terça-feira, 8 de janeiro de 2013
A pergunta primordial
Valéria lava pratos na cozinha. Ao escutar um tranco na porta da rua, fecha a torneira rápido. Seguem-se barulhos de chaves caindo e de passos arrastados pela sala. Imagina ser o marido chegando bêbado, mas a surpresa é ainda mais desagradável.
- Ari? Nossa, que curativos são esses? – desespera-se ao ver o homem escorado pelo porteiro Chico.
- Me coloca aqui, Chico... isso, no sofá. Obrigado.
- Responde, Ari!
- Calma, Val. Deixa eu respirar.
- Peraí, Chico. Não vai embora. Me ajuda a levá-lo pra cama – ordena a esposa - O sofá é desconfortável.
Após mais alguns gemidos e lamentos, o marido está acomodado na cama e Chico de volta à portaria.
- Agora fala. Você sofreu um acidente? Por que não me ligou, homem?
- Val... eu te conto, mas devagar, por favor. Eu tava saindo do trabalho... e queria tomar uma cervejinha.
- E?
- Resolvi entrar naquele pub estranho... o de vidro fumê... como se chama mesmo? – pergunta-se Ari.
- Não enrola. E aí?
- Urgh... minha costela... deixa eu virar, peraí... pronto. Aí tinham quatro caras sentados lá dentro... e um negão monstruoso, perto da jukebox, na penumbra. Ele ficava sorrindo e eu só enxergava os dentes... malignos.
- Desembucha logo, Ari!
- Então os caras me envolveram, pediram cervejas por conta deles e, quando resolvi vir embora, me seguraram com uma conversa estranha. Pareciam mafiosos. Falavam sobre Grécia antiga, tribos indígenas, esfinges e... – Ari aperta os olhos como se não quisesse lembrar.
- Continua.
- Até chegarem ao que eles chamavam de “a pergunta primordial”. Aí me fizeram a maldita pergunta.
- Pergunta? Que pergunta? – Valéria treme de curiosidade.
- Queriam saber se eu prefiriria chupar um pau ou dar o cu. Cristo, que vergonha! – se contorce Ari.
- Ai, não!
- Eu respondi dar o cu, mas achei que fosse só uma pergunta retórica! Urrrgh! – geme Ari ao contrair o abdômem para pegar água na cabeceira.
- Para! Para! Eu não quero ouvir mais nada – Valéria desvia o olhar para a janela e coloca a mão na testa.
- Chupar é um ato muito íntimo, Val.
- Merda! Merda! Merda! – desespera-se a esposa.
- Então o mais esquisitão deles chamou o negão, virou pra mim e disse: Ari, você vai chupar o Lindomar. Ajoelha aí.
- Mas você não escolheu dar o cu, homem de Deus?
- Esses caras eram sádicos, Val!
- E aí, você chupou? Não protestou nem nada? – revolta-se a esposa.
- Eles pareciam armados, Val! Preferi não reagir!
- Então...?
- O negão colocou aquela coisa gigante na minha cara, aí eu não aguentei e... vomitei no pau dele.
- Vomitou no pau do negão? Aff...
- E o negão se ofendeu. Parou de sorrir na hora e me jogou em cima da jukebox. Acho que foi aí que eu fodi minha costela. Depois todos começaram a me chutar. Saí de lá me arrastando, enquanto os caras riam da minha humilhação. Na fuga eu só conseguia pensar em você, meu amor... me sentia tão envergonhado.
Valéria agarra o marido com força e começa a beijá-lo por toda a face.
- Devagar, Val!
- Acho que você foi muito macho, meu amor. Não me envergonho em nada de você – e abraça novamente o marido.
- Val...
- Diz.
- Acho que... ou melhor, o médico acha que é recomendável eu não viajar amanhã. Ok?
- Rá! Eu sabia! – larga o corpo de Ari sobre a cama.
- Val, o que foi isso?
