quinta-feira, 26 de abril de 2007

O filho pródigo


O filho pródigo


Toc, toc, toc.
A porta da casa grande abriu-se e, por trás dela, surgiu um criado narigudo com ares petulantes, e se assustou com o que viu. Reproduziu estas palavras com o indisfarçável sotaque de gentio do interior:
-Por júpiter! Passa fora daqui, ô lazarento!
Era perfeitamente compreensível o susto do criado da fazenda. Estático à sua frente estava uma figura de causar náusea: Cabelo comprido, tão sujo que já se percebiam dread-locks, roupas rasgadas e imundas a ponto de não se imaginar as cores originais, o cheiro era algo indescritível, e tinha também mostarda nos sapatos(!). O criado ainda insistiu.
-Chegaste em péssima hora. Não temos comida a dar nem aos porcos, a você então... Passar bem e, por favor, evite aproximar-se dos animais para não contaminá-los com alguma pestilência – O pobre miserável enfim retrucou e o fazia com certa nobreza.
-Contaminada estava minh’alma, mas ao defrontar-me com a dureza dos desvalidos... – O criado impacientou-se.
-Ei, ei! Eu não perguntei nada. Mas que maldita época esta em que tudo quanto é cão sarnento anda com a maior pose de Messias e ainda fica tagarelando por metáforas. Vai procurar teu rebanho e não canse a minha beleza. – Dito isto, bateu a porta com desmazelo.
O mendigo não arredou o pé da porta que, lentamente, foi se abrindo de novo e, a mesma cara nariguda apareceu.
-Tu me lembras alguém. Claro, parece com Simão, o filho do meu patrão Booz. Serias tu o outro filho que partiu daqui a algum tempo? – O empregado já tinha certeza disto, sabia que aquele playboyzinho não resistiria muito à vida lá fora, portanto nem esperou a resposta – Venha, entre, desculpe os maus modos, é que sou novo na fazenda. Meu patrão não vai caber em si de felicidade, certamente irá querer matar o bezerro gordo em sua homenagem. Será uma boa hora para pedir um aumento.

A notícia havia chegado ao estábulo e uma vaca chorosa vivia momentos de apreensão junto ao seu único bezerro.
-É mesmo o que você quer, meu filho?
-Mãe, se eu não fugir serei sacrificado. A vida inteira vivi este paradoxo. Fui criado com amor e fartura para ter este inapelável fim. A volta do filho pródigo acelerou o meu destino. Peço-lhe minha parte da herança para poder mudar esta realidade. Sei que o seu orçamento é pequeno, mas...
A pobre vaca não parava de chorar, então o boi assumiu as negociações.
-Ele está certo. Este menino é gordo e imaturo, precisa de uma experiência como esta. Além do mais, não há outra saída.
-Filho, snif... O que temos não é muito. Um pouco de alfafa e o sino que carregava no pescoço para lhe entregar um dia – conseguiu balbuciar a vaca, para revolta do boi.
-Que sininho o que! Quer que ele vire alvo fácil para os predadores. Leva um pouco de alfafa e o resto ele rumina.
Enfim, o bezerro gordo partiu, levando seu quinhão de alfafa sob o olhar bovino da vaca resignada. Lamentou muito por não ter fundos para mandá-lo p’ro exterior.

A notícia da fuga do bezerro gordo, xodó da fazenda, desanimou muito as festividades. Passadas as comemorações da volta do filho pródigo, o que ficou foi o vazio nos corações do velho fazendeiro e dos outros. O filho pródigo voltou mais chato do que nunca e sua serenidade de sábio hindu fez dele uma figura ainda mais inútil.
Um dia o bezerro voltou. O animal não sabia quanto tempo tinha ficado fora, pois os bovinos contabilizam o tempo de forma muito complexa. Talvez duas semanas. A alegria foi enorme, o animal voltou cansado e raquítico. Simão, o irmão do filho pródigo, com todo o seu senso de justiça, sentenciou:
-Vamos servir um banquete para o pobre animal!
O empregado novo da fazenda deu cabo de girar o espeto que empalava o corpo do filho pródigo. Era menos apegado ao bichinho. O bezerro comeu com molho inglês e muita satisfação. Depois voltou para o estábulo e abraçou ternamente sua mãe.

MORAL: O que te alimenta, às vezes, também te devora.

*Ilustração de Ricardo Coimbra