sexta-feira, 20 de julho de 2007

A Arca de Noé

PRÓLOGO: Noé, um barbudo de meia-idade, conversa com o céu como se fosse um maluco. E o pior é que o céu responde.

NOÉ: Deixa ver se eu entendi: Você criou tudo o que está à minha volta e agora quer simplesmente acabar com tudo?
CÉU: Minha insatisfação reside especificamente na conduta dos homens. Quero começar tudo de novo, mas pretendo poupar os animais desta punição. Por isso escolhi você, Noé, um homem bom, para conduzir um par de cada espécie animal até uma localidade distante. Claro que você levará sua família junto, assim estarei garantindo um novo começo para a humanidade.
NOÉ: E quem disse que eu sou assim tão bonzinho?
CÉU: E não é?
NOÉ: (Gasp)Oh, claro que sim.
CÉU: Providenciarei uma arca encantada. Totalmente impermeável, inquebrável e com garantia contra catástrofes.
NOÉ: E o que vai acontecer com os outros?
CÉU: Trovejarei sobre a Terra como nunca dantes. Tudo irá afundar, pode crer?
NOÉ: Se tu que tá dizendo... Mas eu tenho uma coisinha a acrescentar.
CÉU: Diga meu bom Noé.
NOÉ: Eu posso ser um cara legal, mas minha família não é. Para o bem da humanidade temos que fazer diferente. Eu não suportaria ver meus filhos trepando entre si, ou mesmo com a mãe, para garantir o futuro da humanidade. É pecado, pô!
CÉU: Não havia pensado nisto. O que você sugere para equacionarmos este problema?
NOÉ: Faz o seguinte: Cria umas três Evas pra mim e, assim, eu farei filhos com as três e estes filhos se cruzariam da mesma forma. Afinal de contas, meio-irmão não é parente. Ah, e minha família fica. Eu sofrerei imensamente, mas é pela lisura da causa. Vamos começar tudo de novo e desta vez sem pecados grotescos.
CÉU: Está bem, meu perspicaz Noé. Mas só verá as Evas em terra firme e isto se tudo correr bem.

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Cena1: Noé discursa no convés para os animais ainda em terra

NOÉ: Queridíssimos exemplares da fauna terrestre, estamos todos aqui reunidos, preparados para zarpar, com o intuito de fazer valer o sacrifício de todas as nobilíssimas criaturas na iminência da morte por afogamento no grande dilúvio. Vocês têm a divina missão de procriarem em algum pedaço de chão sagrado reservado para nós e, assim, darem prosseguimento ao irrefreável milagre da vida. Portanto, bicharada escrota, nada de comer a merenda antes do recreio! Deixem para fazer suas safadezas quando chegarmos ao nosso destino. Lembrem-se que essa nau tem limite máximo de peso.

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Cena2: Animais sobem a rampa com as caras contrariadas. Alguns comentam entre si.

CASTOR: Muito folgado esse barba branca. Só porque ele não deve dar mais no couro, fica exigindo abstinência sexual para nós.
ALCE: Tenho vontade de chifrar a bunda deste velho quando lembro que vivia cercado pelas mais belas fêmeas em idílica poligamia. Agora tenho que me contentar com esse bucho escolhido por ele. (Aponta para uma alce vesga e de aparelho nos dentes, seu par na arca.)
VEADO: (Suspiro) Para mim tanto faz. Assim que chegar na tal ilha escolhida por Noé, pretendo doar meu sêmen. Ele que faça bom proveito. Não conseguirei fazer sexo com ela. Tenho muitas saudades do meu primo... (A linda veadinha ouve o comentário, fica arrasada, derrama uma lágrima.)
Castor e Alce se entreolham. Sapo assiste a cena, faz uma careta e comenta:
SAPO: Acho que o recrutamento de Noé não foi muito criterioso...

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Cena3: Noé acompanha a subida dos animais e grita histérico.