- Sabia que aí tinha coisa. Você sempre com uma desculpa pra não visitar meus pais.
- Você tá duvidando de mim? Como você pode ser tão... desumana?
- Eu até acredito na sua história, mas também sou capaz de acreditar que você vomitou no pau do negão de propósito!
- Você tá brincando, né?!
- Ah, Ari... – sorri amarga – Quem não te conhece que te compre.
- Pirou de vez.
- Ari, sei como você é um cara esperto e oportunista. Talvez tenha sido isso que me encantou em você. Graças ao seu oportunismo temos essa casa e tanto dinheiro. Também graças a ele eu tô cada vez mais sozinha e infeliz. Você não viaja mais comigo, sequer até a Baixada pra ver meus pais.
- Você é louca? Fez toda essa leitura a partir do meu incidente com o negão?
- Você é maquiavélico, Ari! Você olhou pr`aquela pica gigantesca e viu nela uma grande oportunidade de fuga.
- Val... você tomou seu remédio hoje?
- Não me chama de louca porque quem tem problemas aqui é você. Pode ficar aí nessa cama. Eu vou sozinha... e não sei se volto.
Val bate a porta do quarto. Ari acomoda-se em meio às almofadas e sorri triunfante.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
50%
Puta festa na casa de Vitinho Pollidoro. Gaya e Ju enfim conseguem entrar no disputado banheiro.
- O Pollidoro tá me dando brecha, mas o Vitinho Villanueva fez aquela música fofa pra mim - aperta o peito, comovida - Ai amiga, vou ficar mais loucona, aí eu decido.
- Música pra você?
- É. Garota escarlate, ou menina escarlate, sei lá o nome da breguice.
- Mas o Villanueva não compôs isso pra namorada ruiva dele?
- Querida, ruiva sou eu. Aquilo é uma experiência capilar mal sucedida – Gaya encara o espelho, fatal.
Enquanto retoca o batom, Gaya escuta um barulho surdo, como um pedregulho caindo na água.
- Ah, eu não acredito, Ju! Tá cagando?
- Já caguei. E daí?
- E esse cheiro? Vai pegar mal.
- Ih!
- Que foi?
- A descarga.
Com o rosto restorcido de repugnância, Gaya larga a maquiagem e aperta a descarga furiosamente. Nada.
- Gaya, dá licença – Ju afasta a amiga e abaixa a tampa do vaso sanitário – Pronto. Abafa o caso. Bora?
- Bora é o caralho! Cheio de boy querendo usar o banheiro e essa merda aí boiando, fora esse cheiro. Vão pensar que fui eu.
- Não. Fifty-fifty.
- Oi?
- 50% de chances para cada uma.
- Filha da puta! E se o Vitinho Pollidoro entrar agora? Vai olhar isso aí, associar a mim e ficar broxado.
- Por acaso você vai trepar com o Pollidoro hoje?
- Por que não? Tô na festa dele, na casa dele e o babaca só falta lamber minha bota.
- Olha, o Pollidoro deve estar acostumado a encontrar merda no banheiro. Afinal, a descarga dele nem funciona.
- Mesmo se não for ele. Pode ser o Caio, o Macarrão, o Guto, o Vitinho Villanueva... E pior: podem entrar todos pra cheirar pó. Resolve aí, pelamor! Tenho uma reputação.
- Gaya, você tem quase 30, fuma, bebe, cheira e cai na sarjeta. Não é mais aquela paquita não. Larga de ser ridícula!
- Vai se preocupar por que, né? Seu namorado peida e arrota em público. Você também perdeu os pudores.
- E você é uma vaidosa doentia!
- Se você fosse bonita também seria vaidosa.
- Piranha! Não sei por que eu te aguento!
Batidas impacientes na porta.
- É o Vitinho, escutei a voz. Não sai agora! – sussurra Gaya.
- O Pollidoro ou o Villanueva?
- Para de me zuar e faz alguma coisa.
- Faz você! Minha "reputação" já tá cagada mesmo.
