quarta-feira, 6 de junho de 2007

Plexo Solar

Olha, custou muito, mas enfim podíamos afirmar que aquela onda de angústia, sem precedentes históricos, tinha balançado o autoritarismo. Como dizia o provérbio antigo, água mole em pedra dura... Neste caso, um maremoto. Mais certo ainda seria uma enchente: De mansinho, preencheu o vazio entre os corpos, depois, foi subindo lentamente, até deixar todo aquele país do extremo oriente num extremo ainda maior de sufoco.
Aí veio a pílula. E o capitalismo estafado se agarrou a ela como um náufrago. Foi preciso um século e meio para amadurecer a idéia do Estado do Coma. Como ele seria? E sua regulamentação? Sim, seria necessária uma regulamentação. Senão a idéia de Estado viria abaixo. E tudo aquilo, que havia sido construído sob indefectível vigília, nivelaria-se ao grau da barbárie ocidental. Mas pessoas começaram a querer morrer. Os motivos eram diversos, e no final, era sempre a mesma coisa: Ninguém morria. E a covardia os levava ao enlouquecimento. A honra e a impetuosidade oriental, nestes dias narrados, não freqüentam nem mesmo os livros infantis. A pílula de indução ao coma, carinhosamente apelidada de soneto, tinha vindo para ficar.
Engana-se quem atribui a sensibilidade da classe dominante aos problemas de depressão e morbidez mental da população. Aliado a isto, veio a explosão demográfica, resultado da conjunção entre prosperidade econômica e medo da solidão, que bagunçou a ilha próspera. A pílula, somente para adultos, serviu para tirar algumas pessoas de circulação por um tempo. Precisamente: quatro ou seis meses. E por se tratar de um país de pujante saúde educacional, a cultura do freelancer polivalente invadiu o país. Todos podiam sair do ar tranqüilamente, pois, existiria alguém para fazer a pronta substituição. E se surgir alguém melhor e tomar o emprego do sujeito? Não tem problema, ele poderia substituir outro. A artimanha, no entanto, era proibida para cargos de responsabilidade máxima: presidente, ministros, dirigentes de multinacionais, por aí vai. “Queria tanto ter o meu botãozinho de liga e desliga”, o que a robótica não havia concluído, o soneto dava cabo, e com um detalhe importante. Nas prateleiras, já era fácil encontrar excelentes opções para o inconsciente. Que tal apertar os olhinhos marejados, sentir as pernas fraquejarem e outras sensações causadas por imagens saudosistas liberadas artificialmente pelo soneto. Isto sem falar no mergulho pelo mundo dos fetiches. A comunidade científica corroborou: O indivíduo, amparado pela poderosa pílula, que desliga o corpo das preocupações e o induz ao auto-conhecimento seguro, renova as esperanças no presente e eleva a auto-estima. Seis meses sem comer, sendo nutrido de forma balanceada e sadia pelo composto adjunto ao soneto. Maravilha! De quebra o problema de obesidade adulta estava praticamente resolvido.
Civilização: É bom respirá-la. Ninguém para encher o saco. “Faço o que quero porque sou civilizado, e o que quero, é o certo pelo mesmo motivo”. Baseado nestes preceitos simplificadores, estabeleceu-se um código de ética entre usuários do soneto. Você pode despertar-me se quiser. É só picar uma injeção de antídoto na minha veia, mas só o fará amparado em razões previamente aprovadas por mim. Numa mensagem gravada, a pessoa em estado de coma induzido deixará explicitada as condições para ser despertada. Se não houver carta, ele não será interrompido em hipótese alguma.
Aik Shaun jamais foi despertado por alguém. “Não hesitem em me acordar se, algum moribundo solicitar minha presença, e, o motivo mais importante: Se a Kai quiser voltar para mim”. Aik é um renomado projetista de uma gigante do setor automobilístico. Sua sofisticação no trato com linhas e formas aflorou no dia em que tomou pela primeira vez o soneto. A proeminência de seu design, frente ao dos outros, permitiu a ele regalias como a estabilidade empregatícia. Isto, em tempos promíscuos como aqueles, era coisa raríssima. O jovem cresceu se achando um desafortunado e incerto sobre certas convicções convencionais. Bem cedo a dúvida fundamental: Querer ou não seguir vivendo esta vida? As primeiras experiências com a pílula trouxeram a Aik idéias excepcionais. Logo passou a receber da montadora o auxilio-soneto, pois, estava comprovado que o rendimento dele aumentava muito ao retornar de suas viagens. Mas a presença no trabalho, assim como no mundo real, começou a tornar-se rara nos últimos tempos. Das viagens pelo inconsciente, Aik não se interessava mais por trazer lembranças. Fazia questão de deixar tudo lá. Deste modo, ele ia, calmamente, construindo, tijolo a tijolo, o mundo ao qual pretendia habitar. Sim, nesta altura dos acontecimentos, incerteza alguma lhe neblinava a visão. Aik Shaun podia ser chamado de freelancer da vida, pois nesta, atuava de forma descompromissada. O desajustamento físico com o mundo concreto tornava–se notório quando, depois de sucessivas viagens, os odores o enjoavam horrivelmente. O jovem projetista, que não se nutria com nada além da pílula, era obrigado a fazer uso de adesivos gelatinosos sobre o epitélio nasal. Desta forma, podia aspirar oxigênio sem interferências aromáticas. Aik também era obrigado a tomar injeções de cálcio e fazer fisioterapia intensiva para, assim, conseguir parar de pé e impedir a atrofia geral. Só o soneto não bastava como fonte de elementos constitutivos para o organismo Passado um tempo, as injeções tornaram-se supérfluas: Aik já não levantava para nada. Num destes intervalos medonhos que vinham de seis em seis meses, o jovem tentava, de forma angustiante, mover algum membro de seu corpo na direção da pílula que repousava sobre a mesa. Impotente, ficou olhando para o céu noturno emoldurado pela janela. Sentia uma angústia sufocante. Às vezes, uma palpitação mais exagerada lhe desanuviava a mente, mas a tristeza rodopiava no ar e lhe esbofeteava novamente a cara. Num desses rodopios, assistiu aterrorizado a materialização de um vulto, que lhe tapou a vista da janela. Após a materialização, sentiu-se estranhamente calmo.
- Como conseguiu entrar aqui?
- Adiantaria eu dizer que na verdade eu não estou aqui?
Aik foi enxergando aos poucos os contornos daquele misterioso rosto e, sem sabem bem o porque, foi tomado por uma estranha emoção.
- Explique melhor... Por favor – Conseguiu balbuciar.
- Aik, você não se lembra de mim porque não chegou a
conhecer-me pessoalmente. Sou conhecido por ti apenas como o avô materno póstumo.
- E como você veio parar aqui?
- Simples, viajei quarenta anos-luz. Por isto eu disse
que na verdade não estou aqui, entende? Para você eu já morri, e para mim, você nem nasceu. Estranhas as formas como se dão estes cruzamentos, mas, acredite, eles são inevitáveis.
Aik Shaun sentiu os olhos submergirem sob densa crosta lacrimosa. Quando conseguiu emergir, lá estava a janela emoldurando o céu estrelado. Sentiu que já não havia parede cuja transposição fosse impossível. Então fechou os olhos e deixou a consciência escapulir.



Léo Paiva, fevereiro, 2005

1 comentários:

Rita disse...

esse conto me dá calafrios, é muito emocionante!