NOÉ: Andem logo, seus mal-cheirosos!! (Encosta o cajado eletrificado na bunda do Senhor preguiça, todo distinto de maleta na mão e chapéu, que vinha por último na fila. Senhor preguiça dá um pulo e vai parar alguns metros adiante.)

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Cena4: Todos os animais já ocupam a Arca de Noé. Uma papagaia de laço na cabeça grita.

PAPAGAIA : Içar âncora!!
NOÉ: Quem manda aqui sou eu, porra! (Noé fica puto com a ousadia e dirige seu cajado eletrificado para a papagaia. Esta dá um berro e perde algumas penas no incidente.)
PAPAGAIA: Currupaco!!!

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Cena5: A Arca de Noé começa a se distanciar do continente. Porém, pode-se enxergar um animalzinho com uma trouxinha nas costas chegando todo esbaforido na praia. É o papacu da cabeça roxa de Bornéu, um animal de aparência incrivelmente fálica. Ele avista a Arca se distanciando e começa a se lamentar.

PAPACU: Ai meu Deus!! Atentem para a gravidade da situação! Meu par embarcou sem mim. Não sou eu apenas o condenado, mas toda a minha espécie. O mundo também! Como poderá evoluir sem um animal da minha estirpe? O futuro não é para os papacus. O futuro será nebuloso, frio, caótico, cruel. Eu profetizo em nome de um dos maiores carnívoros que já pisaram na terra.
O papacu se ajoelha na areia e lavanta os braços para o céu. Enquanto isso, a papacu assiste tudo do convés. Ela implora para Noé voltar, mas leva um safanão, cai na água e tenta nadar de volta para o continente. Morre na tentativa.

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Cena6: Noé passa algumas recomendações aos animais.

NOÉ: A parada é o seguinte, a comida de vocês é pouca. Portanto, só haverá uma refeição por dia.
PROTESTOS GERAIS
NOÉ: Calem-se!! Cumpram o regulamento ou serão atirados para fora do navio. Quem estiver ao meu lado será recompensado. (Noé pára de falar, percebe que o cachorro se esfrega carinhosamente nos seus joelhos.) Muito bem cão, assim você terá futuro aqui dentro. (Em seguida Noé dá um bico no cachorro.) Agora vai caçar tua cadela.
CACHORRO: Caim, caim!!
LOBO: (Vira-se e comenta com a loba) Nossa, como esse cara se humilha. A vida na cidade fez dele um cuzão. (Ao fundo, o cão, ainda com estrelinhas de dor saindo do lombo, cheira as próprias fezes.) Eca.
NOÉ: Vou para os meus aposentos. O de vocês fica no porão. Ah! Mais uma recomendação: (Tigre prepara-se para abocanhar uma cutia) Quem comer algum tripulante do navio sofrerá severas punições (Tigre sorri constrangido para cutia, que retribui lhe estendendo o dedo positivo).
CUTIA: Eu entendo, cara. Esta é a sua natureza, não é mesmo?

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Cena7: A noite vem. Nos porões do navio, o breu é completo. Os animais parecem não ligar muito para a abstinência sexual imposta por Noé. Ouvem-se comentários anônimos.

CASAL1: ELA: Nossa! Vai com calma! Nós acabamos de nos conhecer. Ui!
ELE: Sem essa. Aqui dentro nós podemos pular estas formalidades.
CASAL2: ELE: De que adianta beleza interior se o pau não tem olho?
ELA: Meu deus, fique longe de mim.
CASAL3: ELE: Nossa! Que cloaca mais fedorenta
ELA: Ei! A idéia de começar por aí foi sua, seu grosso!
ELE: Porra!! Sai daqui jumento!
ELA: Deixa ele! Vamos incrementar as coisas.
ELE : Mas ele vai te matar. É contra as leis da natureza.
ELA: Aahh, eu morro feliz.
JUMENTO: Hi-hooon, hi-hooon...

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Cena8: Dia seguinte. Noé organiza a primeira refeição do dia.