- Você começou isso!
- Infeeeerno! – Ju enfia a mão na bolsa - Toma, faz uma pá com esse flyer e empurra.
- Empurra o quê?
- A merda. Empurra pra dentro do cano. Faz uma canoinha assim, ó.
- Eu? Mas a merda é sua.
- É isso ou fifty fifty.
Gaya trinca os dentes e encara a amiga cheia de cólera.
- Tô te ajudando, Gaya. O trauma vai fazer de você uma pessoa melhor.
- Me dá essa merda de flyer, sua vaca!
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Laura decide partir
- Não sei que força magnética é essa que influencia os casais dessa cidade. Aqui a solidão parece mais assustadora.
- Essa força chama-se
dependência financeira, querido. Também conhecida como covardia.
- Laura, larga essa
mala e olha pra mim: você acha que tá sendo leal comigo?
- Rodrigo, deixa de cinismo!
Só vivemos juntos por falta de grana. Mas tudo tem um limite, cara.
- Muito conveniente!
Você arruma um emprego, vai morar com seu amante e me deixa desempregado com as contas pra pagar.
- Amante? Hahahahá! O
Alejandro é MEU NAMORADO! E você devia arrumar alguém também. Quem sabe a
felizarda não divide as despesas contigo?
- Pensei que pelo
menos fôssemos amigos, mas me virar as costas nesse momento... e por causa de
um sujeito chamado Alejandro, é ridículo demais!
- Ridículo é você! Já
sofri muito com seu comodismo. Temos que assumir nossas próprias vidas.
- “Assumir nossas
próprias vidas”? Leu isso no facebook? Você era um trapo há meses atrás, quando EU
segurei sua onda.
- Rô, nós dois éramos
trapos quando nos separamos! Só que você continua nessa. Não evolui!
- Tá confiante agora
porque aquele fresco resolveu te assumir?
- Ninguém me “assumiu”, seu recalcado! Cruzes, que vocabulário idoso é esse?!
- Alejandro é uma
fraude! Um skatista de trinta anos que ganha a vida num bistrô não
pode ser encarado como homem de verdade. Desculpe.
- E você, pode? O que
faz da vida além de beber, fumar e procurar vaga de emprego no twitter? Quais
são seus planos para hoje? Me conta!
- Bom, à tarde vou ver
uma exposição de maquetes no metrô Tucuruvi, depois vou à gibiteca da Vergueiro.
Me disseram que lá tem umas coisas raras do Flash Gordon.
- Nossa! Imperdível,
hein!? – ironiza Laura, com sorriso amargo.
- Enquanto isso o
Alejandro deve estar servindo mini alcachofras com vinho rosê no bistrozinho. Ele
sim tem uma vida fascinante! – rebate Rodrigo, cheio de rancor.
- Suas piadas com o
Ale já perderam a graça. Agora soam apenas como inveja.
- Batatinha, agora é
sério: larga essa merda de mala aí!
- Não me chama assim! Sem
intimidades daqui pra frente.
- Já sei! Temos um
quarto livre, não temos? Eu durmo nele e você e o Alejandro ficam com o maior! Meu
orgulho sairia ferido, claro, mas o aluguel ficaria mais baixo. Que tal?
Laura fita Rodrigo boquiaberta.
Nas horas tensas, nunca sabe se ele está brincando. Diante da sincera expectativa
do ex-namorado, se retorce de desgosto.
- Ah, tenha
dó! Acha que o Ale iria topar? Ele não é duro não, viu?!
- Então me leva junto!
Qualquer cantinho tá bom.
- Rô, para de se
rebaixar. Assim você me corta o coração.
- Deixa pra ir
outro dia. Olha lá fora, vai cair uma tempestade!
- Por que você faz
isso comigo?
- Não chora,
batatinha... vem cá... larga essa mala e deixa de bobagem. Isso, muito bem.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
O ritual
Com um copo de uísque na mão, Felipe fica surpreso ao atender a porta do sobrado onde mora.
