- Duvido que algum outro militante esteja enfrentando isso. Só mesmo o senhor anti-tudo egocêntrico e imbecil!
- Você tá enganada. Teve uma militante nossa que já sofreu na mão deles.
- Não inventa.
- É sério. Uma mulher rica, importante e... bom, era mais um patrocínio, por se identificar com a nossa causa. Mesmo sem mostrar a cara, eles descobriram e foderam com ela.
- Imagino que você não vai contar quem é, não é mesmo?! Logo você, sempre tão discreto.
- É sigiloso, porra! Mas depois do incidente ela virou nome de lei e tudo. Achei que a perseguição fosse parar ali, mas aí vieram as manifestações e o resultado é esse que você tá vendo.
- Não tem mulher nenhuma. A CIA deve estar concentrada demais em monitorar suas tentativas de me chifrar e em saber a cor do seu cocô, claro – ironiza Bel.
- O nome Carolina Dieckman não te faz lembrar de algo? – desafia Carlos, comprovando que não é mesmo uma pessoa discreta.
- Como assim Carolina Dieckman? Você tá dizendo que...?
- Shhhh.

Bel gargalha até ficar roxa.

- Você julga as pessoas apenas pela imagem. – conclui Carlos com amargura.
- Ai, minha barriga. – tenta recompor-se Bel - A piada foi boa, mas não o suficiente pra eu te perdoar.
- Olha, eu não riria da Carol se fosse você.
- Carol?

Bel volta a gargalhar descontroladamente. Mas diante do ar impassível do namorado, a graça vai se esvaindo até ela se sentir um pouco desconcertada.

- Por que eu não riria da Carol? – desconfia Bel, ainda com lágrimas de divertimento nos olhos.
- Essa era a segunda coisa que eu tinha pra te dizer.
- Segunda coisa?

Carlos engole seco e dá as costas para a namorada.

- As minhas fotos! Carlos, elas estavam na sua máquina? Você não daria esse mole – Bel crava as unhas no braço do namorado - Olha pra mim, seu merda!

Batidas fracas na porta. Do outro lado, a avó convida:

- Meninos, o lanche tá na mesa. Fiz rocambole.
- Oba! To indo. – vibra o neto.
- Carlos, foda-se a merda do rocambole! Carlos, volta aqui!



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Emotivo


Após agradável almoço aos pés da Serra da Cantareira, Palhoça circula pela zona norte de carro, desfrutando das companhias da esposa Eunice e de Babi, a filha adolescente.

- Palhoça, que caminho é esse?
- Vou passar pelo Mandaqui.
- Ai, pra quê Palhoça...?! – reclama a esposa, com o mau humor de quem suplica por uma cesta.
- Pra Babi conhecer o bairro onde eu nasci.
- Sua casa era por aqui, pai? – interessa-se a filha.
- Sim. Um casarão ali em cima, onde hoje funciona um asilo.
- É lá que vou te colocar em breve, Palhoça.
- Ai que maldade, mãe.
- Olha lá, Babi! – aponta para a última casa de uma rua sem saída - Minha janela era aquela da direita.
- Nossa, que enorme!
- Era ainda maior. Parece que reduziram o quintal da frente.

Palhoça escancara o saudosismo no olhar, mas Eunice corta a onda, sem cerimônia.

- Pronto, já viram. Podemos voltar agora?

O pai manobra o carro sem pressa, desce até a rotatória e, ao invés de seguir pela avenida, entra por uma rua estreita.

- Palhoça, por aí não... ai, desisto.
- O que houve mãe?

Eunice apenas bufa. Do banco de trás, a filha tenta entender o estado zumbificado de Palhoça.

- Pai?
- Agora explica pra ela, Palhoça. Por que você quis passar por aqui? – desafia Eunice, magoada.
- Pai, você tá chorando. Mãe o que aconteceu?
- É sempre a mesma coisa quando ele passa nesta rua. E eu tenho que aguentar isso engasgada.