NOÉ: Vocês estão com aparência cansada. Parece até que não dormiram direito. (Animais apresentam olheiras, algumas fêmeas têm satisfação no olhar. O veado está indiferente, enquanto a veada destoa por apresentar tristeza.) O menu de hoje está muito sofisticado. Coisa boa, importada (Os animais se animam).
TATU: Se for comida árabe, vou logo avisando que sou alérgico.
MACACO: Será que é pizza?
EUFORIA GERAL: Pizza! Pizza! Pizza!
NOÉ: Façam fila, porra! Aqui não tem lei da selva não. Todo mundo vai comer.
JABUTI: Muito sensato.
Noé destampa duas bandejas. Uma pilha de feijões com olhinhos divertidos.
TATU: O que é isto?
NOÉ: São feijões saltadores. Comam antes que eles fujam.
JACARÉ: Estão fugindo!!! (Os feijões começam a saltar para todos os lados. A maioria pula para o mar. A fila se desfaz completamente, os animais correm em pânico atrás dos feijões. Noé cai no chão atropelado por um búfalo mais afoito.)
NOÉ: Vai com calma, seu bestalhão! (Os feijões bóiam no mar, felizes. Os animais observam da proa, tristes e com as línguas de fora.)
FEIJÃO1: Olhem só para estes idiotas.
FEIJÃO2: Dá até pena.
FEIJÃO3: Eles que comam uns aos outros (Surge um peixe enorme e abocanha os feijões, que não são nadadores, de uma vez só).
QUATI: Vejam, sobraram alguns na bandeja!! (Os animais, todos, se acotovelam numa corrida em direção aos três grãos que dormem sobre a bandeja. A girafa, na maior calma, estica seu pescoço, ultrapassa todo mundo e abocanha os feijõezinhos.)
GIRAFA: Hahaha! Sacaneei todo mundo (O gorila dá um safanão na cara da girafa, que perde dois dentes).
GORILA: Quero ver tu mastigar agora.
GALO: E agora, Seu Noé?
NOÉ: Não levanta esta crista pra mim não. Lamento informar que a próxima refeição é só amanhã. (PROTESTOS GERAIS) Silêncio que eu vou tirar a minha sesta!

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Cena9: Animais enfileirados com cara de cansaço, alguns já apresentam as costelas à vista.

NARRAÇÃO: Os dias sucedem-se de forma tensa. Os animais cada vez mais estressados com a tirania e o senso de humor peculiar de Noé.
NOÉ: Meus queridos, comam à vontade. (Noé destampa uma bandeja. Antes mesmo que o gambá, primeiro da fila, pudesse servir seu pratinho, uma horda de gafanhotos depositados sobre a bandeja voam em disparada. Mais uma vez a comida foge.) Ih... eu esqueci de avisar que a comida estava um pouco mal passada. Huahahahaha!
Os animais se entreolham com resignação. Um papagaio de boininha vermelha na cabeça comenta com o ornitorrinco.
PAPAGAIO: Sabe camarada, isso já foi longe demais. Temos que virar este jogo.

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Cena10:

NARRAÇÃO: Certa noite, Noé decide dar uma incerta no alojamento dos animais e se depara com o óbvio.
Olhinhos no escuro se esbaldam antes de Noé aparecer com um lampião.
FÊMEA: (...) Mas é errado. Nós já fizemos quinze filhotes e daqui a pouco vai começar a dar na vista...
MACHO: Ta bom, eu tiro antes de chegar lá.
FÊMEA: Ah, mas você sempre fala isto e...
Noé aparece com um lampião na mão
NOÉ: Ô porra! Vocês acham que isto aqui é algum tipo de orgia romana é? [Confusão geral. Macaco copula com macaca de quatro, cisnes praticam o 69 (Lindo esteticamente) e o coelho está em choque, com o pau na mão pingando, enquanto a coelha protege uma prole de quinze coelhinhos. Noé usa o cajado eletrificado para separar os animais engalfinhados.] Bem que eu vinha notando um crescimento populacional neste navio.
Do alto de seu puleiro o papagaio desafiou.
PAPAGAIO: É isto mesmo senhor Noé, nós animais optamos pela desobediência civil frente aos desmandos e regras severas impostas pelo senhor, portanto...
Antes que o papagaio terminasse, Noé, vermelho de cólera, parte pra cima do bicho que voa desesperado.
NOÉ: Ei, cão! Traga aquele papagaio para ser degolado. Taí um bichinho que eu não faço questão alguma de evitar a extinção. Vá!!
O cão entra num dilema. Em forma de flashbacks vêm à sua cabeça as diferenças de tratamento advindas de Noé e do papagaio. O primeiro sempre o tratou aos chutes, apesar de sua lealdade. Enquanto o camarada papagaio lhe ensinou muitas palavras novas e o tratou como um bom amigo.