- O senhor veio mesmo, seu Takeshi?!
- Mashida!
- Oi?
- Meu nome é Mashida.
- Desculpa.
- Como a gente faz com os cães?
- Pensei que o senhor entendesse de animais.
- Muito pouco.
- Acho que basta deixar os dois juntos, sossegados, a sós... não?
- Seria má ideia.
- Ué, por quê?
- Porque não vamos saber se cruzaram.
- É verdade. Não rola um cigarrinho no after?
- O senhor diz cada coisa... – reprova o risonho seu Mashida.
- Entra aí! Vamos decidir aqui dentro.
- Espaçosa a sua casa.
- Sim. Já me apresentei?
- Felipe, né? Tenho boa memória.
- Então... desculpa a abordagem no meio da rua, mas é que o Scotch já tá velho e precisa cruzar logo.
- Entendo.
- E tá difícil achar fêmea de setter como a sua.
- São animais raros hoje em dia.
- Vê se eu ia imaginar que tinha uma tão perto da minha casa?! Aliás, que bonitinha ela é, hein!? – Felipe acaricia a cadela e por pouco não leva uma mordida.
- Obrigado.
- Mas o senhor, como oriental, deve saber conduzir rituais.
- Esse ritual não pertence à minha cultura.
- Hahahaha... claro!
- Seu cão não parece muito interessado, né!?
- Talvez sua cadela não seja tão atraente assim.
Seu Mashida fecha a cara.
- Vamos beber enquanto rola a sedução? Cervejinha, uísque...?
- Não costumo beber tão cedo.
- Cedo? Mas hoje é sábado!
- Meus netos me esperam em casa.
- E daí? Eu vou tomar mais uma dose porque esses dois aí... Vai lá Scotch!
- Ele continua desinteressado.
- Calma aí, sem pressão! São só adolescentes, porra!
- Que foi que eu fiz?
- Já sei! Na internet deve ter tutorial disso. Vai que precisam de Barry White, ou velas aromáticas, né?!
- Se a pesquisa não for demorar...
- Putz, esqueci... meu note tá no conserto. Vamos pesquisar na sua casa?
- Não é boa ideia.
- Mas o senhor não mora na vizinhança?
- Não é boa ideia.
- Bom, então senta aí. Vou colocar uma musiquinha ambiente pro senhor e o casalzinho relaxarem.
Começa a tocar uma música new age repleta de sons pastoris estranhos. O anfitrião sorri divertido para seu Mashida, que nem ameaça se sentar. Apenas espicha o olhar pela casa sem conter a curiosidade:
- Sua esposa morava aqui com o senhor, não?
- É.
- Separaram?
- Isso.
- Sem filhos?
- É.
- Vive sozinho numa casa desse tamanho?
- Acertou de novo!
- Consegue viver sem uma família nessa idade? Pra mim família é fundamental.
- Meu amigo japa, pra que tanta pergunta se já deve estar por dentro de tudo? Sei como são vocês.
- Não entendi. Vocês quem?
- Vocês, vizinhos! Farejam fraquezas de gente de bem pra poder arruiná-las moralmente.
- Você bebeu demais, meu jovem.
- Aqui dentro eu bebo o quanto eu quiser. Vai espalhar que encho a cara às três da tarde? Caguei!
- Sua vida não me interessa - seu Mashida se dirige à porta da rua, mas volta ao notar que a cadela ficou pra trás.
Com voz pastosa, pontuada por gestos amplos, o dono de Scotch continua seu desabafo etílico:
- Afinal, vocês vieram lááá do outro lado do mundo pra julgar a gente? É isso?
- Peralá, eu nasci aqui! Você é que veio de Minas!
- Viu só? Como sabe que vim de Minas?
- Percebi pelo sotaque, seu doido! - levanta a voz pela primeira vez o visitante.