Palhoça enxuga as lágrimas, que descem em cascata até o pescoço.

- Não é nada, minha filha. Só lembranças.
- Lembrança de uma suburbana que te chutou há mais de 30 anos. Esclarece pra sua filha!
- Me deixa, Eunice.
- Para, mãe. Papai é emotivo, você sabe.
- Emotivo nada! Ele ainda gosta dessa mulher.

Palhoça chora sem aparentar dor aguda. Digno e sereno como uma Pietá.

- Filha... papai tem recordações de uma moça, que foi importante pra ele.
- Quem era?
- Cidinha é o nome da bisca – intromete-se Eunice - Aposto que ele já a procurou.
- Mãe, o papai não faria isso. Todo mundo tem um amor mal resolvido na vida.
- Olha aí, falou a voz da experiência – ironiza a mãe.

O carro para no farol. O pranto de Palhoça mantém-se imune ao clima belicoso instaurado pela esposa. Por motivos distintos, torna-se um martírio para toda a família trafegar por aquela rua.

- Palhoça, me promete que essa é a última vez que passamos por aqui. Maldita rua comprida!
- Pai, você faz o que quiser.
- Não faz não! Virou zona agora? – berra a esposa, tirando Palhoça do transe.
- Mais respeito, Eunice – o patriarca tenta, inutilmente, impor alguma autoridade.
- É você quem tá me desrespeitando! Bata na minha cara, mas não me agrida dessa maneira – descontrola-se a esposa, também à beira do pranto.
- Ai, cala a boca, mãe!

Colérica, Eunice fulmina a filha no banco de trás:

- Pela última vez: ninguém te chamou na conversa!
- O seu coração é de pedra.
- Jura?

O tom irônico da mãe faz Babi recuar.

- Quer dizer que eu sou uma mãe ruim? Puxa, logo eu, que acoberto todas as suas confusões.
- Não tem confusão nenhuma.
- Não? Posso contar pro seu pai sobre a sua cirurgia, que ele pagou feito um idiota, pensando que era um tratamento de canal?
- Para, mãe.
- Palhoça, você já ouviu falar em labioplastia?

O pai mantém os olhos lacrimejantes na pista, mas franze a testa, intrigado com a pergunta.

- Não se assuste. Sua filha só quis modificar um probleminha visual que ela tinha entre as pernas. Agora não vai mais assustar os rapazinhos – diverte-se a vingativa Eunice.

Furiosa, Babi ameaça atirar o iPhone na cabeça da mãe.

- Meu Deus! Que merda de conversa é essa? – Palhoça encara as duas, enojado.
- Palhoça, sua filha levantou a mão pra mim! Você viu isso?
- Que cirurgia foi essa, Babi? Agora, fala!
- Pai, olha pra pista.

A celeuma em torno dos grandes lábios da filha adolescente impede Palhoça de enxergar o caminhão que cruza a avenida à frente. O choque arrasta o carro da família por alguns metros.

***

Dois anos após ter a família mutilada para sempre, Babi circula pelo Mandaqui, obcecada pelas lembranças do pai. Passando em frente ao restaurante Cabaça de Mel, depara-se com duas animadas senhoras despedindo-se. Sem querer ela escuta o final do diálogo:

- Não esquece de avisar à Dulce. Espero vocês mais tarde.
- Sem falta, Cidinha.

Ao ouvir a breve conversa, Babi dá meia-volta, abandona a timidez habitual e aborda a senhora que deixa o restaurante.

- Com licença, seu nome é Cidinha?
- Sim. E você quem é, minha linda?
- Bárbara. Talvez você conheça meu pai, o Palhoça.
- Palhoça...
- Raimundo Palhoça. Ele morou aqui no bairro quando era bem novo.
- Claro, lembro! Foi meu namorado na juventude. Como vai o seu pai?