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FLASHBACK DO CACHORRO (P&B)

OCASIÃO1: Noé e o cachorro no convés:

NOÉ: Rala peito, ô pulguento (chuta o cão).
CACHORRO: Cain!!

OCASIÃO2: O papagaio ensina ao cachorro, através de um quadro negro, palavras novas:

PAPAGAIO: Repita comigo: RE-VO-LU-ÇÃO.
CACHORRO: Au, au!
PAPAGAIO: Não, é RE-VO-LU-ÇÃO.
CACHORRO: Ão, ão!
PAPAGAIO: Muito bem, você está evoluindo (Afaga a cabeça do cachorro com a asa).

FIM DO FLASHBACK CANINO

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NOÉ: Não me escutou, animal estúpido?
O cachorro, até então em transe, volta a si e muda seu semblante. Agora rosna ferozmente para Noé.
CACHORRO: Grrrrr... Au! Au!
NOÉ: Então ousa mostrar os dentes para mim, seu primitivo! (Noé estica o cajado e o animal leva uma descarga elétrica poderosa. O cão fica atordoado e o ancião vira-lhe as costas.) Afinal de contas o que é isto? Um motim? Lembrem-se que esta é uma missão divina, portanto eu sou o todo poderoso dessa merda de jangada (Aponta o dedo para o céu).

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Cena11:

NARRAÇÃO: As coisas começam a se complicar para Noé. Os animais já não o respeitam como antes. Noé abre armários e baús e é sempre a mesma coisa.
NOÉ: Mas o que é isto? (Tamanduás transam no armário da cozinha.)
NARRAÇÃO: Cada vez mais bizarro.
NOÉ: Santo Deus!! (Abre baú e se depara com o veadinho chupando o gorila enquanto é enrabado por uma lontra.)

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Cena12:

NARRAÇÃO: No alojamento dos animais, o papagaio de idéias subversivas percebe que chegou a hora da ofensiva.
PAPAGAIO: Não precisamos deste velho para nada. Não devemos ter respeito pela causa divina que ele representa, pois impor-nos adoração de deuses não passa de uma velada prática de coação. Devemos acreditar em nosso trabalho e em nada mais. Vamos à primeira parte do plano. Quero um voluntário bem discreto para uma difícil missão. (O burro, a ovelha, o porco e o cachorro se entreolham.) Ei ovelha, vai ser você.
OVELHA: Mas por que eu?
PAPAGAIO: Porque você não apareceu na estória até agora. Precisa ser útil para alguma coisa.
OVELHA: O que eu faço?
PAPAGAIO: Vai se disfarçar de travesseiro no quarto de Noé.
OVELHA: Glup! (Arregala os olhos).

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Cena13: Noé, de toquinha e pijama, espreguiça-se sentado na cama. Há uma vela na beirada do leito. A ovelha está lá, disfarçada de travesseiro, e tremendo muito.