Com lentidão ébria, Felipe dá dois passos em direção a seu Mashida, que ao recuar esbarra no copo de uísque sobre a mesa. O copo se espatifa no chão.
- Não sou menos digno que você! - brada Felipe de forma patética.
- Olha, quem precisa trepar é o senhor, e não o cachorro – rebate seu Mashida, juntando educadamente os cacos de vidro do chão com um guardanapo.
- Eu preciso mesmo. A ideia era traçar o senhor enquanto os cães se embolavam no quintal.
- Me respeite! – aponta um dedo ameaçador para Felipe – Vem Cereja! Vambora!
- Cereja? Ah, mas se eu soubesse que ela tinha esse nome de puta não teria oferecido ao Scotch. Não mesmo! - debocha.
- Não chega perto! Vem, Cereja!
- Alá! Alá! Tão trepando! Larga ela aí, seu Mashida!
Louco de raiva, Seu Mashida ignora os apelos de Felipe e arranca a cadela da cópula. O indignado Scotch ainda morde debilmente a mão do intruso.
- Viu, japa?! Cê teve o que merecia! Empata foda do caralho!
- Seu cachorro não sabe morder. É como o senhor, só dá showzinho. Passar bem!
Seu Mashida sai arrastando Cereja portão afora. Desesperado, Scotch persegue os dois aos uivos.
- Volta, Scotch! Não vale a pena, rapaz – grita Felipe, sem convicção.
Culpado, o dono da casa sai em busca de outra dose, enquanto ao cão resta lamber o uísque do piso.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Coco Bongo Night Club
Era noite de pouco movimento no inferninho de quinta chamado Coco Bongo:
- Vê aí uma xiboquinha – pede a puta ao homem que enxuga taças atrás do balcão.
- Não prefere uma cerveja? Pode pedir na minha comanda – intervém o cliente que a corteja.
- Cerveja dá barriga. Curte puta barriguda?
- Não, não... bem pensado.
O cliente guarda a comanda no bolso e, com carinha maliciosa, acaricia a perna da puta.
- Vamos subir pro quarto? – ela se impacienta.
- Podemos conversar mais um pouco? – escancara os dentes para ela - Achei você inteligente.
- Mais? Te contei tudo da minha vida: de quando perdi a virgindade, do meu primeiro programa, do padrasto que me batia...
- Katyene, você devia ter denunciado esse filho d'uma égua!
Katyene o encara incrédula por alguns segundos. Depois encerra o assunto:
- Preocupa não, ele já morreu – se levanta e cruza os braços - Vai enrolar muito ainda?
- Ok... vamos subir. Como é o esquema mesmo?
- Vou repetir: cento e cinqüenta, fora o quarto. Oral só com camisinha e anal jamais, não insista – puxa o cliente pela mão - Vem logo!
Após pagar o programa, o cliente é levado pela puta ao cubículo.
- Lava seu pau ali no chuveiro. Toma o sabonete e a toalhinha fofa.
- Sério? Mas eu tomei banho antes de sair.
- Só uma lavadinha, vai – começa a se despir - Usa a pia mesmo.
- Tá.
- Empresta o isqueiro?
- Por que você tá susurrando?
- Tô? Nem percebi.
- Isso aí é um baseado? – ele estranha.
Katyene gesticula, pedindo para o cliente falar mais baixo.
- É, é. Deixa eu te pedir um favor?!
- Pronto. Meu amigão já tá limpinho, olha só – rodopia o pinto murcho como uma hélice.
Ignorando a triste cena, a puta prossegue:
- É proibido fumar nos quartos. Se o segurança bater na porta, diz que o béque é seu, belê?!
- Ué, mas eu não vou me foder com isso?
- Pra você não dá nada. Agora se eu for pega, tô proibida de trabalhar aqui.
- Nossa! Sendo assim...
Katyene tampa o nariz para prender a fumaça e oferece o baseado ao cliente.
- Quer?
- Não, valeu. Eu não costumo...
A puta solta uma baforada.
