terça-feira, 19 de junho de 2007

Fim de semana no campo

Juvenal nunca fez muitas distinções entre o campo e a cidade. Não era de se deslumbrar com nada. Nascido na fazenda, onde viveu até ingressar no ginásio, mudou-se para Uberlândia quando precisou iniciar a nova fase de estudos. A personalidade dele pouco se alterara, apesar das mudanças típicas experimentadas na adolescência. Talvez, isso tenha se dado pela freqüência com que ia à fazenda. Agora, aos 16 anos, retornava para mais um fim de semana bucólico na propriedade rural da família. Trouxera três amigos, cujos DNAs eram autenticamente urbanos. Estavam lá, encostados numa cerca, à beira do riacho, falando sobre o assunto de sempre: Sexo.
- Tirando o Luciano, acho que não existe mais nenhum virgem no colégio – provocava André.
- Vai se foder, André! Pergunte à sua mãe, aquela arrombada. Te digo que ela geme como um cabritinho... Mééééé – contra-atacava Luciano, pouco ligando para o fato de André ter o dobro de seu tamanho.
- Olha Luciano, você não me engana, e eu só não vou até aí quebrar esses teus dentes de jumento frouxo porque esse sol e essa calma toda me dão uma preguiça danada. Uahhh – espreguiçou André, como um leão satisfeito.
- Gente, vamos mergulhar na cachoeira? – interpelou Juvenal.
- Ih, olha o Juvenalzinho mudando de assunto, aposto que o ideal de fêmea para ele são essas cabras e galinhas da fazenda. Diga lá caipirão: Você já trepou com alguma mulher na vida? – Era a vez de Pedro provocar.
- Já.
- Duvido!
- Mas prefiro as vacas. Não tem erro, todas são ótimas. Mulher é um bicho que nem sempre vale a pena.
O inconsciente coletivo pairou por alguns instantes. Os três amigos de Juvenal ficaram perplexos com a resposta desconcertante. Ele merecia ser achincalhado, mas só depois de uma pausa para a reflexão.
André, Pedro e Luciano explodiram juntos em gargalhadas que causavam eco.
- Ai, ai... Eu não agüento esse caipira, por isso eu gosto tanto dele... Hahahahah – contorcia-se André, transmitindo toda a simpatia irônica que nutria por Juvenal. Como espécie de líder que era, acabou influenciando também as impressões dos outros.
- Juvenal, você não existe cara.
André deu a sugestão:
- Olha ali aquela vaquinha, ela é mais ou menos do seu tamanho Juve, faz aí uma demonstração para a gente ver.
- Isso é uma bezerra, nunca fiz com uma bezerra antes. Acho que está muito nova...
- Ora, melhor ainda, as novinhas é que são as melhores. Apertadinhas... Sem contar que, com essa aí, você nem vai precisar subir num banquinho – Reforçou André, para deleite de Luciano e Pedro, que choravam de tanto rir do ar pensativo e algo louco nas feições do caipira.
- Vou lá analisar – levantou-se Juvenal, caminhando em direção ao novilho.
Luciano e Pedro iam explodir em novas gargalhadas, mas tiveram as bocas tapadas por André, preocupado em não fazer Juvenal declinar.
Sob o olhar atento dos amigos, Juvenal apalpou o bicho, abaixou-se para olhá-lo nas partes íntimas. Pareceu estar em dúvida, porém, subitamente o sangue irrompeu para sua cabeça e, como um animal, abaixou o short e...
A bezerra não emitiu som algum, apenas levantou a cabeça e abriu as entranhas num grito surdo. O bicho parecia agonizar. Começou a emitir uns sons roucos, como alguém que vai sendo estrangulado lentamente. O concentrado Juvenal seguia sem problemas com o ato, até interromper bruscamente.
Pedro, maravilhado com a cena, protestou logo:
- Ah, não vai dizer que já gozou? Êta caipira mais tarado.
- Travou – disse Juvenal, com a testa suando.
- Hein??
- Travou, porra!! – e começou a dar uns tapas aflitos no lombo do animal.
Bastou para a bezerra sair trotando com um Juvenal lívido atrás, tentando, com muita cautela, acompanhar os passos do animal, cuja rota levava à estrada.
Os três amigos ficaram sem ação. Já sentiam dores na face de tanto rir.
- Deixa ir, daqui a pouco eles voltam. Aposto que o caipira nunca mais vai querer saber de carcar os bichos da fazenda – sentenciou André.
- Ou então vai apaixonar – Todos voltaram a gargalhar.
Lá estava Juvenal, engatado na bezerra, se arrasatando estrada afora.
- Ôa, ôa, calma bichinho, calma, arre – Tentava não se desesperar.
De tão absorvido pela situação infeliz, o incauto não ouviu o ronco de motor que crescia aos poucos. Uma van já passava ao seu lado, com todos os parentes, inclusive os avós, que também vinham curtir as delícias do fim de semana no campo.
Diminuindo a marcha, a van foi ultrapassando devargarinho a cena grotesca. O motorista contratado pela família, assustado, perguntou por algo que não tinha resposta:
- Virgem Maria, o que é isso, menino?
Mas eis que Juvenal teve firmeza de espírito para responder, ou quase isso:
- Cara! Você não vai acreditar! Essa bezerra é doida! Doida!!! Eu tava ali, numa boa, mijando num arbustro, aí ela veio se aproximando de ré e deu nisso. Vê só, cara, que bicho saliente! Essa bezerra é doida!! Lelé da cuca mesmo! – E continuou praguejando, enquanto o motorista acelerava, tentando poupar a família da continuação do show. Juvenal e cia ficaram para trás, em meio à poeira da estrada de terra.
Dentro da van todos ficaram calados até a chegada. Para a maioria deles, tudo não passou de uma alucinação. Os avós, inclusive, pensavam em encontrar Juvenalzinho suave e comportado, assim que chegassem à casa. "Aquele deve ser outro garoto", tentavam acreditar. Vinte minutos depois chegava Juvenal egatado na bezerra.
Os empregados da fazenda assumiram os cuidados. Um tanto de água quente, quase morna, foi o suficiente para a bezerra ir cedendo aos poucos. Ao final, enfim divididos, cada um foi para seu lado, aliviados à sua maneira.
O fim de tarde foi bonito como nunca se vira naquelas bandas. Todos só falavam disso, e exageravam o brilho intenso do crepúsculo, talvez porque não tivessem mais nada a dizer mesmo. No campo, às vezes falta assunto.

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