NOÉ: (Afofa a ovelha e deita-se)Aaah.... nada como dormir o sono dos escolhidos. (Arregala os olhos, levanta-se e começa a espirrar) Mas o que é isso? Atchim!! Eu sou alérgico a lã!! Quem botou esta merda aqui???
A ovelha pula da cama e aproveitando-se da crise de espirros de Noé, trata de cumprir sua missão.
NOÉ: Ei.... Volte aqui!!! Atchim!!
A ovelha avista o cajado pendurado num cabideiro e se apodera dele. Depois foge assustada.

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Cena14: Uma hora depois, no alojamento dos animais de menor porte físico. A ovelha é efusivamente congratulada pelo sucesso da missão. Todos a rodeiam e a afagam. A ovelha, porém, não apresenta uma cara muito satisfeita.

PAPAGAIO: Muito bem, companheira ovelha. Esta foi a nossa primeira vitória.
PORCO: É isso aí! Aquele velho grosseiro deve ter percebido que está perdendo terreno.
ORNITORRINCO: O que faremos com o cajado?
PORCO: Eu sou contra as práticas violentas. Acho que devemos destruí-lo.
PAPAGAIO: Eu também, camarada suíno. Mas às vezes, o bem de uma causa exige certos sacrifícios. Vamos guardá-lo, posteriormente podemos precisar.
ORNITORRINCO: Peraí, não exagere. Trata-se de um sexagenário autoritário. Qualquer um de nós, com um pouco de aplicação poderia derrubá-lo.
PAPAGAIO: Lembrem-se que boa parte da tripulação acredita piamente na causa divina incorporada por Noé.
PORCO: Ei ovelha, que cara é esta?
OVELHA: Quero registrar o meu protesto quanto ao artigo referente a mim. Como assim companheira ovelha? Eu sou macho. Pô! Eu sou “o ovelha” e não “a ovelha”.

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Cena15: Manhã. Noé no convés mais puto do que nunca. No seu ombro, entrelaçado em sua barba e no alto da cabeça, filhotes de coelhos e esquilos, alguns de chupeta, compõem a patética cena.

NOÉ: Deus está muito triste com vocês. Além do não cumprirem as regras impostas pelo representante Dele, agora vocês deram para invadir meu quarto durante a noite para me roubar. Onde está aquela ovelha traiçoeira?
Ovelha sai de trás do elefante
OVELHA: “Aquela ovelha” não, eu creio que “aquele ovelha” seria mais indicado.
NOÉ: Muito bem seu enxerido, devolva-me o cajado ou eu mando o leão te comer.
OVELHA: HÁ-há-há, pois saiba que o leão está do nosso lado. Não é senhor leão? (O leão parece confuso, seus olhos estão cansados como se estivessem em transe) Fala aí leão!

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FLASHBACK DO LEÃO (P&B)

QUATI: Olhem para a situação do grande carnívoro das selvas. Se comer um dedinho sequer da minha pata, ele irá queimar nas labaredas do inferno animal.
RAPOSA E GAMBÁ: Háháháhá
HIENA: Qualé leão? Vai deixar? Cê não adorava correr atrás de tudo quanto é animal pequeno só para aparecer bonito no national geographic?
Leão todo triste enquanto os bichinhos fazem roda em torno dele e cantam zombeteiros: “O leão não é de nada, virou uma piada.”

FIM DO FLASHBACK DO LEÃO

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PAPAGAIO: Ei leão, tome logo uma decisão!
O leão sai do transe e agora apresenta um semblante ferocíssimo que assusta todos os animais. O grande felino ruge apocalipticamente e os bichos se encolhem de medo no canto do navio. Menos Noé, que dá uma risadinha triunfal.
LEÃO: Grrrraaauuuuuuuurrrrr!!!!
NOÉ: hehehe... (Porém, inesperadamente o leão se volta contra Noé) Ei, peraí... fique onde está... NÃÃÃÃÃÃÃO. (Espirra muito sangue na cara dos animais que observam aterrorizados o leão devorar os dois braços e as duas pernas do velho. O papagaio decide interferir usando o cajado de Noé para conter a fera.)
PAPAGAIO: Acalme-se, companheiro leão!!!
O leão leva uma descarga elétrica e volta a ficar calminho, sob os cuidados carinhosos da leoa.