- Relaxa, vou te fazer uma massagem. Deita lá.
- Oba! Era tudo o que eu queria.
- Meu Deus, quantos nós! Tem tempo que você não trepa, fala aí!
- Mmmmm... é, um tempão.
TOC TOC TOC TOC
- O que foi isso? – o cliente amedronta-se.
- Calminha aí, é só um chato batendo. ACABOU AINDA NÃO! – grita Katyene, sobressaltando o cliente.
- Porra, acabei brochando...
- Ihhh... acelera isso aí – aponta pra o relógio - Vai querer como? – posiciona-se de quatro - Assim tá bom?
TOC TOC TOC TOC
- QUE É? PORRA!! – esgoela-se Katyene mais uma vez.
- ABRE AGORA! – responde uma voz rouca com igual truculência.
- Fodeu! Vou ter que abrir – levanta-se deixando o cliente com o pinto murcho na mão.
- Espera eu me vestir!
- Ah, fala que o béque é seu, tá!? – ela susurra.
- Peraí...
Com jeito insolente, Katyene abre a porta. Imediatamente o segurança coloca a cabeça para dentro do quarto.
- Que foi, Alceu?
- Deixa eu entrar.
- Pra quê? Tem cliente pelado aqui.
Alceu tenta olhar por sobre os ombros de Katyene.
- Tô vendo. Que marofa é essa aí?
- Nada. Ele acendeu um, mas eu já pedi para apagar.
Alceu atropela Katyene e entra no quarto.
- Ô malandro, levanta daí!
- Eu? – deitado na cama, o cliente tenta vestir a calça jeans mas se enrola com ela nas pernas.
- Não sabe que é proibido droga aqui?
- Calma, irmão, eu tô limpo – o cliente levanta os braços como se estivesse sob a mira de uma arma.
- Então não é seu?
- Não... ou melhor, é...
- É OU NÃO É, PORRA?
O grito do segurança faz o cliente colar na parede.
- É sim, é sim... fica frio aí.
- Tá tirando com a minha cara, mano?
- Imagina!
- Alceu, ele já apagou e não vai acender mais – mansamente intervém a puta.
- Não quero saber! O maluco disse uma coisa e depois desmentiu – Alceu fulmina o cliente com o olhar - Aqui é na base da confiança, tá ligado? Desrespeitou é rua!
- Péra lá, eu paguei, e minha massagem?
- Eu te faço uma agora, mano, vira de costas aí!
- Não precisa. Já levantei.
- Direto pro caixa sem olhar pra trás! Não quero mais ver sua cara aqui.
- Tá, mas e meu dinheiro? Vão devolver né?!
- Caralho, como tu é folgado, mano! – Alceu levanta os punhos - Já tá no lucro de não levar um cacete!
- Sem engrossar, amigo. Tô indo.
O cliente obedece ao segurança e desce direto até o caixa para pagar as cervejas que consumiu.
- Pensei que fosse dar porrada nele de verdade – acende o baseado novamente a puta.
- Katy, fiquei com a mão coçando – o segurança abre um sorriso branquíssimo.
- Você é ruim, Alceu.
- Sou nada. Quanto tempo falta, nega?
- Só quinze minutos.
- Beleza, então capricha na massagem.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Algo estranho entre Oto e Vladimir
- E se eu te disser que sinto uma parada estranha quando olho muito tempo pros seus peitos?
- Eu vou mandar você ir se foder, Vladimir.
- Oto, é sério, não consigo evitar. É como se isso aí não te pertencesse.
- Bom, nesse caso vou mandar você ir se foder e ir se tratar também.
- Cara, você tem que concordar que a medicação deixou eles meio... femininos.
- Isso é um problema hormonal, seu merda! Vai ficar de piadinha também? Tu é ou não é meu amigo?
- Eu sou seu amigo, mas você não costuma ficar sem camisa na minha frente. E aí quando fica... sei lá... não me controlo.