Com as costas da mão, Babi desfere tapa violento no rosto de Cidinha, que cambaleia. O segundo tapa faz Cidinha cair sentada na calçada, com uma flor de sangue na ponta do nariz, e ali ficar até ser socorrida pela amiga. Babi segue andando sem olhar para trás. Não pretendia retornar ao bairro.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Maio de 68


Desacordado após uma explosão no restaurante universitário, Damásio foi levado às pressas ao hospital, com suspeita de traumatismo craniano. Dois dias depois, enfim recuperado, recebeu a primeira visita: Patrick, amigo do movimento estudantil, de temperamento mais leve e ponderado, um tanto debochado às vezes. Damásio não compartilhava o mesmo humor, mas ficou animado ao vê-lo.

- Patrick, meu amigo! Que confusão foi aquela?!
- Relaxa. Uns dias aqui vão te acalmar um pouco, vão até fazer bem.
- Diz aí: quantos feridos?
- Deixe-me ver... mais grave só você. Sua posição geográfica não favorecia muito: perto da cozinha.
- E a Rosa? A explosão foi na hora em que eu conseguia derrubar a barricada que existe entre eu e ela. Se não sonhei, lembro até de um sorriso.
- Ela tá inteira. Só queimaduras leves. Quanto à barricada, não sei se caiu. Ela não comentou nada comigo.

De súbito, o ar apaixonado de Damásio dá vez à expressão vivaz de costume:

- Dessa vez eles se ferraram! Isso vai dar repercussão. – esfrega as mãos o enfermo.
- É verdade! Reparou como andava ruim a comida do RU? Vamos nos organizar pra dar um basta nessa vergonha. Se bem que a explosão já interditou o lugar.
- Patrick, isso é frivolidade! O que aconteceu ali tem um significado maior.
- Frivolidade? Os companheiros merecem comer tão mal?
- Tô dizendo que foi um atentado à minha vida.
- Ah, não se dê tanta importância. Foi um acidente.
- Acidente? Deixa de ingenuidade. Hoje eu sou um líder, o que incomoda muita gente da linha dura.
- Mas o que isso tem a ver...?
- Patrick, o problema não era o purê de batata, e sim nossas atividades. Os explosivos foram plantados no RU por algum infiltrado.
- Foi uma panela de pressão.
- Sim, vivemos em uma panela de pressão.
- Damásio, você tá equivocado.
- Equivocado? Viu o estrago que os estilhaços fizeram em mim?
- Estilhaços?
- Sim, quer ver minhas costas?
- Feijões.
- Oi?
- Feijões não muito bem cozidos. Foi o que atingiu suas costas.
- Para de brincadeira.
- Te juro.
- O ambiente anda tumultuado demais pra você reduzir tudo a...
- Feijões. Uma panela explodiu e o conteúdo atingiu em cheio as suas costas. Na queda você bateu com a cabeça.
- Mas... como assim? Que coisa mais patética!

Percebendo o desapontamento do amigo, Patrick tenta reanimá-lo:

- Mas veja bem, era um cozinha industrial e não era qualquer panela. Nela deviam caber uns 10 litros ou mais de feijão, meu camarada. Uma senhora panela, eu diria!
- E a Rosa, me deixou lá?
- Teve tumulto, todo mundo saiu correndo. Não a vejo desde o dia fatídico.
- Ela não veio aqui enquanto estive apagado?
- Até onde sei, sou sua primeira visita.
- Obrigado pela consideração.
- Cá entre nós, não vai ser com uma rajada de vapor que você vai derrubar a resistência dela.

Patrick nota que o pensamento de Damásio desviara-se da luta estudantil para se concentrar apenas na amiga. Ainda assim, destila o habitual deboche.

- Lembre-se que Trótski levou uma picaretada, cambaleou, mas acabou sucumbindo. Você não! Continua firme na luta, mesmo depois daquela rajada de feijões semi-cozido e efervescentes. - consola Patrick, sem conseguir disfarçar o divertimento íntimo.
- Patrick...
- Fala, meu comandante.
- Some daqui.