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Cena16: A noite cai. Os animais confabulam o futuro da arca.

ORNITORRINCO: Nós vamos deixar Noé viver ou sacrificamos o velho de uma vez?
PAPAGAIO: Por enquanto nós deixamos, pois a maioria dos animais acha que tudo não passou de um acidente. E continuam acreditando na missão divina do velhote. Agora ele é inofensivo se o deixarmos amordaçado no porão.
HIENA: Ei, vamos sodomizá-lo! (O papagaio, o ornitorrinco e o porco se entreolham.)

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Cena17: Porão escuro do navio. Lugar onde a sacanagem costumeira continua rolando.

JUMENTO: Sabe que para um jumento até que eu estou levando vida de rei aqui dentro.
FÊMEA: Ei, ponha só metade como nós combinamos. Pelo menos até eu ir me acostumando. Sabia que os pandas além de preguiçosos são os animais mais mal dotados da floresta?
Hiena chega com o lampião nas mãos e puxando Noé, trêmulo, por uma corda.
HIENA: Aê jumento, trouxe um cara que está louco para participar da tua festinha.
NARRAÇÃO: Seja humana ou animal, a crueldade não tem limite nesta Arca.
JUMENTO: Opa. Tamos aê!! (Close nos olhos injetados de Noé. Pavor absoluto.)

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Cena18: Imagem da cúpula pensante: Papagaio, ornitorrinco, porco e ovelha.


NARRAÇÃO: Para evitar o anarquismo, a cúpula pensante do navio colocou em prática algumas medidas estruturais. (Imagem da cúpula pensante: Papagaio, ornitorrinco, porco e ovelha.)
NARRAÇÃO2: Os animais carnívoros receberam dependências novas, abastecidas pelo vasto estoque de carne congelada, até então exclusiva de Noé. Para sorte de todos, esses animais não primavam pela inteligência. Muita comida bastava para eles. (Leão, tigre, onça pintada junto às respectivas fêmeas banqueteiam-se com enormes peças de carne crua.)
LEÃO: (Arrota) Eu ainda sou o rei dos animais. Mas como todo monarca esperto, eu prefiro deixar as funções administrativas para os outros. O bom da realeza é não fazer outra coisa além de comer pra caralho e, ainda assim, ser respeitado e adorado. (Ruge para o tigre que tentava lhe afanar um pedaço de carne.)
NARRAÇÃO3: Uma chuva fina começava a cair de forma constante. Seria o princípio do grande dilúvio bíblico? (Imagem em plano aberto da arca com chuvinha em cima.)
NARRAÇÃO4: Noé, que inacreditavelmente permanecia vivo, achava que sim. (Noé amarrado no alto do mastro grita histérico.)
NOÉ: Eu avisei, seus escrotos infiéis!!! A grande tempestade está chegando!! Sem mim vocês perderão o rumo e eu construirei uma jangada com as carcaças de vocês!! Huáháháháhá!!
NARRAÇÃO5: Pois é. A Arca agora tem novos comandantes. (Toupeira e anta usam bonés de almirante e lêem o manual de navegação de cabeça para baixo.)
TOUPEIRA: (Olha para cima chateada) Filhodaputa presunçoso!

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Cena19:

NARRAÇÃO: Parece que Noé estava certo. Uma noite a chuva começou a cair forte e não parou mais. Os animais estavam cada vez mais aterrorizados. (Animais encolhidos na proa estão molhados e róem as unhas.)
NARRAÇÃO2: Os comandantes do navio parecem não saber o que fazer. (Anta e toupeira se olham com caras assustadas.)
NARRAÇÃO3: Na dúvida, os comandantes optam por clichês da navegação.
ANTA: Estamos com excesso de peso!!! (Elefante olha desconfiado para os animais pequenos que o rodeiam.)
ELEFANTE: Deixa comigo. (Agarra um rato com a tromba e o atira no mar.)