- Puta que pariu! Então aquele dia na praia você tava de óculos escuros pra ficar manjando meu peito?
- Que isso!?
- Tava ou não tava me manjando?
- Tava de óculos por causa do sol forte. Mas admito que reparei melhor neles.
- Deixa eu vestir a camisa antes que a coisa piore.
- Oto, não precisa se envergonhar.
- Não preciso mesmo! Você é que precisa!
- Eu sou um cara aberto. Não me reprimo. Simples assim.
- Você é gay, Vladimir. Simples assim.
- Aí é que tá! Não sou. Só curto peitos. Pinto não.
- Sei! Por via das dúvidas vou ficar sempre de camisa na sua frente. Aliás, quero mesmo é distância. Vamos dar um tempo, ok?
- Como assim? Tá me discriminando, Oto? Só porque fiz uma observação sincera sobre o seu corpo? Você não é bem resolvido com ele?
- Não sou não, e sua observação foi nojenta.
- Nojenta por quê? Eles estão bonitos. Você devia se orgulhar.
- Vladimir, você já fez sua piadinha. O que mais quer de mim?
- Nada.
- Acho que você quer sim.
- O que eu poderia querer?
- Você quer tocar neles?
- Neles quem? Nos seus...?
- É.
- Que viadagem é essa, Oto? Não tô te entendendo.
- Sei que você quer.
- Tá doido? Eu quero é superar isso!
- Pelo visto você não é tão bem resolvido como fala.
- Oto, vai operar essas tetas!
- Operar? Cê sabe que ele tá assim por causa do remédio dos rins!
- Pois é. Parece que esse remédio andou fazendo estragos na sua personalidade.
- Não fala bobagem. Só te ofereci meu peito porque sou seu amigo.
- Amigo? Oto, é melhor a gente se afastar por uns tempos, beleza?
- É... acho que já passou da hora.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Teaser
- Pai, quero uma pomba branca.
- Iberê, pomba é bicho sujo de rua.
- Então por que o moço tá vendendo naquela loja?
- Que loja?
- Ali – Iberê aponta para uma placa onde se lê: Artigos Religiosos Pena Verde.
- Vem comigo.
- Oba! Vai comprar?
Pai e filho entram na loja. Um homem os atende.
- Posso ajudar?
- Amigo, você tá vendendo pombos aqui?
- Quantos o senhor quer?
- Pai, posso escolher?
- Quieto, Iberê! Eu não quero pomba. Isso não é animal doméstico. Qual a finalidade?
- O senhor trabalha em algum órgão ambiental? – questiona o vendedor, sem perder a amabilidade.
- Não, sou biólogo. E sei que esses bichos transmitem doenças. Imagina se uma criança pouco instruída leva uma pra casa!?
- Bom, parece que o senhor também não está bem instruído.
- Olha o deboche – ameaça o biólogo.
O vendedor junta as mãos e dirige-se a Iberê com ar professoral:
- Veja bem, a pomba branca é símbolo de várias coisas: é o Espírito Santo para o cristianismo e associada também a Oxalá, o orixá mais cultuado do candomblé. Hoje em dia qualquer pessoa usa a pomba pra pregar a paz sem saber bem o significado da...
- Tá, e as pombas são vendidas pra sacrifício, não são?
- Isso é prática ultrapassada. O sacrifício costumava ser feito ao babalorixá. Se o senhor quer saber, hoje quem compra mais é promotor de evento, marcha pela paz, essas coisas.
- O pessoal que marcha pelos direitos dos animais deve comprar também, correto?
- Se não deseja mais nada, peço por favor pra dar a vez a outro.
- Outro? Ué, não tô vendo mais ninguém aqui.
- O senhor é que pensa – sussurra o lojista, dando as costas ao biólogo.
Ao notar que Iberê brinca no fundo da loja com duas pequena estátuas, o pai decide encerrar o caso.
- Vem Iberê! Larga isso aí!
Ignorado mais uma vez, o pai tenta pegar o menino pelo braço, mas tropeça em uma gaiola, que tomba no chão. A cena a seguir é espantosa: em choque, o vendedor e Iberê veem as pombas escaparem e lançarem-se contra o biólogo caído. Elas bicam-lhe as costas com selvageria.
- Iberêêê! – grita o biólogo, sem entender o ataque.
Com a tardia intervenção do vendedor, as pombas finalmente se afastam, refugiando-se nas prateleiras superiores da loja. Em prantos, Iberê socorre o ensanguentado pai.
Uma hora depois, de bruços em uma cama de hospital, sob olhares aflitos do filho e da esposa, o biólogo tem os ferimentos desinfetados. Quando a enfermeira sai por um momento, a esposa nota algo ainda mais incomum que o ataque das pombas da paz. Os cortes formam a enigmática mensagem:
AS VIÚVAS DE CHICO XAVIER
EM NOVEMBRO, NO TELECINE PIPOCA.
- Iberê, pomba é bicho sujo de rua.
- Então por que o moço tá vendendo naquela loja?
- Que loja?
- Ali – Iberê aponta para uma placa onde se lê: Artigos Religiosos Pena Verde.
- Vem comigo.
- Oba! Vai comprar?
Pai e filho entram na loja. Um homem os atende.
- Posso ajudar?
- Amigo, você tá vendendo pombos aqui?
- Quantos o senhor quer?
- Pai, posso escolher?
- Quieto, Iberê! Eu não quero pomba. Isso não é animal doméstico. Qual a finalidade?
- O senhor trabalha em algum órgão ambiental? – questiona o vendedor, sem perder a amabilidade.
- Não, sou biólogo. E sei que esses bichos transmitem doenças. Imagina se uma criança pouco instruída leva uma pra casa!?
- Bom, parece que o senhor também não está bem instruído.
- Olha o deboche – ameaça o biólogo.
O vendedor junta as mãos e dirige-se a Iberê com ar professoral:
- Veja bem, a pomba branca é símbolo de várias coisas: é o Espírito Santo para o cristianismo e associada também a Oxalá, o orixá mais cultuado do candomblé. Hoje em dia qualquer pessoa usa a pomba pra pregar a paz sem saber bem o significado da...
- Tá, e as pombas são vendidas pra sacrifício, não são?
- Isso é prática ultrapassada. O sacrifício costumava ser feito ao babalorixá. Se o senhor quer saber, hoje quem compra mais é promotor de evento, marcha pela paz, essas coisas.
- O pessoal que marcha pelos direitos dos animais deve comprar também, correto?
- Se não deseja mais nada, peço por favor pra dar a vez a outro.
- Outro? Ué, não tô vendo mais ninguém aqui.
- O senhor é que pensa – sussurra o lojista, dando as costas ao biólogo.
Ao notar que Iberê brinca no fundo da loja com duas pequena estátuas, o pai decide encerrar o caso.
- Vem Iberê! Larga isso aí!
Ignorado mais uma vez, o pai tenta pegar o menino pelo braço, mas tropeça em uma gaiola, que tomba no chão. A cena a seguir é espantosa: em choque, o vendedor e Iberê veem as pombas escaparem e lançarem-se contra o biólogo caído. Elas bicam-lhe as costas com selvageria.
- Iberêêê! – grita o biólogo, sem entender o ataque.
Com a tardia intervenção do vendedor, as pombas finalmente se afastam, refugiando-se nas prateleiras superiores da loja. Em prantos, Iberê socorre o ensanguentado pai.
Uma hora depois, de bruços em uma cama de hospital, sob olhares aflitos do filho e da esposa, o biólogo tem os ferimentos desinfetados. Quando a enfermeira sai por um momento, a esposa nota algo ainda mais incomum que o ataque das pombas da paz. Os cortes formam a enigmática mensagem:
AS VIÚVAS DE CHICO XAVIER
EM NOVEMBRO, NO TELECINE PIPOCA.
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