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Cena20: Close em Noé que, de olhos fechados e semi sorriso, parece saborear o momento, enquanto escuta os lamentos vindos lá de baixo: “Nós vamos morrer”, “A Arca não vai agüentar por muito tempo”, “Auuuuuuuuu”. De repente surge, no mesmo quadro, a hiena, que subiu por uma escada e agora fita Noé com ar de deboche. O velho leva um susto.
NOÉ: Aaahhhhhhh
HIENA: E aí amigão?!
NOÉ: Saia de perto de mim, criatura sádica.
HIENA: Precisamos da sua colaboração.
NOÉ: Hahahá, esqueça! De mim não obterão informação alguma.
HIENA: Não é bem isso. O caso é que estamos nos livrando do peso morto. (Noé arregala os olhos.)

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Cena21: Hiena e ovelha olham para o mar.

OVELHA: Como explicaremos o sumiço dele?
HIENA: Ih, relaxa. Com esta tormenta toda ninguém vai reparar.
Noé bóia no mar com fisionomia catatônica. Uma enorme baleia surge e engole o que restou do velho. Dentro da baleia, Noé encontra Jonas sob a luz de uma pálida fogueirinha.
NOÉ: Jonas?
JONAS: E aê?! Tá afim de uma manjubinha assada?
NOÉ: Como você conseguiu acender uma fogueira aqui dentro?
JONAS: E você? Como conseguiu sobreviver sem os braços e as pernas?

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Cena22:

NARRAÇÃO: Os animais perderam a conta de quantos dias chuvosos haviam se passado. Um ano... ou quem sabe dois? (Imagem em close de um gato ensopado.)
NARRAÇÃO2: Durante toda a intempérie, a Arca permaneceu intacta. No entanto, os animais sofriam com a fome e a umidade. (Imagem do burro comendo o manual de navegação e, ao fundo, uma enorme carcaça.)
NARRAÇÃO3: Deus estava realmente puto pelo completo extermínio da humanidade. Seu plano parecia ter saído de controle. Até que um dia veio a trégua.
RINOCERONTE: Sabe meu querido, eu nem sinto mais a chuva caindo no meu lombo.
HIPOPÓTAMO: Seu imbecil!! Não percebe? O dilúvio findou!!
PAPAGAIO: (No alto do mastro) E não é só isto!! Vejam!!! (Imagem de uma ilha.) Terra à vista!!!

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Cena23:

NARRAÇÃO: Seria um final feliz para os sofridos animais? (Animais desembarcando na ilha.)
PAPAGAIO: Eu batizo esta terra com o nome de “Animália”.
HIENA: Nada disto! Faremos um plebiscito para definir o nome da nossa terra.
ANIMAIS EM CORO: É isso aí! Não gostamos deste nome!

Uma hora depois:

PAPAGAIO: (Cara de enfado. Enfia a mão na urna e retira o último voto) Este é o último voto. Ganhou Animália, por unanimidade.
TODOS: Viva a animália!!!!!
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Cena24:

NARRAÇÃO: Adiantaremos a nossa estória em dois mil anos. (Imagem de uma cadela tomando sol de biquíni na praia.)
NARRAÇÃO2: Isto tudo para mostrar que Deus, como toda criatura, ou entidade, ou seja lá o que, em sua onipotência absoluta, gosta mesmo é de saborear a vingança. (Imagem em close de um rato com um cigarro na boca. Sua aparência é raivosa, com cara bem desagradável.)
NARRAÇÃO3: E ela veio de forma lenta e complexa. (Plano abre. Ao lado do rato, caminhando por um beco estreito, está um touro com chapéu de cowboy, roupa branca como a dos cantores sertanejos e aparência assustada.)
BUCK (O touro): Ei Fink, eu estou com muita fome, mas muita fome mesmo. Achei um pouco injusto você me dar somente uma jujuba após termos assaltado juntos aquele supermercado.
FINK (O rato): Pára de reclamar seu molenga, da próxima vez eu não te dou nem isto.
BUCK: (Triste, quase chorando) Tenho saudades do rancho em que eu vivia.
FINK: (Doentio) Então volta pra lá seu perdedor imundo!!!
BUCK: Não, Fink. Você é meu amigo, eu não vou te abandonar. Além do mais eu prometi para mim mesmo que venceria na cidade grande.
FINK: Fique calado!! Acabo de ter uma idéia!!
BUCK: Eu tenho medo das suas idéias...
FINK: Esta é infalível. Sabe Buck, você até que faz algum sucesso com as fêmeas, não é?
BUCK: (Corado) Ah, que isso, Fink?! Eu sou muito tímido pra essas coisas, sô.
FINK: Você vai fazer programa e assim conseguiremos uma boa grana.
BUCK: Programa? Mas que diacho de trem é esse?
FINK: Fica tranqüilo que eu te explico. Eu vou te agenciar mano.
BUCK: E com esse tal de programa, dá pra arrumar grana pra comprar muita jujuba?
FINK: Jujuba é o caralho! Nós vamos comprar heroína e virar os reis da noite.
NARRAÇÃO4: Os valores familiares pareciam totalmente distorcidos e a juventude caminhava para o buraco. (Buck e Fink continuam caminhando pelas ruas imundas.)

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Cena25:

NARRAÇÃO: Os governantes pareciam ter enlouquecido de vez. (Uma família de jacarés, apertados em um sofá, assistem televisão. Na tela está um macaco engravatado e incrivelmente semelhante a Bush. Ele é o presidente da Animália Ocidental.)
PRESIDENTE: Diante da ameaça de sermos atacados por armas atômicas, não deixaremos por menos. Vamos atacar primeiro!
NARRAÇÃO2: A proliferação de armas de destruição em massa havia chegado a graus altíssimos. (Um castor com aparência maligna carrega nas costas um saco escrito “urânio enriquecido.”)
NARRAÇÃO3: Um dia, as duas últimas nações da Terra decidiram se destruir. (Imagem de uma porca de meia idade que fala na televisão. Ela é a presidente da Animália Oriental.)
PORCA: Quero avisar ao presidente da nação vizinha que estou com o dedo no botão que irá mandá-los para o inferno.
NARRAÇÃO4: E quando o debate chega a este nível, as conseqüências são previsíveis. (Imagem de dois imensos cogumelos atômicos.)
NARRAÇÃO5: Deus parece ser um tipo bem tranqüilo. Ele pode não avisar do mal que está por vir, mas dá inúmeros sinais. (Imagem de um descampado totalmente devastado, com fumaça saindo do chão. E da terra brota um minúsculo vermezinho com um saco de gelo na cabeça. Ele olha ao redor com cara desanimada.)
NARRAÇÃO6: Talvez o nosso grande Deus seja um imenso urso. Daqueles que passam boa parte do tempo hibernando. (Uma vermezinha de laço na cabeça aparece para a alegria do vermezinho solitário.)
NARRAÇÃO7: De repente ele sai da caverna e percebe a merda que fez. (Começa a chover e o casalzinho brinca pelas poças com alegria. Como se o mundo os pertencesse.)
NARRAÇÃO8: E aí, Ele decide começar tudo de novo, de novo. (A água da chuva começa a subir, mas os vermezinho bóiam e cospem água um no outro, na maior felicidade.)
NARRAÇÃO9: A história da vida é assim. Uma sucessão de erros e recomeços. O único certo neste caso foi o papacu. Suas previsões não poderiam ter sido mais acertadas. (Os vermezinhos bóiam, mortos, com cruzinhas no lugar dos olhos.)


Leonardo Paiva, 2003.

3 comentários:

Ricardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ricardo disse...

Vira quadrinho ou animação?

Chico Mouse disse...

Caraleo! Muito bom isso! Ri demais imaginando as cenas... :D